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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. Francisco Emygdio de Fonseca Telles - 1931-Mar/Abr e 1934-1936

Prof. Dr. Francisco Emygdio de Fonseca Telles - 1931-Mar/Abr e 1934-1936

FranciscoEmygdioDeFoncecaTellesExercício: 1931 - Mar/Abr e 1934 a 1936

Filho de Antonio de Queirós Telles e de Evangelina Fonseca de Queirós Telles, Francisco Emygdio da Fonseca Telles nasceu em dezembro de 1888. Estudou na Bélgica, na Universidade de Liége, onde titulou-se engenheiro eletricista e de minas.

Na Escola Politécnica de São Paulo ingressou em 1914 como professor substituto de Eletrotécnica, e já no ano seguinte, foi efetivado como docente da cadeira de Física Industrial e Eletrotécnica. Em 1926, por sua vez, foi nomeado professor catedrático.

As palavras do engenheiro D’Alessandro elucidam bem o caráter e o perfil profissional de Telles: foi“(...) o engenheiro, o político, o patriota, o professor, e mais que tudo, o educador”. Conta-se que após o concurso que assinalou a sua entrada para a Escola, recebeu um ofício assinado por Antonio Francisco de Paula Souza comunicando-lhe a escolha do seu nome para a vaga de substituto interino da nona seção de eletrotécnica. Logo, apresentou-se prontamente, recebendo as felicitações da Congregação e da Diretoria, prática corrente na época, agregando-se dessa forma, ao corpo docente. Nesse ínterim, por ocasião de adentrar o prédio da Politécnica, encontrou o então diretor Paula Souza e seu secretário “o saudoso Dr. Rodolpho Baptista São Thiago” que estavam de saída. Agradeceu ao diretor pela escolha de seu nome, o qual, por seu turno – relata D’Alessandro -, com uma expressão incomodada em seu rosto acrescentou-lhe: “Mas o senhor não tem nada a me agradecer!”. A tal atitude, rememora o mestre Telles, ficou “um pouco perturbado diante daquela figura austera, que assim me cortava a palavra como se eu estivesse praticando uma inconveniência, tive que reunir toda a minha coragem para insistir, com firmeza, no meu direito, e, o que era mais, no meu dever de agradecer a comunicação e as felicitações recebidas (...) Só mais tarde, lembrando-me que ele, embora mal me conhecesse, era um amigo de minha família, suspeitei a causa daquele impulso, que tanto me desconcertava”. (D’Alessandro, A. A Escola Politécnica de São Paulo, 1943)

Imbrincado em seu ofício, o professor tomou parte das discussões em voga no final da década de 1920 acerca da criação de uma Universidade Brasileira. E refletindo sobre a situação do ensino superior no País afirmou:“não temos universidades no Brasil. Tem-se chrismado com esse nome, em mais de um logar, o conjuncto de escolas superiores especialsadas, destinadas à formação de profissionaes”. Envolto ainda nesse mesmo debate, em artigo para a Revista Politécnica de 1929, fez seu o pensamento do professor Fauconnet, da Sourbonne, na França, de que: “(...) quando se ensinam apenas noções já estabelecidas, não se faz ensino superior” e aponta como premente a necessidade da criação de universidades no Brasil que possam possibilitar o “desenvolvimento da cultura desinteressada e da pesquisa scientífica em todos os ramos do saber humano" de modo que se promova a “independência intelectual do paiz” (Revista Politécnica, 1929). Em sua concepção, os únicos estados preparados a abarcar instituições desse porte naquele momento eram São Paulo e Rio de Janeiro pelo fato mesmo de que a universidade deveria ser formada e mantida pelo estado, mas com autonomia adequada ou total.

A sua trajetória na Escola Politécnica foi marcada também pelos cargos administrativos. Foi seu quarto diretor, realizando duas gestões. A primeira constituiu-se de apenas alguns meses durante o ano de 1931, na medida em que o mestre pediu ao interventor federal de São Paulo, a demissão do cargo. Em carta enviada ao governo, fez questão de reiterar que essa decisão não era de cunho político, ressaltando que “nem seria capaz, dentro da Escola Polytechinica, de fazer qualquer demonstração de caracter político”. (Carta enviada ao dr. Shalders, 6 de agosto de 1931). Reassumiu a diretoria da Escola três anos depois, de 1934 a 1936, logo após a gestão de Carlos Gomes da Souza Shalders.

Membro ativo no movimento paulista de 1932, atuou como parte integrante do governo “provisório” formado em 23 de maio daquele ano. Em detrimento dessa participação, acabou por ser exilado do Estado de São Paulo e enviado para a cidade do Rio de Janeiro, onde ficou detido no Presídio do Meyer. No mês de outubro, de súbito, foi transferido para Lisboa, de maneira que ficou impossibilitado de voltar ao Brasil. Somente em 1933 regressou, recebendo uma homenagem do Grêmio Politécnico por ter “desempenhado papel de relevo no movimento constitucionalista”. (Revista Politécnica, 1933)

Como docente, diversas são as lembranças que o cercam. O então aluno D’Alessandro, comenta: “Tenho para mim que, também nesse particular, o doutor Fonseca Teles foi um dos mais completos professores do meu tempo; pois ainda hoje, revendo os meus ‘guardados’, no meio da grande ruma de cadernos, que conservo com carinho mais sincero e comovido, avultam os meus apontamentos de Física Industrial.” (D’Alessandro, A. A Escola Politécnica de São Paulo, 1943). Por outro lado, o engenheiro Oscar Costa - que havia ingressado na Politécnica em 1930 - denota que “ele era muito clássico, bem rotineiro, pensativo e ele não era ainda naquela ocasião (único da década de 30) considerado a Gioconda que ele foi considerado em outros tempos, então uma coisa assim, um sorrizinho que o fizeram chamar de Gioconda (...) O Fonseca Telles era outra figura, naquela ocasião sem muita projeção, o curso dele [ eletricidade] era meio apagado(...)”. (LOSCHIAVO, M. C. Entrevista com Oscar Costa, 1983).

Ainda em discurso como paraninfo da turma de 1936 espelha suas preocupações enquanto homem concatenado ao seu tempo e formador de engenheiros: “Entraes hoje para um dos corpos de elite da nossa organização social. Deveis reflectir na immensa responsabilidade que esse facto faz recahir sobre os vossos hombros (...) tem o engenheiro, nas suas realisações, a obregação precipua de não perder de vista o fator economico (...) a obra do engenheiro tem como elemento de maxima importancia o custo” referindo-se àqueles que defendiam a tese de que os custos de obras de utilidade pública não tinham relevância e, destacando, da mesma forma, que esse tipo de atitude levava a resultados desastrosos. Somados a esses mesmos custos, levantava a questão da falta de mão-de-obra que o começo do século XX trazia em seu bojo. Por esse conjunto de aspectos delineava ser imprescindível o equilíbrio entre teoria e prática, uma não tem eficácia sem a outra. Incentivando aos formandos, postulava “ a fonte profunda de energia (...) dae a vossa vontade a sua maior tensão para que vossa intelligencia posssa attingir irradiação maxima (...) ela é a força mysteriosa e milagrosa que dá a tempera ás virtudes”. (Discurso de Francisco Emygdio da Fonseca Teles, Revista Politécnica, 1936)

Nesse sentido, pensador dos momentos de crise que imperavam durante as primeiras décadas do século XX, expunha o fator de que “estamos vivendo um momento difficil da vida da humanidade (...) No auge da civilisação, que tanto accentuou a disparidade entre o progresso material immenso e o escasso progresso moral, presenciamos o doloroso espetáculo de uma confusão mental generalizada, que a instabilidade política e social dos nossos dias ainda viu exacerbar. Dahi a negação dos valores mais authenticos ... o entusiasmo facil por ideias e systemas, em que a ingenuidade corre parelhos com a imbecilidade, a victoria do empirismo ... o endeusamento de individuos, e os excessos da mystica nacionalista”, fazendo clara alusão aos regimes autoritários então emergentes em várias nações. (Discurso do professor Francisco Emygdio de Fonseca Telles,

Revista Politécnica, 1936).

Por fim, vale ressaltar que foi membro da Academia Brasileira de Ciências e pouco antes de ser exilado, no ano de 1931 – estando também momentaneamente afastado da Politécnica – exerceu a função de Secretário de Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo. Trilhando, portanto, um caminho em dedicação às causa civis e à docência, jubilou-se em 1949 e no ano de 1971, faleceu.