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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. Rodolpho Baptista de São Thiago - 1928-1930

Prof. Dr. Rodolpho Baptista de São Thiago - 1928-1930

RodolphoBaptistaDeSaoThiagoExercício: 1928 a 1930

Traçar um panorama biográfico do docente e diretor da Escola Politécnica de São Paulo Rodolpho Baptista São Thiago é, como elucidam as palavras do professor Victor da Silva Freire, “simples, como são todas as coisas grandiosas. Dedicou a sua vida à formação moral dos engenheiros paulistas. É a sua glória.” (Anuário, 1934).

Nascido em 4 de abril de 1870 na cidade de Vassouras, interior da então Província do Rio de Janeiro, São Thiago cursou os estudos secundários no colégio Alberto Brandão, ingressando a seguir na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, da qual, em 1893, saía titulado engenheiro civil. Esse período de sua formação conjugou-se com momentos incisivos da história brasileira. Em realidade, configurava-se um quadro de transição que culminara com a derrocata do Império e da instituição escravista, trazendo, por consequência, o advento da República. Em meio a esses acontecimentos, o jovem professor, filho da oligarquia cafeeira carioca, vira sua mesada estudantil esvanecer-se pelo comprometimento financeiro que propiciava o aliciamento de trabalhadores livres para a lavoura da família. Assim, em paralelo à graduação, teve o encargo de lecionar matemática no Instituto Profissional do Rio de Janeiro e, provavelmente, devido à experiência nesse e em outros estabelecimentos de ensino, já começava a aflorar “sua grande qualidade de esplendido explicador.” (Revista Politécnica, 1933). Ainda nesse entremeio histórico, em 1893 foi ativista da Revolta Armada, alistando-se no Batalhão Acadêmico ao lado de Floriano Vieira Peixoto.

Sua trajetória profissional no papel de engenheiro civil deixou marcas nas localidades onde passou. Dentre as inúmeras estradas de ferro para as quais colaborou na execução, está a requerida pelo governo do Ceará em 1916. Além do que, também tomou parte da Comissão de Saneamento do Interior do Estado de São Paulo e depois da própria capital, aí realizando, com grande perícia, importantes trabalhos relativos aos serviços de água e esgoto.

Foi através da Escola Politécnica de São Paulo que ingressou no âmbito acadêmico. Em 15 de outubro de 1898 assumia o posto de professor interino substituto e em 9 de agosto de 1901 tornava-se catedrático de Geometria Analítica e, mais tarde, de Cálculo Infinitesimal.

Para além de suas atividades como docente, foi a partir de 1902 – e durante vinte e seis anos – secretário da Escola. Em discurso de agradecimento a uma homenagem recebida no ano de 1934, relembra os primeiros tempos, quando da sua entrada na instituição e a relação estritamente profissional que mantinha com o professor e fundador Antonio Francisco de Paula Souza. Logo, comenta que ao ser nomeado secretário, “não foi surpresa, espanto, o que senti, naquelle momento, meus amigos; foi estonteamento!”, pelo fato da escolha de um cargo de tamanha confiança ter recaído sob ele. Nesse sentido o professor Paula Souza dizia-lhe, “tenho certeza de que nos entenderemos”, deixando mesmo tempo livre para que São Thiago desse a resposta, a qual prontamente foi afirmativa. A partir dali floresciam laços de grande amizade entre os dois mestres: “Desse dia em diante, hora por hora, e toda vez que as necessidades do serviço nos punham em contacto, fui sentindo quanto do bom, generoso e sincero brotava daquella alma tão eficiente [remetendo-se ao professor Paula Souza]. Com o decorrer dos annos, a nossa amizade foi se estreitando cada vez mais e de tal sorte, que me punha elle ao par de seus pensamentos mais íntimos.” (Discurso de agradecimento do professor Rodolpho Baptista São Thiago, Anuário, 1934). Foram quatorze anos de convivência que, segundo ele, passaram muito rápido.

Também com Francisco de Paula Ramos de Azevedo estreitara relacionamento, elucidando que este era “(...) de coração boníssimo e generoso, e cujo nome somente se deve pronunciar com estima, respeito e saudades.” (Discurso de agradecimento do professor Rodolpho Baptista São Thiago, Anuário, 1934). Como terceiro professor a assumir a direção da Escola - “ele sucedeu ao professor Ramos de Azevedo como terceiro diretor da Escola Politécnica, exercendo esse alto cargo com grande dignidade e eficiência” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Luiz Cintra do Prado, 1982) -, São Thiago comenta que fora “o traço de união entre as duas diretorias e por isso posso attestar-vos que unicamente de nome mudaram ellas”, referindo-se à mesma linha de orientação administrativa até então impressa pelos diretores (Discurso de agradecimento do professor Rodolpho Baptista São Thiago, Anuário, 1934). Aliás, conta-se que nas primeiras décadas de funcionamento – relativas de modo principal às duas primeiras gestões – a Escola driblava um orçamento apertado. São Thiago, na época secretário, tinha que manter as finanças sempre na “ponta do lápis”, chegando mesmo a dispor do restrito saldo anual de 16 contos de réis.“Assim era Escola de Paula Souza: rigorosos no cumprimento dos regulamentos e orçamentos, um pouco ásperos com os transgressores da ordem financeira da casa, mas, tratando-se do progresso do ensino, solidários todos, até mesmo com aventuras como esta [de gastar 16 contos de réis ao anos].” (D’ALESSANDRO, Alexandre. A Escola Politécnica de São Paulo, 1943).

Especialista em cálculo infinitesimal, como professor dividia o curso em duas partes: cálculo diferencial e cálculo integral. As aulas, por sua vez, eram ministradas no Edifício Paula Souza, em frente ao corredor que dava acesso ao Anfiteatro de Química (onde realizavam-se os exames parciais). Foi um mestre estimado pelos estudantes. O relato do ex-aluno D´Alessandro é contundente ao retratar essa figura de tamanha importância à memória da Politécnica: “(...) e as aulas, mesmo à hora em que eram dadas (13½ - 14½), tinham sempre a totalidade da freqüência, pois ouvir as lições do saudoso mestre era um prazer, que todos tinham em alta conta. E só a sua presença, na cátedra já era para a turma um motivo de justo orgulho pela Escola, que tinha a felicidade de contar no seu corpo docente com um professor de têmpera de Rodolpho Baptista Santiago. De fato, ao assumir o seu lugar na mesa, depois de nos ter cumprimentado com um leve sorriso à flor dos lábios, na sua estatura, mesmo pequena (que gritava a perfeita inteireza do procardo: o pequeno frasco é o que contém o melhor perfume), avultava naquela cátedra, que ele tanto honrava. Trazia, sempre consigo, o programa da cadeira, no qual era o sumário do ponto do dia. E atirava-se logo para o quadro negro, que enchia de fórmulas e de letras e números, sem nunca ter tido a necessidade de consultar notinhas e papeizinhos, disfarçados nas pastas da sua mesa. Tinha o raciocínio pronto e dirigido por uma inteligência invulgar: não mastigava frases, nem repetia palavras. As suas exposições eram feitas com a segurança de quem, sabe, numa correção de linguagem verdadeiramente sóbria: encantavam os que a ouviam e prendiam a nossa atenção (...) Como elemento de convicção ou de afirmação, usava a cada passo a expressão: - Ora bem! Que êle acompanhava com um gesto elegante de cabeça, movendo-se rapidamente para a esquerda e para a direita, como se assim afastasse toda a incerteza que pudesse haver nas conclusões da matéria (...) Era pronto em correr em auxílio de quem não tivesse bem compreendido certas passagens, às quais voltava com entusiasmo, só as deixando, quando o interessado dava mostras de aproveitamento (...). Era verdadeiramente amigo de seus alunos. E tinha sempre uma nota de carinho nas conversas que à-meúde, mantinha com êles (...) animava a todos e terminava sempre com o conselho: - Ora bem! Trabalhar, eis tudo! É preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar! (...) E êle foi verdadeiramente um ídolo das gerações que passaram pela Escola, no longo período das suas atividades, que se iniciaram com a sua posse de outubro de 1898 e só terminaram a 23 de maio de 1933, nas vésperas da sua morte (...) Nunca teve nenhum incidente com alunos e nunca nenhuma reclamação sôbre as notas, que nos atribuia sempre com justiça requintada.”(D’ALESSANDRO, Alexandre. A Escola Politécnica de São Paulo, 1943).

Algumas histórias peculiares ainda envolvem esse universo da relação com os estudantes. Conta-se que certa feita um aluno amedrontado com os exames orais, fugiu da Escola para não ter que enfrentá-los, pois eis que o professor foi até a casa dele buscá-lo para que fizesse as ditas provas. Observando seu sucesso, arrematou o seguinte ideário: “Veja lá o que ia o senhor fazer! Perder um ano sem motivo algum e atrasar o seu curso dessa maneira! Veja lá! Veja lá!”.(D’ALESSANDRO, Alexandre. A Escola Politécnica de São Paulo, 1943).

O docente Alexandre Albuquerque, por sua vez, em discurso proferido durante as comemorações dos 36 anos da fundação do Grêmio Estudantil da Escola Politécnica de São Paulo retrata de maneira contundente o que o docente representa para a Escola: “(...) Muitos são da época de Paula Souza, de São Thiago, e de Ramos de Azevedo. O primeiro, símbolo máximo de nossa Escola, foi, acima de tudo um grande forjador de caracteres. Ensinava-nos, não a solicitar, mas a exigir os nossos direitos (...). O segundo - o íntegro São Thiago – sacerdote da bondade e da retidão, foi o digno companheiro de Paula Souza, e não trepidava em abandonar interesses pessoais que exigissem a sua atividade nas horas do expediente escolar, ensinando-nos, com o próprio exemplo, que pouco digno seria proceder de modo diverso. O terceiro – Ramos de Azevedo – o inconfundível administrador, jamais discursou dos seus deveres, apesar das suas múltiplas atividades sociais (...).” (Revista Politécnica, 1939-1940).

Assim, tão imperante era a sua figura de mestre que em 21 de junho de 1928 instituía-se – em sua homenagem – o prêmio “São Thiago”, dado ao aluno que se destacasse nos estudos da matéria lecionada pelo professor.

Permaneceu à frente da direção entre os anos de 1928 e 1930. Decorrido o período obtuso representado pela Revolução Constitucionalista de 1932, pediu seu afastamento, já prenunciando problemas de saúde. Não obstante, a Congregação lhe rogou que continuasse na instituição por mais cinco anos, ao que o professor, zeloso em suas atitudes, por fim, postulou: “Quis essa illustre Congregação, por demasiada confiança e distinção que, não obstante ter já perto de 35 annos de magistério e portanto com direito (...) continuasse como professor da Escola por mais 5 annos. Dado o grande amor que sempre votei a nossa Escola (...) recebi com jubilo a notícia e há já pouco mais de um anno venho cumprindo fielmente o meu cargo.

Acontece porém que pertubações na minha saúde que me assaltaram em abril, tem se agravado a ponto de não poder eu continuar no exercício da minha cadeira, a conselho de vários e distinctos médicos (...)

Diante disso somente me resta o doloroso recurso de solicitar da Congregação (...) a aposentadoria me seja concedida a contar dessa data, afim de acautelar os interesses do mui distincto adjunto a quem compete substituir-me(...)” (Carta enviada à Congregação a 11 de maio de 1933, Anuário, 1934).

Tão-somente pela enfermidade, o professor São Thiago punha um ponto final em sua longa e bem sucedida trajetória na Escola Politécnica de São Paulo. A aposentadoria foi-lhe então concedida em 23 de maio de 1933 - e em setembro do mesmo ano faleceu -, ao que expressando o momento vivido prenunciava: "(...) essa dura resolução em benefício de minha saúde, pois que na Escola Polytechnica vivi os melhores annos da minha vida e é à ella me sinto tão ligado que só forçadamente della me afasto. Ausentando-me da Escola, trago para o meu isolamento as gratas recordações de 35 annos ininterruptos nella vividos.” (Carta enviada à Congregação a 11 de maio de 1933, Anuário, 1934). E, sem dúvida, essas palavras encerram em si mesmas os elos do mestre com suas propostas de vida e sua atuação na Politécnica.