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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo - 1917-1928

Prof. Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo - 1917-1928

FranciscoDePaulaRamosDeAzevedoExercício: 1917 a 1928

Não obstante ser filho de uma tradicional família de Campinas no interior da então Província de São Paulo, Francisco de Paula Ramos de Azevedo nasceu na capital. Sua mãe, D. Ana Carolina de Azevedo, na ocasião grávida, precisou em 1851 seguir às pressas para a cidade de São Paulo, onde sua irmã encontrava-se acometida de doença. Assim, em 8 de dezembro daquele mesmo ano deu à luz ao futuro engenheiro.

 

Filho do Major João Martins de Azevedo - por sua vez membro de uma família abastada da região - Ramos de Azevedo sempre se orgulhou de suas origens, acreditando ser um “legítimo campineiro”. Desta forma, estudou e passou a juventude em Campinas, deixando-a apenas quando adulto quando cursou a Escola de Artilharia Militar no Rio de Janeiro, carreira que, no entanto, abandonaria após o término da Guerra do Paraguai.

Resoluto em suas decisões, foi morar no exterior com o intuito de instruir-se na École Speciale du Génie Civil et des Arts et Manufactures Annescée da Universidade de Gante, na Bélgica. Ali estudou engenharia, empenhando-se ainda em assuntos relativos à arquitetura, tanto que em 1878 teve seus desenhos expostos na Exposição Universal de Paris. Logo, como aluno, mostrou-se muito aplicado: a sua excelente capacidade em desenho lhe rendeu elogios do diretor da Universidade. Finalmente graduado, em 1886 retornou a Campinas.

O Visconde de Parnaíba, grande incentivador do estudante Ramos de Azevedo, quando no cargo de presidente da Província de São Paulo, o convidou para chefiar a Carteira Imobiliária do Banco da União. Desta feita, foi que emergiu a oportunidade de dar a cabo a um conjunto de obras que marcaram o cenário urbano da capital paulista.

Sua carreira profissional teve, assim, dois veios que se complementavam: o de engenheiro e o de docente da Escola Politécnica de São Paulo, onde como em um crescente, tornou-se professor, depois vice-diretor e, por fim, diretor. Na cadeira de Construções Civis e Higiene das Habitações, o docente, caracterizado por muitos como austero e disciplinador, mantinha o bom humor e achava tempo livre para encontrar e conversar com os colegas.“Ele ocupava a sala 14 do edifício Paula Souza, onde chegava com antecedência para preparar desenhos e o material necessários para dar aulas.” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com Ernesto de Castro Filho, 1981).

O então estudante Luiz Cintra do Prado comenta que “ao entrarem na sala de aula, os alunos encontravam, desenhados a giz no quadro negro, as principais figuras que iriam ilustrar a preleção do mestre (...); ao fim da lição o professor Ramos de Azevedo deixava com um dos alunos algumas laudas de papel onde ele de antemão havia escrito um resumo da matéria que ia explanar naquele dia.” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Luiz Cintra do Prado, 1981). Era atencioso e educado, mas não gostava de bajuladores. “Sempre bondoso, com palavras de animação e estímulo, attendia a todos que o procuravam, guinando e aconselhando, encaminhando os que erravam (...)” (SILVEIRA, João Francisco Barbosa da. Ramos de Azevedo e sua actividade - funcionário de Ramos de Azevedo por mais de 40 anos, São Paulo, 1941).

Como vice-diretor da Escola Politécnica de São Paulo entre os anos de 1900 e 1917, acabou por assumir o cargo de diretor (1917-1921) logo após a morte do ilustre engenheiro e professor Antônio Francisco de Paula Souza. Nesse bojo, é interessante ressaltar que mesmo antes do advento da Escola, Ramos de Azevedo e Paula Souza tinham ligação profissional e de amizade, correspondendo-se através de cartas e construíram juntos a Matriz de Itu, em 1878.

Denotando um perfil típico de empreendedor, em 1886 leva a cabo a inauguração de seu próprio escritório, a partir daí tomando a frente de diversas obras públicas, tais como: o Prédio do Tesouro (1886-1891); o Quartel da Polícia (1888); a Secretaria de Agricultura (1896), a Escola Prudente de Moraes (1893-95); a Escola Politécnica (1895); o Liceu de Artes e Ofícios (1897-1900) e o Teatro Municipal (1903-1911), dedicando-se também a erguer domicílios para os então afortunados cafeicultores paulistas. Nesse entremeio repleto de atividades, o engenheiro ainda realizou viagens a Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos com o intuito ainda de aprimorar e ampliar seus conhecimentos de engenheiro-arquiteto.

Da mesma forma, foi homem ativo na política de seu tempo. Em junho de 1904, era eleito senador estadual, função que exerceu somente por um ano e meio: “Ramos deixou o importante cargo eletivo por discordar da então política de protecionismo em relação ao café, mas que a causa real da saída do senado foi mais ética, (...) pois havia ficado impedido de empreitar obras do governo.” (LEMOS, C. C. Ramos de Azevedo e seu escritório, 1993).

Já em 1917, junto a velhos amigos, dentre eles Rodolpho Baptista de São Thiago, filou-se à Liga Nacional de São Paulo, “que reunia pessoas desejosas de participação do aperfeiçoamento de nosso sistema político, lutando, inclusive, pelo voto secreto obrigatório. Era formada quase que exclusivamente por membros da alta classe média paulistana, praticamente todos profissionais liberais ligados às famílias de políticos tradicionais da República Velha.” (LEMOS, C. C. Ramos de Azevedo e seu escritório, 1993). Tal liga de cunho nacionalista é aquela que culminaria mais adiante na consolidação do Partido Democrático e, por fim na posterior União Democrática Nacional (UDN).

Como engenheiro e dono de escritório, Ramos de Azevedo atuou também na Companhia Mogiana de Estrada de Ferro; foi diretor do Liceu de Artes e Ofícios; presidente do Instituto de Engenharia; construiu o Grupo Escolar do Brás e o conjunto de Itapetininga composto por três edifícios que refletiam o parâmetro republicano de educação, são eles: a Escola Modelo Preliminar, a Escola Modelo Complementar e a Escola Normal. Em relação aos clientes, procurava ofertar o melhor trabalho possível, nem sempre angariando lucro para si nas negociações de empreitada.

Neste escritório, localizado na rua Boa Vista e sem dúvida um dos pontos de referência da época, trabalharam numerosos engenheiros e arquitetos de grande importância, como, por exemplo, Alexandre Albuquerque e Luiz Ignácio Romeiro de Anhaia Mello, os quais, por sua vez, também viriam a fazer parte do corpo docente da Escola Politécnica de São Paulo.

Carlos C. C. Lemos comenta que “Ramos de Azevedo gostava de lecionar, como se o ensino fosse uma religião. Sua obsessão positivista era transmitir conhecimentos visando o aprimoramento da sociedade.” (LEMOS, C.C. Ramos de Azevedo e seu escritório, 1993). E é sob esse estereótipo de direção do conhecimento que esteve envolvido na Poli, dedicando-se para erguê-la em sua fundação e apurá-la em sua base constitutiva no decorrer dos anos. Assim, junto ao professor Paula Souza idealizou e concretizou a Escola, cujo mote principal era formar engenheiros brasileiros que pudessem propiciar o progresso do País.

Figura importante e respeitada na instituição, torna-se diretor dando prosseguimento ao trabalho do amigo. Da mesma forma que Paula Souza, ele zelava pelo comportamento dos estudantes, repreendendo-os quando necessário, como no caso de durante os intervalos não estarem usando chapéus. Além disso, com maestria, associava o cuidado para com a Escola e as obras de engenharia e arquitetura que executava paralelamente no cenário urbano da São Paulo do início do século XX.

Amante do ofício, o diretor por vezes chegou a investir com seu próprio dinheiro em novas tecnologias - o aparelhamento do Laboratório Tecnológico (hoje IPT) é exemplo deste feito. Seu olhar profissional no que se refere às construções de edifícios públicos centrava-se na funcionalidade e praticidade que estas poderiam oferecer. Já nas residências, procurava manter maior liberdade de forma e estilo, observando o conforto e a racionalidade dos espaços internos. Desse modo, Ramos de Azevedo conseguia conjugar harmoniosamente suas habilidades como engenheiro e arquiteto.

No âmbito do processo de produção civil e urbanístico da cidade de São Paulo, o engenheiro mantinha a originalidade própria do empreendedor brasileiro entremeada à influência da tradição arquitetônica européia. Nas palavras de Lemos, “Ramos não só trouxe os recentes estilos ecléticos compromissados com atualidades técnicas, como também novos programas advindos de outras maneiras de morar à moda européia, ou melhor, francesa, de distribuir os cômodos dentro de etiqueta diversa da nossa.” (LEMOS, C.C. Ramos de Azevedo e seu escritório, 1993).

Durante os momentos de folga, tinha como hábito desenhar e ler. Nas bordas das Atas de Reuniões - as quais lia ocasionalmente - encontram-se desenhos e escrito o nome da esposa, D. Eugenia, o que demonstra seu apreço para com a família. Casou-se em 1880 e dessa união resultaram três filhos que "até o fim foram unidíssimos e todos falam das inúmeras gentilezas de Ramos à sua mulher." (LEMOS, C. C., Ramos de Azevedo e seu escritório, 1993).

Por sua imensurável contribuição à capital paulista, Ramos de Azevedo recebeu diversas homenagens. Em 1914, teve seu nome incluído no Livro de Ouro do Estado de São Paulo. No ano seguinte, recebeu o título de sócio emérito do Grêmio Politécnico. Já em 1928 lhe foi ofertado um retrato e em discurso da inauguração, Willian Steverson apresentava o engenheiro-arquiteto como um dos responsáveis pelo progresso de São Paulo, definindo-o como aquele que “criou um mundo novo, uma vida inteiramente nova. Forjou o meio e os homens, fez o artesão e o mestre, o officionor e o artista. Reformou o gosto, despertou o anseio, hoje comum entre nós, do conforto, do bem estar e do luxo, características das sociedades adiantadas.” Nesse mesmo discurso denotava-o como um empreendedor que “passou por uma evolução no estilo de construir”, ultrapassando os limites “das linhas classicamente puras dos primeiros edifícios que construiu, chegou, entusiasmado sempre aos bizarros arranha-céus modernos de soberbo porte e sóbria decoração architetonica.” (Boletim do Instituto de Engenharia, 1928). 

Em 25 de janeiro de 1934, seguia-se outra homenagem: o Monumento Ramos de Azevedo foi inaugurado na Avenida Tiradentes, e posteriormente transferido para a Cidade Universitária, onde hoje se encontra em destaque próximo a atual sede da Escola Politécnica e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo. No dia da inauguração do monumento, o amigo e professor Anhaia Mello proferia em discurso: “A memória venerada do nosso mascimo architeto e cidadão de prestígio sem par, foi a Lyra de Amphião, que ajuntou pedra sobre pedra desta nova muralha de Thebas, repetindo assim o pristimo milagre, pela doçura, harmonia e saudade dos seus accentos. (...) Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento architetonico da cidade de São Paulo.” (Folha da Manhã, 1934).

Francisco de Paula Ramos de Azevedo faleceu em 1 de junho de 1928, deixando, de toda forma, acesa a sua memória candente que a cada ano se renova, prova dessa asserção são as inúmeras obras que hoje constituem marcos arquitetônicos da capital paulistana.