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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. Victor da Silva Freire - 1933-1934

Prof. Dr. Victor da Silva Freire - 1933-1934

VictorDaSilvaFreireExercício: 1933 a 1934

O professor e diretor Victor da Silva Freire é filho do senador bahiano Victor da Silva Freire e da carioca dona Leopoldina Coimbra Freire. Nascido em Lisboa em 1869 (embora haja controvérsias acerca de sua naturalidade), freqüentou ali a Escola de Estudos Preparatórios entre os anos de 1885 e 1888, concluindo sua formação em Paris, na École Nationale des Ponts et Chaussées em 1891 com o título de engenheiro civil.

Iniciou, assim, sua vida profissional na Europa no ocaso do século XIX, trabalhando nas oficinas mecânicas de Charles Beer em Liége e nas construções civis dessa mesma cidade como engenheiro da Societé Internacionale de Travaux Publics, na seção de pontes metálicas. Ainda com esse ofício, partiu para a Espanha, onde montou pontes na Província de Almeria, seguindo depois para Lisboa.

Finalmente, em 1895, cruza o oceano vindo ao Brasil para fixar residência em São Paulo a convite do então governador Manoel Ferraz de Campos Salles. A proposta consistia em trabalhar na Superintendência de Obras Públicas, dirigida na época por Rebouças. Decorrido algum tempo, responsabilizou-se ainda pelo 3º Distrito do Serviço de Abastecimento de Águas e Esgotos das cidades do interior e, em 1897, passou a comandar a Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo. Em 1899, atuou junto ao governo de Antonio Prado, prefeito da capital, sob a função de diretor de Obras Públicas Municipais da cidade de São Paulo, “cargo que desempenhou com dedicação, amor, com inconfundível honestidade (...)” durante vinte e seis anos. (Discurso do professor Alexandre Albuquerque. Revista Politécnica, 1926).

No período em que se dedicou aos trabalhos para os ditos governos do Estado e da Prefeitura, Freire propôs que houvesse maior interferência do poder público no que se refere à regulamentação das construções na cidade, sugerindo da mesma forma, medidas que visassem o saneamento e a higienização de São Paulo que, por sua vez, vivia um momento de intenso crescimento urbano e populacional. De acordo com o que elucida o professor Alexandre Albuquerque, ele estudara “(...) carinhosamente os innumeros problemas que lhe deparou o rapido crescimento da capital paulista e, para cada um delles, indicou soluções acertadas, sendo que a não adopção de algumas dellas redundou em prejuizo para o progresso da cidade e para o bem estar de seus habitantes.Como fructo de seus trabalhos podem-se apreciar muitas das leis municipais de São Paulo e, notadamente, o Acto 900 de 19 de maio de 1916 e o Padrão para as construções particulares, promulgado em 9 de novembro de 1920.” (Revista Politécnica, 1926).

Nesse sentido, corroboram suas próprias palavras em artigo da Revista Politécnica de São Paulo, citanto Emile Cacheux: “ Á parte do urbanismo que mais me interessa é a que diz respeito á hygiene, pois que não há onde se não reconheça que nas cidades, que vão estendendo methodicamente o seu territorio edificado, a mortalidade diminue notavelmente”. (Revista Polytechnica, 1916). Logo, é patente toda a sua preocupação com os problemas de saúde pública acarretados pelas complicações que envolviam o universo urbano da Paulicéia. Sobre essa questão ainda escreveu: “A cidade moderna tornou-se um organismo tão complexo; garantir-lhe a salubridade, a segurança, a circulação passou a ser de tal modo delicado; a diversidade de interesses, o servir emaranhou-se tão intimamente que a iniciativa da grande Universidade de Harvard foi promptamente seguida por todas as outras.” (Revista Polytechnica, 1914).

Além dessas atividades, atuou em várias companhias e organizações: Companhia de Pavimentação de Obras Públicas, Companhia Anglo-brasileira de Juta, Companhia Brasil de Seguros Gerais, Cortume Franco Brasileiro, Associação de Beneficência Mútua dos Engenheiros e Sociedade Civil Liceu Franco Brasileiro. Foi membro do Conselho Consultivo da City of São Paulo Improvements, Consultor Técnico do Diretório Regional de Geografia de São Paulo e Oficial da Legião de Honra da França e da Ordem de Jorge I da Grécia. Além do que, fundou, juntamente com Antonio Francisco de Paula Souza, o Gabinete de Resistência dos Materiais, executado pelo chefe das oficinas Dr. Ernesto Heincke e projetado por Ludwig Von Tetmajer.

Seu caminho na Escola Politécnica de São Paulo começou a ser trilhado em 1898. Lecionou Tecnologia Civil e Mecânica até 1934 e esteve à frente da direção da Escola entre os anos de 1932 e 1933. Enquanto docente, encontra-se entre os mais “abalizados professores da Escola no meu tempo de estudante, (...) ocupava um lugar bem destacado”, conta D’Alessandro, complementando que “era notória a sua capacidade e altamente conhecida a sua vastíssima cultura”. O estereótipo do professor Freire era inconfundível, se apresentava “(...) com uma barbaça preta, de óculos e um 44 bico largo, aliás, bem proporcionado ao seu porte. Todo o mundo o julgava português, pelo seu sotaque característico, mas o bicho era baiano puro.”(D’ALESSANDRO, Alexandre. A escola Politécnica de São Paulo, 1943).

As aulas de seu curso eram divididas em dois semestres: um de tecnologia civil e o outro de tecnologia mecânica, sem entrar no âmbito elétrico. O curso propriamente era sintonizado e atualizado de acordo com os padrões e necessidades da época. Assim, Freire tinha por hábito tomar contato com as publicações técnicas mais recentes e segundo Archimedes Pereira Guimarães, quando em classe “ estendia-se em longos parênteses, por dentro e por fora do Manual do Hutte, na sua Tecnologia das Profissões Mecânicas, prolixo e pesado a custa de tantas minuciosidades”. (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Archimedes Pereira Guimarães, 1982). O professor Luiz Cintra do Prado, por seu turno, levanta uma importante ressalva quanto ao fato de que “era um curso muito interessante, mas a gente, talvez, necessitasse ver as coisas de perto”, o que indica, aliás, a vontade dos estudantes em conjugar teoria e prática, de maneira a ter contato direto com maquinários ou com grandes obras. (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Luiz Cintra do Prado, 1982).

A despeito da dita declaração quanto ao cunho em demasia teórico do curso, nota-se que o mestre Freire também aventava preocupações nesse sentido, ao afirmar que “até hoje (1946), na Europa, a maior parte das escolas de engenheiros, incluindo a nossa, esforçaram-se antes de tudo em dar aos seus alunos um sólido preparo matemático; mais tarde, o ensino técnico esforçava-se ainda, por meio de numerosos exercícios, em desenvolver a prática do desenho tendo em vista a elaboração de projetos. A experiência prova que estas duas cousas são de primeira importância, que são indispensáveis: mas é urgente acrescentar-lhe os trabalhos de laboratório; fornecer aos estudantes ensejos de fazerem ensaios e proceder a medidas sobre as máquinas motoras ou operatórias.” (Anuário, 1946).

A intensa reflexão sobre o curso que oferecia era imperante em Victor da Silva Freire, tanto que tinha por ideal tornar a Escola Politécnica de São Paulo mais eficiente em seus propósitos que as demais escolas de engenharia existentes na Europa. Desta maneira, sua matéria era iniciada com o estudo da “tecnologia das construções civis e mecanicas numa época em que o desenvolvimento da industria, multiplicando seus productos e os modos de preparo e emprego dos mesmos, tornava enefficaz o methodo descriptivo no ensino daquellas disciplinas, assim o querido mestre recorreu ao methodo scientifico com o qual deu o seu curso um cunho verdadeiramente didático, fazendo ver a seus alumnos que o engenheiro não pode ser o empirista cégo e que deve, ao contrário, estudar as questões a luz dos conhecimentos ministrados pelas sciencias para dar em cada caso a solução mais conveniente.” (Discurso do professor Alexandre Albuquerque, Revista Politécnica, 1926).

No Relatório Preliminar, apresentado à Comissão de Ensino Superior e Universitário da Sociedade Paulista de Educação e redigido em conjunto com os professores Clodomiro Pereira da Silva e Henrique Jorge Guedes em 1931, o docente ainda procurava discutir as problemáticas que então envolviam o ensino superior brasileiro. Ele sugeria a inserção da Escola no corpus universitário - discussão em muito pertinente, dado que a fundação da Universidade de São Paulo estava em vias de se concretizar.

Nesse relatório, a formação do engenheiro “de valor” era pautada como uma conjugação de diversos fatores, tais como “uma cultura geral bem ordenada”, “manter o equilíbrio entre essa cultura geral e as noções profissionais” e “reduzir ao mínimo a duração dos estudos a fim de dar aos noveis engenheiros as maiores facilidades para a sua aprendizagem industrial”. Ademais, observador dos procedimentos estrangeiros, salientava que “em todos os paízes do mundo em que se não dá aos engenheiros essa cultura muito larga, muito geral, precedida de fortes estudos mathemáticos, emprehendidos sob o estímulo dos concursos e a disciplina do ensino secundário, são os engenheiros considerados como especialistas, technicos de maior ou menor mérito, alguns dos quaes chegam a occupar muito boas posições como consultores de emprezas multiplas; mas não são considerados como homens capazes normalmente de assumir a direção da indústria e dos negócios.” (Relatório Preliminar, 1931). E complementa o quadro, postulando o ensejo do curso de engenharia na Universidade: “(...) melhorar a organização do nosso ensino superior da engenharia, não é pois somente, assentar bases sólidas para uma independência econômica que ainda não logramos ver esboçada, e que precisamos alcançar. Melhorar a organização do ensino superior da engenharia no Brasil, é preparar contribuição, não única certamente, mas tão valiosa como qualquer outra, para a edificação, sobre alicerces sufficientes, da Universidade Nacional.” (Relatório Preliminar, 1931).

O mestre e diretor da Escola Politécnica faleceu em primeiro de fevereiro de 1951. "Ainda aos 82 anos de idade o professor Victor Freire continuava com o mesmo entusiasmo pelo estudo dos problemas da nossa terra, mantendo a vivacidade de espírito que tanto caracterizou a sua personalidade (...) Victor da Silva Freire foi um perfeito cidadão, fino no trato, cordial e amigo, atendendo com bondade e solicitude a todos que o procuravam pedindo-lhe luzes em assuntos técnicos da sua especialidade.”(Revista do Instituto Geográfico e Geológico, 1951).