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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. Luiz Cintra do Prado - 1941-1943

Prof. Dr. Luiz Cintra do Prado - 1941-1943

LuizCintraDoPradoExercício: 1941 a 1943

Na cidade de Amparo – São Paulo - nascia, a 16 de dezembro de 1904, Luis Cintra do Prado, filho de Alfredo Patrício do Prado e Júlia Cintra do Prado. No decorrer do curso secundário, dividiu-se entre dois colégios. Primeiro, o colégio São Luis, em Itú, que logo fora transferido para São Paulo, mantendo seus alunos apenas até a terceira série. E em decorrência dessa mudança, completou os estudos no colégio jesuítico de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.

Quanda criança, um interessante fator já revelava suas predileções. No período das férias, tinha por costume ir à casa da tia, em uma fazenda. Passava as tardes observando as obras que um caboclo erguia em meio ao campo. Nesse ínterim, acabou por ensinar-lhe as primeiras letras através de cadernos e cartilhas improvisadas, recebendo em troca os iniciais contatos com a construção civil.

Terminada essa fase, adentrou a Escola Politécnica de São Paulo em 1921 e como aluno, ali passou por três etapas de formação: um ano de Curso Preliminar, outro de Curso Geral e, finalmente, a escolha da especialização.

Assim como diversos discentes, do Prado optou pela engenharia civil, o curso mais elencado e por consequência mais concorrido, dado que nessa área concentravam-se grandes e variadas orportunidades de trabalho, tanto no âmbito de construções privadas como no de públicas. Na Paulicéia, o crescente número de prédios, fábricas, barragens e represamento de rios (este associado à produção de energia) demandavam novos profissionais.

Durante a graduação, teve como professores alguns dos ícones da “inteligência brasileira da época”. Frequentou as aulas de Geometria Descritiva do mestre Carlos Gomes de Souza Shalders e com o professor Luiz Adolfo Wanderlei estudou Física no Curso Preliminar e no Curso Geral, acentuando-o como “um docente exemplar, que dava grande importância à execução de suas tarefas. Expunha os assuntos com elegância e objetividade. De modo geral, em suas aulas, fazia constante apelo à realidade das coisas. Hábil experimentador, realizou muitas pesquisas interessantes. Faleceu prematuramente, aos 43 anos. Até hoje é lembrado como um grande mestre.” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Luiz Cintra do Prado, 1982). No segundo ano letivo, esteve ao lado de Victor Dubugras, destacado não somente pela qualidade de suas aulas, mas pelas diversas obras nas quais teve participação, dentre elas a bela residência em estilo colonial da Baronesa de Arari, então localizada em meio à suntuosa Avenida Paulista. Da mesma foma, tinha lições de Topografia e Mecânica Racional com o professor Lúcio Martins Rodrigues; foi introduzido ao Cálculo Vetorial pelo mestre Theodoro Ramos; e através do professor Rodolfo Baptista de São Thiago desenvolveu suas habilidades em Matemática Avançada.

Como aluno dedicado, do Prado soube aproveitar todo esse arsenal de conhecimento, sendo, inclusive, premiado por seu primor aos estudos. Colado o grau em 1926, não aquetou-se somente na profisssão, mas investiu no aprofundamento e lapidação do que havia aprendido, tornando-se Doutor em Ciências Físicas e seguindo rumo a Paris para fazer um curso de licenciatura em nível de pós-graduação no College de France.

Com tal bagagem de estudos, adentrou à carreira acadêmica na Escola Politécnica de São Paulo. Sobre sua inserção, elucidou: “Quando principiei a trabalhar aqui, chamado pelo extraordinário Professor Roberto Mange e admitido como preparador na cadeira de mecânica aplicada, passando depois, na cadeira de Física, a assistente, a encarregado de curso e a professor catedrático, serviram-me de exemplo os meus antigos mestres, vivos e desaparecidos” , o que denota, aliás, seu apreço e respeito para com os mentores.(PRADO, Luiz Cintra do. Digesto Econômico, 1965).

Assim, assumindo o papel de docente, mostrava-se cuidadoso na preparação das exposições e cauteloso aos desejos que se apresentavam. O professor Walter Borzani apreende bem esse perfil ao comentar que eram suas “aulas impecáveis, sob todos os pontos de vista. Ele foi o primeiro professor que dedicou atenção à uma idéia boa que tive e expus a ele. Era uma tentativa de aproveitamento de energia solar. Isso foi no ano de 1944. Ele mostrou, entretanto, que a minha proposta contrariava um princípio básico da termodinâmica e aquilo pecava pela base.” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Walter Borzani, 1982). O professor Rubens Guedes Jordão, por sua vez, complementa que as aulas eram ministradas com “muita clareza e ordem.” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor Rubens Guedes Jordão, 1982).

Sob o esteriótipo do profissional e do homem Luis Cintra do Prado, as lembranças do ex-diretor e professor emérito da Escola José Augusto Martins têm em muito a contribuir pela riqueza de informações: “era um professor extremamente culto e que dominava várias línguas. As aulas do Prof. Luiz Cintra do Prado, eram de uma didática ímpar. As figuras que ele desenhava na pedra eram claras e ilustrativas do que ele estava explicando. Nunca faltou a uma aula.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003). Ainda de acordo com o relatado, do Prado fora o primeiro a organizar um laboratório de Física na Politécnica, onde os alunos tinham a oportunidade de fazer experimentos correlatos às linhas de pesquisa, monitorados por professores que circulavam pela sala. Assim que terminado o ensaio, os discentes então deveriam fazer algum relatório minucioso acerca do procedimento efetuado e entregá-lo ao mestre que, por seu turno, nele se baseava para elencar uma das notas do curso.

Para além de sua destreza como docente, também participava de atividades sociais. “Naquele tempo, se iniciou, na França, um movimento denominado Economia e Humanismo. Esse movimento tinha como lema o direcionamento da economia, em benefício do desenvolvimento e em benefício das pessoas. O líder desse movimento era um antigo sacerdote dominicano, Padre L.J. Lebret, que veio ao Brasil e fundou uma organização ligada a esse movimento francês e cujo líder no Brasil, enquanto ele esteve à testa, foi exatamente o Prof. Luiz Cintra do Prado. Ele arregimentou nesse movimento, não só professores da Universidade, de fora outras pessoas e muitos alunos.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Ademais, sua formação cultural era de tal modo vasta que ao findar a Segunda Guerra Mundial, com os acontecimentos das bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki tornados públicos pela divulgação dos jornais da época, ele fez uma conferência na Escola Politécnica, dando conta de como foi produzida a bomba atômica e o mecanismo de desenvolvimento dessa potente arma nuclear. “Essa conferência foi repetida em diferentes lugares inúmeras vezes, mostrando que ele estava sempre no limiar da ciência.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Logo, apresentava-se como um homem atento e entendedor da realidade que o circundava. Ao mesmo tempo que destacava para o país a possibilidade de desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico, sentia os momentos trágicos advindos do conflito: “vivemos num mundo entristecido por tendências hostis, em que já quase não se separa no simples encanto das coisas da natureza, menos ainda nas criações da arte verdadeira, realizadas pelo engenho humano. A alegria duma jornada em comum....cede lugar à crueza das lutas de interesses, em que a agressão decide da conquista de maiores vantagens pessoais” e ainda revela sua esperança de que aquela fosse a última guerra e a partir de então emergiria um “Mundo Novo, reconstruído sobre as mais seguras bases nas relações entre os homens.” (Revista Politécnica, 1943).

Na Escola, cativava os estudantes com as aulas de exercícios e de laboratório, incentivando, assim, a aprendizagem prática. No entanto, assumia o fator de que a Politécnica direcionava o curso à perspectiva teórica, enquanto os estudos da Escola de Engenharia do Mackenzie – na cidade de São Paulo – eram voltados mais à questões práticas. De toda forma, não obstante seu dinamismo, preocupava-se também em ampliar o quadro cultural dos futuros engenheiros. Com esse intuito, todas as quintas-feiras à noite preparava algum sarau musical aos alunos, nos quais lhes era dada a oportunidade de tomar contato com a vida e obra de compositores clássicos.

À multiplicidade cultural, agregava-se o pluralismo de funções. Dirigiu a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo em 1953 e no ano de 1961 o Instituto de Energia Atômica. Aliás, sobre este último, é interessante salientar que os conhecimentos de Física Nucelar do professor advinham de escolas francesas. Dentre seus livros prediletos nesse âmbito estava La Physique Depuis Vingts Ans, publicado em 1923 por Paul Langevin, um dos mais destacados físicos franceses da aurora do século XIX. Por intermédio desta e de outras obras, do Prado realizou, entre 1937 e 1938, na Europa experiências que envolviam radioatividade, tornando-se, por conseguinte, autoridade nesse assunto. Além do que, “dedicou também a sua vida ao desenvolvimento dos sistemas energéticos do Estado de São Paulo, participando de equipes das antigas Centrais Elétricas do Estado de São Paulo.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Antes de assumir em 1938 a cátedra na Escola, lecionou no curso pré-médico. Ficou conhecido ainda por suas diversas apresentações: “Uma das suas grandes especialidades era a Metrologia, que é uma parte da ciência que estuda as dimensões e como medi-las, e participou nessa qualidade, de muitos congressos internacionais, como representante do Brasil e onde, pelo noticiário da época, mostrava que a sua atuação era de elevadíssimo nível.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Esteve à frente da diretoria da Politécnica de São Paulo entre 1941 e 1943, onde em suas próprias palavras, tivera “a fortuna de contar com uma equipe de dedicados colaboradores, de maneira aproveitosa e de uma tarefa partilhada por todos nós.” (PRADO, Luiz Cintra do. Digesto Econômico, 1965). A despeito dessa profícua convivência, no papel de diretor enfrentou contundentes problemas relacionados à política da época, que acabaram por afetar a Escola e mesmo toda a Universidade. Na preemência do Estado Novo, muitos dos excelentes professores viram-se na contingência de deixar a Politécnica por não poder acumular dois cargos. Dedicarem-se ao ensino e à pesquisa em tempo integral, lhes era economicamente inviável, logo, a instituição enfrentou um período de perdas inestimáveis.

Por seu conjunto de feitos, pela qualidade como docente e sua relação amistosa para com os alunos, os mesmos lhe ofertaram o título de Sócio Benemérito do Grêmio Politécnico, agraciando-o ainda com “uma recepção solene dos novos alunos que ingressaram no primeiro ano de nossa escola, em virtude do aumento de número de vagas obtido, em grande parte, devido aos esforços daquele ex-diretor.” (Revista Politécnica, 1943).

Em 1964, o mestre recebera outra honraria – o título de professor emérito com inscrição na placa de bronze da Escola Politécnica de São Paulo, ao que agradeceu, rememorando todo o apoio acalentado por seus pais e irmãos, os quais lhe propiciaram um “ambiente favorável à vida dos estudos e à busca da cultura.” (PRADO, Digesto Econômico, 1965).

Entremeado a essa trajetória profissional, o professor refletia sobre o tônus que deveria assumir o ensino de engenharia: “O primeiro ponto, que precisamos por a salvo de qualquer ambigüidade é o objetivo do ensino que se ministre numa escola superior. Nesta Politécnica, assim como nas demais faculdades de engenharia, o objetivo principal é formar engenheiros, subdiariamente, contribuir também para o progresso de certas formas da ciência e das artes, mas não se confunda formar com informar. (...) Formar um engenheiro significa, oralmente, dar a alguém o preparo requerido para exercer a profissão.” (Revista Politécnica, 1956). No esteio desse raciocínio, o futuro engenheiro deve pautar-se na observação e experimentação da natureza e sua formação engloba “o adestramento de sua inteligência para compreender assuntos técnicos e buscar, no momento oportuno a sua solução....” (Revista Politécnica, 1956).

Cintra do Prado sempre fora homem ativo e presente nos feitos e atividades mais gerais. Por ocasião do nonagésimo aniversário da Escola, ainda colocava: “como ex-aluno, como ex-professor que continua estudante, e como atual decano, desejo ardorosamente associar-me às festividades programadas para comemorar a importante efeméride de que remonta aos 15 de fevereiro de 1894 (...)” (Nonagésimo aniversário, 1984). Não obstante complicações cardíacas terem-no impedido de participar do convívio comemorativo, as lembranças de sua atuação permanecem imbricadas na vida da Escola, tanto que as palavras acima proferidas encontram-se em ofício datado de 09 de fevereiro de 1984. Apenas dezenove dias depois o mestre faleceu, porém a sua memória segue intacta entre os politécnicos.