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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. Décio Leal de Zagottis - 1986-1990

Prof. Dr. Décio Leal de Zagottis - 1986-1990

DecioLealDeZagottisExercício: 1986 a 1990

Na cidade de Itapetininga em 31 de janeiro de 1940, nasceu Décio Leal Zagottis, filho de Paulo Zagottis e Jandira Seadra Leal de Zagottis. No colégio Rio Branco fez o curso secundário e, em 1958, ingressou na Escola Politécnica de São Paulo.

Optando pela Engenharia Civil, recebeu o diploma em 1962 e também o Prêmio Lucas Nogueira Garcez, por seus méritos como estudante. Assim que formado, continuou a investir na profissão, tanto, que decorridos cinco anos, titulou-se doutor, com tese inovadora acerca de estruturas.

A partir daí, sua carreira acadêmica foi um crescente. Contando, então, com 28 anos de idade tornou-se professor do departamento de Engenharia de Estruturas e Funções, ali realizando sua livre-docência. Entre 1967 e 1970, ministrou aulas na Escola Politécnica e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Já em 1973 foi nomeado professor adjunto da Escola e, quatro anos depois, titular.

Inicialmente, para além das atividades de ensino, trabalhou no ramo de construções como consultor, acabando, depois, por abrir a sua própria construtora, por meio da qual, inclusive, executou “uma dezena de edifícios de expressivo porte.” (LIMA, Victor Souza. Uma vida de realizações. IN: ADLZ – Acervo Décio Leal de Zagottis, 2002). De acordo com o que atesta Carlos Eduardo Moreira Maffei, o professor enveredara por esse caminho com o intuito de buscar “a independência financeira para dedicar-se à Escola Politécnica. Dito e feito. Sua dedicação a Escola e a Universidade foi total.” (MAFFEI, Carlos Eduardo. Relato sem título. IN: ADLZ – Acervo Décio Leal de Zagottis, 2002).

Na década de 1980 um sucedâneo de cargos atravessou sua trajetória. De 1982 a 1985, chefiou o departamento de Engenharia de Estruturas de Fundações; no período de 1985 a 1987, dirigiu o Instituto de Engenharia de São Paulo e entre 1986 e 1989 esteve à testa da diretoria da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Em sua gestão como diretor deu todo o apoio aos docentes dedicados em tempo integral para que pudessem realizar trabalhos junto ao setor produtivo. Logo, incentivou a formação de uma série de fundações que dessem suporte aos investimentos privados, dentre elas a Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico de Engenharia e a organização do Núcleo de Engenharia Industrial. Ainda criou cursos cooperativos e, em 1983, fez convênio com o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, a época representado pelo reitor Arantes de Oliveira.

Essas inter-relações no que se referem ao âmbito tecnológico, por sua vez, deu mais substância. Na qualidade de representante da América do Sul, o mestre Décio foi eleito membro efetivo do Conselho Científico do INCCA (International Network of Centers for Computer Aplications), com sede em Paris, que “visa promover integralmente a cooperação científica e a transferência de tecnologia no campo da aplicação de computadores em engenharia.” (Revista Politécnica, 1988).

Tal nomeação, em realidade, vinha a espelhar seu pensamento profissional. Em artigo para a Revista da Poli no ano de 1988, o professor elucidava a necessidade premente do engenheiro em atualizar-se de modo constante, na medida em que a tecnologia e o conhecimento científico desenvolviam-se em velocidade ímpar.

Nos idos de março de 1989, Décio Zagotttis, aos 49 anos, foi chamado pelo então Presidente da República José Ribamar da Costa Sarney para exercer o cargo de secretário Especial de Ciência e Tecnologia. A idéia era que sua plataforma fosse o elo de integração entre o setor industrial e a ciência e tecnologia. A perspectiva futura consistia que o Brasil investisse “3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisas.” (O Estado de São Paulo, 30/03/1989. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002). Não obstante no final do mandato não ter alcançado essa meta, enveredou todos os esforços para que ela se concretizasse.

Veja-se o caso do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ao qual, no papel de secretário, programou maior incidência de recursos destinados à bolsas no exterior. Ao que parece, de acordo com o denotado no jornal Folha de São Paulo, “a prioridade da secretaria Especial de Ciência e Tecnologia serão as áreas de biotecnologia, química fina, novos materiais, mecânica de precisão e informática.” (Folha de São Paulo, 30/03/1989. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

A visão de Zagottis, em particular, compreendia o pressuposto de que o sustentáculo orçamentário deveria ter por base o capital público em conjunto ao privado, de maneira a alavancar o desenvolvimento científico/tecnológico e, por conseqüência, aumentar a produtividade agrícola e industrial. Desta forma, não menos por acaso, - e a despeito de não ser militante ativo do PMDB (partido do qual era membro) – fora escolhido para o cargo, pois possuía “um bom trânsito na área empresarial e na comunidade científica – perfil ideal para coordenar a política de um setor cada vez mais voltado às aplicações tecnológicas do conhecimento acadêmico”. Além do que, “nos últimos anos, ele dedicou-se a um esforço de engajamento da Universidade em programas conjuntos com a iniciativa privada, motivo pelo qual goza de prestígio na Fiesp.” (O Estado de São Paulo, 30/03/1989 IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Logo, no dia 3 de abril de 1989, ao tomar posse como Secretário Geral de Ciência e Tecnologia discursava no Palácio do Planalto, atentando para as perspectivas que em sua função iria enveredar: “a importância decisiva da tecnologia para o desenvolvimento econômico e social é hoje uma realidade reconhecida por todos. O conhecimento tecnológico assume um papel fundamental, ao lado dos fatores recursos naturais, trabalho e capital.

Para os países com o grau de industrialização do Brasil, a tecnologia tem um papel mais decisivo. É necessário progredir na presença de países altamente industrializados, garantir autonomia de decisão e garantir a competitividade interna e externa da indústria.

Nessa questão, Ciência ocupa uma posição qualitativamente à da tecnologia. Sem Ciência não se domina e cria tecnologia. Sem Ciência nem mesmo é possível formar recursos humanos competentes para a Tecnologia.

A importância da Ciência, no entanto, extravasa este aspecto utilitário. O verdadeiro desenvolvimento das sociedades exige um desenvolvimento integrado de suas componentes biológicas, culturais, econômicas e políticas. Aqui a Ciência pura, a Ciência como busca do conhecimento pelo conhecimento tem, adicionalmente, um papel destacado na esfera cultural (...)

A necessidade de trabalhar pela modernização da Universidade - tornando-a um centro de progresso e não apenas uma comunidade de pesquisadores - e ao mesmo tempo, de trabalhar pela modernização da postura do sistema produtivo na questão da Ciência, da Tecnologia e da Tecnologia nacional – justificam sua posição ministerial isolada no Brasil de hoje.” (ZAGOTTIS, Décio Leal. Discurso de Posse. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Já no primeiro mês, em matéria ao Estado de São Paulo intitulada "Ministro não quer torres de Marfim", o secretário criticava a postura universitária, angariando maior participação. Em reunião com a comunidade científica na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), levanta o fator de que “haveria uma retomada do desenvolvimento no próximo ano, e a comunidade científica será chamada a responder claramente se vai ou não se engajar na criação de novas tecnologias.” (O Estado de São Paulo, 15/04/1989. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Como forma de articulação, em troca do apoio dos pesquisadores, fomentou um projeto, aos moldes dos existentes na Europa e no Japão, para a formação da Academia Brasileira de Tecnologia.

Em 19 de junho daquele mesmo ano, Zagottis teve um encontro oficial com Mae Jamison, a primeira astronauta negra norte-americana que, por seu turno, nele destacou a premente preocupação com o meio ambiente.

O dia 18 de agosto marcava a reunião com “a cúpula da comunidade científica” para estabelecer um documento que visava lançar as bases da política nacional para o desenvolvimento de ciência e tecnologia. Participaram da cúpula “cerca de 20 dirigentes das principais universidades públicas e privadas deste País, associações e órgãos de apoio à pesquisa como a Finep, CNPq, Fapesp, SBPC, Academia Brasileira de Ciências, Conselho Nacional de Reitores das Universidades Brasileiras (Crub) e os secretários estaduais de Ciência e Tecnologia de São Paulo, Luiz Gonzaga Belluzzo, e do Paraná, Paulo Alberto Pereira de Souza (...)”. “Foi consenso entre os participantes a necessidade de o País estabelecer um plano para atingir a meta de 3% do Produto Interno Bruto em investimentos em Pesquisa.” (O Estado de São Paulo. 19/08/1989. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Como uma espécie de compromisso que os então candidatos à presidência da República – Mário Covas Junior , Fernando Collor de Mello, Luis Inácio Lula da Silva, entre outros – deveriam seguir, o documento lhes foi entregue em 27 de setembro de 1989, contando dentre os signatários Mário Amato, da FIESP e Abib Jatene, da Academia Brasileira de Tecnologia.

No esteio dessa estrutura, Zagottis colocava que “a Universidade contemporânea deve ser um ‘núcleo de progresso’ e não mais uma ‘torre de marfim’. Uma universidade em que exista indissociabilidade entre ensino, a pesquisa e a extensão seletiva de serviços à comunidade. Uma universidade em que os setores culturais, científicos e tecnológicos tenham, cada um deles, todas as condições para que suas especificidades sejam reconhecidas e acolhidas. Uma universidade capaz de criticar a si mesma. Uma universidade com autonomia para atender seus compromissos democráticos básicos com a sociedade que a criou e que a mantém: qualidade no ensino, excelência na pesquisa e alto nível na extensão.” (Folha de São Paulo, 20/10/1989. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Assim, pleiteou ser reitor da Universidade de São Paulo. A eleição ocorrida ainda naquele ano, foi a primeira sucedida sob a vigência da nova Constituição. Da final lista tríplice composta por Roberto Leal Lobo e Silva Filho, Walter Colli e Jacques Marcovitch, o governador do Estado de São Paulo, Orestes Quércia, optou pelo primeiro.

Concomitante a essas eleições, o mestre defendia a transformação de sua Secretaria da Ciência e da Tenologia em Ministério, o que de fato ocorreu em 29 de novembro por decreto do ainda presidente José Sarney. Empossado no dia 2 de dezembro, o novo ministro começava a dar cabo de uma política voltada à redução da burocracia e de tarifas que obstavam em conjunto a importação de equipamentos tecnológicos. “O Brasil necessita não apenas de recursos financeiros, mas de recursos tecnológicos. É preciso equipar os grandes centro de pesquisas e as universidades.” (Nova Ciência, 12/1989. IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Assumindo o Conselho Nacional de Informática (Conin) e o Conselho de Ciência e Tecnologia, o ministro continuava a investir no setor de pesquisas. A despeito de conseguir que os bolsistas de pós-graduação no exterior recebessem em dólar, seu alvo maior era incentivar o sistema científico brasileiro para que se tornasse competitivo e atraente a esses e outros estudantes que, desta forma, continuariam a carreira no país.

Tamanho era o estímulo dado ao desenvolvimento tecnológico, que ao final de seu mandato inaugurou o primeiro acelerador linear de elétrons no Laboratório Nacional de Luz Sincroton (LNLS) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, em Campinas. Tal equipamento, foi de suma importância ao conhecimento básico da Física, além de possibilitar, "por exemplo, dar às frutas nacionais o padrão de higiene exigido pelo mercado internacional. Sua atitude fundamental, porém, será injetar elétrons no acelerador para gerar luz sincroton, de aplicação tecnológica sofisticada no setor industrial.” (O Estado de São Paulo, 17/02/1990 IN: Notícias Sobre o Ministro de Estado Décio Zagottis, 2002).

Outras atividades também ocupavam seu tempo. Entre 1989 e 1996, Zagottis assumiu os cargos de Secretário da Política Industrial para o Ministério de Indústria e Comércio, e Secretário de Educação Superior para o Ministério da Educação.

Nesse período, manteve a mesma linha de atuação, empreendendo viagens a Europa e aos Estados Unidos na década de 1990. Visitou a IVA (Academia de Engenharia Científica) na Suécia que, por sua vez, era parâmetro da conjugação entre governo, setor produtivo e instituições científicas. Na Itália, passou pela Universidade de Roma e em especial pelo Departamento de Engenharia Estrutural e Geotécnica. Nos Estados Unidos, deparou-se com programas de curso atualizados pela New York University na School of Continuing Education.

No âmbito pessoal, dentre as predileções estava a ópera. Encantava-o ver cantar Maria Callas na televisão, então filmada no Teatro Municipal de São Paulo. Apesar de escutar a outras cantoras, a mexicana continuava a ser sua favorita. “Nos anos 70, o Décio foi pela primeira vez a Nova York, e lá descobriu o teatro que se tornaria o endereço favorito: o Metropolitan Opera House. A partir de então, todos os anos o Décio passava longas temporadas em Nova York, e no Metropolitan assistiu a alguns dos espetáculos de que nunca mais veio a esquecer, como a única vez que conseguiu ouvir a lendária Birgit Nilsson, em sua despedida do Metropolitan cantando Elektra, ou como Carmen interpretada por Marilyn Horne, que considerava o mais extraordinário espetáculo que havia aparecido.” (NETO, Henrique Lindenberg. A ópera, amiga, fiel e companheira. IN: ADLZ – Acervo Décio Leal de Zagottis, 2002).

Trabalhador com afinco, só descansou da dedicação para com a Universidade de São Paulo em 1995, por ocasião de sua aposentadoria. No ano seguinte, recebeu o título de Professor Emérito da Escola Politécnica, vindo a falecer no dia 14 de abril de 1996.