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Início A Poli História Galeria de Diretores Prof. Dr. José Augusto Martins - 1976-1980 e 1982-1986

Prof. Dr. José Augusto Martins - 1976-1980 e 1982-1986

JoseAugustoMartinsExercício: 1976 a 1980 e 1982 a 1986

Paulista, José Augusto Martins nasceu em 1920. Ainda jovem, contando 14 anos de idade, iniciou a carreira do magistério, dando aulas particulares. No Ginásio do Estado de São Paulo em 1936, concluiu os estudos secundários, prosseguindo mais dois anos no Colégio Universitário, onde empenhou-se no curso pré-politécnico. Aos 20 anos ingressou na Escola Politécnica de São Paulo, optando pela Engenharia Civil.

Nessa trajetória, pôde contar com o apoio dos amigos e familiares, além de grandes nomes da área, conforme elucidam os parágrafos abaixo:

“Casado com a Dra. Ruth Monteiro de Arruda Martins (FD e FFLCH-USP). São meus filhos: José Augusto (EPUSP), Milton (professor titular da Faculdade de Medicina), Clóvis (professor associado da Escola Politécnica), Marília (Arqu. –UnMAC), Heloisa (EPUSP), Isabel (EPUSP), Fábio (FMVF-USP) e Rute (IME-USP).

Foram meus pais Manoel Maria Martins e Conceição Rodrigues Martins. Aprendi com eles o conceito da ética, da moral, da convivência com pessoas e o respeito a elas, independente de seu poder, raça ou credo.

Ao iniciar meu aprendizado no Terceiro Grupo Escolar do Braz (atual Rocca Dordal) em casa, já havia sido alfabetizado e aprendido as quatro operações fundamentais da aritmética. Nessa escola, como era normal na época, o ensino eficiente era ministrado por professores cultos e competentes. No quarto ano, sob a orientação do diretor Romeu de Morais, os alunos, na parte da tarde, iniciavam o aprendizado de um ofício. A mim coube aprender a utilizar ferramentas e equipamentos para o trabalho com madeira e vime e a confecção de móveis toscos.

Na minha formatura fui designado pela professora Dulce Cantinho Ibiapina para ler um discurso cujo texto foi escrito por ela. Recebi como premio um livro de Edgard Allan Poe.

Cursei o Ginásio do Estado da Capital, um dos quatro existentes no Estado de São Paulo. O ensino era de elevada qualidade, com professores competentes. Desenho, por exemplo, era ministrado pelo pintor Oscar Pereira da Silva. Muitos deles foram, posteriormente, ensinar na Universidade de São Paulo. Alguns alcançaram a cátedra: Antônio Ferreira Cezarino Júnior na Faculdade de Direito, Pedro de Alcântara Marcondes Machado na Faculdade de Medicina e Mário de Souza Lima e Silveira Bueno na Faculdade de Filosofia Ciência e Letras.

Éramos 106 formandos, em 1936. Grande parte deles ingressou em escolas superiores; na Universidade de São Paulo: 14 na Escola Politécnica, 10 na Faculdade de Medicina, cinco na Faculdade de Direito, dois na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, dois na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e uma na Faculdade de Higiene e Saúde Pública.

Dessa turma, muitos foram professores na Universidade de São Paulo e na Escola Paulista de Medicina. Exerceram a cátedra Cândido Theobaldo de Souza Andrade, na Escola de Comunicações e Artes, José Augusto Laus Filho, diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Rubens Guedes Jordão e José Augusto Martins, diretores da Escola Politécnica, Ricardo Veronese, na Faculdade de Medicina e Antonio Augusto dos Santos Clemente, na Escola Paulista de Medicina.

Atuaram também na docência na Universidade de São Paulo: Pedro Moacyr de Campos e Nice Magalhães Lecoq Muller, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Luiz Coelho Correa da Silva, na Escola Politécnica, Lício Marques de Assis, na Faculdade de Medicina, Clotilde Savastano e Gricha Vorobow na Faculdade de Higiene e Saúde Pública.” (Texto concedido pelo professor José Augusto Martins, 2003).

Acerca da influência dos professores na empreitada estudantil da Escola Politécnica atesta que “nenhum professor me influenciou de forma decisiva, por uma razão muito simples: eu era um aluno que não faltava a nenhuma aula e nunca me impressionei pela retórica do professor, nem pelo seu brilho, mas pela substância. Então, há muitos professores que eu destaco”, dentre os quais José Otávio Monteiro de Camargo, responsável pela cadeira de Cálculo Diferencial, na época um “dos mais criticados” pelos alunos por dar a impressão de não preparar as aulas. Não obstante, era culto, “ele tinha feito os cursos de especialização numa universidade alemã, Universidade de Berlim.(...) O que eu admirava no Professor José Otávio de Camargo, a admiração cresceu depois que eu me tornei professor da Escola Politécnica, era a sua coragem, no enfrentar qualquer problema delicado que surgisse, na escola ou na universidade (...)”. No segundo ano letivo, rememora a Luís Cintra do Prado, professor de Física, como ademais de culto, entendedor de várias línguas. Ao mestre Telêmaco Hipólito de Macedo van Languendock, atribuiu o qualitativo de ser, talvez, o de maior cultura da Escola e da Universidade – “eu acho que de todos os professores que eu tive na Politécnica, em nível elevadíssimo de cultura técnica, eu não conheci nenhum maior” – no entanto, “como engenheiro, isto é normal, não se conhece a sua projeção. Não era um professor didata, falava baixo. As classes eram pouco numerosas, de modo que os alunos escutavam. Eu tomava nota do que o professor dizia. Quando a gente lia o que estava ali, não encontrava em livro nenhum, porque ele abria caminho, era líder, na parte de Resistência dos Materiais, Estabilidade das Construções.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003). O professor Nilo Andrade Amaral, que lecionava sobre concreto armado, também foi destacado por ser “um cidadão que tinha uma série de qualidades, ele era profundamente religioso, dedicava parte de seu tempo à Associação Cristã de Moços, da qual era presidente” e elaborou um plano diretor de hidroeletricidade para o Estado de São Paulo. (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003). Outro docente igualmente profícuo em seu trabalho foi Pedro Bento José Gravina, filho de italianos que, entretanto, desiludido com as sucessivas greves de alunos, mudou-se para a Itália, onde tornou-se professor catedrático de Pontes e Grandes Estruturas na Universidade de Roma. Mais adiante, em viagem à Europa, Martins o reencontrou no cargo de diretor da Escola de Engenharia da dita Universidade.

Por ocasião das aulas de Materiais de Construção, o então discente teve a oportunidade, de além da carga teórica do curso, ter atividades práticas no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), onde, empenhado, acabou por tornar-se assistente-aluno da Secção de Aglomerados e Concretos ao lado de Gilberto Molinari, Luis Augusto Pinto Lima e Jayme Ferreira da Silva Júnior – engenheiros com os quais, posteriormente, veio a atuar na recuperação da linha adutora do reservatório da Light, em Sorocaba.

No período de estudante, ainda cursou três anos de artilharia no Centro de Preparação de Oficiais de Reserva, ali estabelecendo contatos cordiais com alguns alunos da Escola de Engenharia Mackenzie.

Já com o diploma em mãos, uma sucessão de atividades contribuiu para a sua carreira profissional. Dentre os projetos e construções de maior envergadura e destaque, está a pista E-W da Base Aérea de Cumbica. Entre 1944 e 1946, dedicou-se, para o Ministério da Aeronáutica, à construção da pista este-oeste, até hoje existente.

Terminada essa empreitada, no ano de 1946, a convite do professor Lucas Nogueira Garcez, tornava-se integrante do corpo docente do Departamento de Saneamento da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, a partir daí foram 24 anos de dedicação ao ensino. Ali pôde transmitir seus conhecimentos em uma variedade de cursos, tais como Abastecimento de Águas e Sistemas de Esgoto, Hidrologia, Barragens e Instalações Prediais.

Decorrido um ano, entrou para Escola Politécnica como professor substituto de Octacílio Pousa Sene nas aulas de Hidráulica. Logo, percebe-se sua coerência profissional em relação à docência. Lecionava em dois departamentos pertencentes a faculdades diversas, mas na mesma instituição, a Universidade de São Paulo.

Na Politécnica, iniciou com os Exercícios de Hidráulica. Já em 1950, por afastamento do titular Lucas Nogueira Garcez, eleito na época governador do Estado de São Paulo, Martins assumiu temporariamente a cadeira de Hidráulica, Hidráulica Urbana e Saneamento para os terceiros e quartos anos da Engenharia Civil, assim como o curso de Hidráulica para os estudantes de Engenharia de Minas e Elétrica.

Nesse ínterim, contava com produção acadêmica numerosa. Entre o rol de estudos a que se ateve, aponta dois como os principais. São eles a tese de livre docência intitulada Contribuição para o estudo de canalização secundária das redes de distribuição de água potável, defendida em 1960 e a tese para concurso de professor catedrático denominada Limites de velocidade e pré-dimensionamento de condutos principais das redes de água potável: condições de mínimo custo, apresentada em 1966. Por outro lado, os livros por ele publicados são em geral delineados por aspectos técnicos de forma didática, atingindo tanto ao público de docentes, como ao alunato. (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 1983).

Na graduação, com a reformulação dos cursos de Engenharia Civil, passou a ministrar a disciplina de Construções Hidráulicas, a qual se ateve até pouco antes de aposentar-se em 1986. Já na pós-graduação, durante o período em que esteve na vice-direção da Escola (1968-1971), foi o seu coordenador. Somente com o novo regimento universitário advindo em 1970, destituiu-se desta última função, dedicando seus esforços às aulas de Projetos de Usinas Hidroelétricas e de outros assuntos.

Não obstante todo esse conjunto de atividades, por duas vezes, quase consecutivas, esteve à frente da direção da Escola – entre 1976 e 1980 e de 1982 a 1986. No decorrer desses dez anos, o diretor, além de lecionar e voltar-se a uma série de encargos, também integrou o Conselho Universitário e o Conselho Técnico Administrativo da Universidade. Em realidade, declara o professor Martins, por vezes, o cargo de diretor lhe foi imposto por meio da nomeação da reitoria. Os reitores o elegiam e, ele como “não se encosta”, enfrentava todas as problemáticas existentes para tornar a Escola cada vez mais uma instituição de excelência em “ensino, pesquisa e prestação de serviços.” (SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 1983).

No âmbito da pesquisa, para além do denotado, Martins empreendeu um universo amplo de projetos. Em suas palavras relata aqueles trabalhos que lhe pareceram mais atraentes: “a adutora Joanes Bolandeira. Ela capta água no Rio Joanes e vai até uma área chamada Bolandeira, no arrabalde da cidade de Salvador, na Bahia. É uma adutora em que o desnível é de 4,60 metros entre as extremidades e tem 22.400 metros de comprimento. A solução foi uma tubulação de concreto de 1,25m de diâmetro e que abastece ainda hoje a cidade de Salvador. Esse projeto foi cuidadoso por causa da distância e do pequeno desnível e do terreno a ser vencido, que era parcialmente pantanoso, havendo necessidade de algumas pontes e algumas escavações grandes.” E continua “o segundo projeto que eu poderia indicar são as duas estações de tratamento de esgoto da cidade de Brasília. A primeira ainda construída enquanto eu era o responsável pelo projeto. A segunda eu não sei, ela está construída, mas tenho notícias de que foi modificada. A primeira estação de tratamento de esgotos de Brasília, é meu projeto. É uma estação grande, que utilizou um processo moderno, naquela ocasião, cuja obra foi construída por uma firma chamada Cilvisan, que aliás era a firma do Professor Lucas Nogueira Garcez, vencedora da concorrência, e cujo equipamento foi fornecido por uma firma inglesa chamada AMS - Crosta Mills.” Por outro lado, o terceiro projeto, salientou ele, “não é bem de minha autoria, mas eu tive uma participação muito grande nele. Esse está no meu currículo, é a exceção. É o primeiro estudo global de aproveitamento múltiplo dos recursos hídricos da Grande São Paulo. Esse projeto foi feito por três entidades que se associaram: Planidro, que era a minha firma, a Hidroservice e uma firma que era ligada a uma empresa do Eng. Eduardo Celestino Rodrigues, que teve participação menor. Nesse estudo, foi proposta uma solução para a água de toda a Grande São Paulo, que é a que está sendo desenvolvida. Foi proposta uma solução para o esgoto, que era a terceira ou quarta solução para o caso e que também não foi seguida. A que estão fazendo é a quinta ou a sexta.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Nesse quadro, não poderia faltar a “sua casa”, a Universidade de São Paulo, “era a raia olímpica. A raia olímpica nasceu de uma idéia do Professor Luiz Ignácio Romeiro de Anhaia Melo, que disse, puxa, aqui devia haver um lago ornamental. Eu disse: Não, péra aí. Nós vamos realizar o campeonato pan-americano aqui e vamos transformar isto numa raia olímpica. Fui encarregado de fazer o respectivo projeto. A raia tem um pouquinho mais do que o normal para ser uma raia olímpica. Tem 2.140 metros de comprimento e a largura dá para uma regata de oito barcos. Ela no começo tinha um defeito, porque o fundo não é plano, a escavação da areia, pelo FUNDUSP, era feita onde houvesse a mina. Mais ou menos na direção do conjunto habitacional, havia fossos de quase 17 metros de profundidade e onde está o Laboratório de Hidráulica, um afloramento rochoso que estava próximo do nível d'água. Era uma dificuldade para a regata, por causa da reflexão da onda, porque dificultava a remada. Isso foi sanado, pois numa das férias o FUNDUSP dinamitou tudo, e a raia olímpica ficou perfeita. Ela está livre da poluição porque o esgoto da Cidade Universitária não vai para o lago. No projeto que eu fiz, há duas alças paralelas à raia que jogam o esgoto no ribeirão Pirajussara e a outra no ribeirão Jaguaré. A que joga no ribeirão Pirajussara já está dentro do emissário. Essa do Jaguaré, eu me desliguei do assunto, não sei que fim tomou. O refluxo do esgoto do Pinheiros não vem nunca à raia olímpica porque o lençol de água se movimenta na direção do Pinheiros. O lençol tem um nível que se contorna com o do solo impermeável, o fluxo vem do morro, passa pelo lago e vai para o Pinheiros. Quando, por exemplo, houver uma inversão do fluxo, o que pode acontecer quando se interrompe o bombeamento da água do Pinheiros para a represa de Guarapiranga. Quando a bomba não funciona o nível do Pinheiros tende a elevar-se e fica maior do que o nível do lago. Então, tende a inverter o escoamento. Agora, quem não conhece bem hidráulica subterrânea, diz, puxa, então o esgoto vem no sentido da raia. Não vem porque a distância é grande e a velocidade da água subterrânea é muito baixa nesse tipo de terreno; é da ordem de cinco metros por dia. Quando o fluxo vem do rio para a raia ele se choca com o fluxo natural do lençol freático até que os níveis, estabilizando-se, o escoamento natural se restabelece e a poluição não atinge a raia”. E ainda complementa o quadro com o raciocínio de que“se algum de vocês rema ou nada (nadar hoje é proibido), na raia olímpica, pode ficar sossegado que não vai se contaminar". (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Enfim, todo esse cuidado já revela os traços do que, para o professor, é a engenharia – “é a arte de bem conduzir a trabalho humano e de pesquisar, desenvolver, aproveitar e proteger os recursos da natureza em benefício das comunidades.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).

Logo que terminada a sua última gestão como diretor, José Augusto Martins, em 1986, foi agraciado com o título de Professor Emérito pela Congregação da Escola Politécnica de São Paulo. Entre as diversas medalhas que recebeu destacam-se: a Medalha Saturnino de Brito, do governo do Estado de São Paulo; a Ordem do Mérito Naval nos graus de Cavaleiro e Oficial, da Marinha do Brasil; a Medalha Caetano Felippe, da Comissão Nacional de Energia Nuclear; e Prêmio Professor Azevedo Netto, da Associação Nacional de Engenharia Sanitária. E mesmo aposentando-se em 1986, continua ativo, fazendo valer toda a sua bagagem de conhecimento e experiência, com o adendo de que possui uma memória invejável. Tem como principais hobbies: literatura, fotografia e música erudita.

Na prática da engenharia foi autor de cerca de 200 projetos de obras de engenharia hidráulica e de engenharia sanitária, atividades desenvolvidas antes de sua posse como diretor da Escola e após sua aposentadoria.

Membro de diversas sociedades científicas, entre as quais a American Society of Civil Engineers, EUA. (fellow a life member); International Navigation Association, Bélgica (member à vie), e International Hidraulic Research Association (Holanda e Espanha).

Membro de importantes conselhos: Instituto de Pesquisas Tecnológicas, Instituto de Energia Atômica (presidente), Instituto de Eletrotécnica (presidente) e FUVEST (presidente).