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Modelagem e simulação de cenários de emissões de GEEs são fundamentais para as políticas climáticas

Em workshop organizado pelo RCGI, especialistas brasileiros e estrangeiros mostraram a importância de modelos de análise integrada para a tomada de decisões.

A adoção de ferramentas integradas de modelagem e simulação de cenários de emissões de gases de efeito estufa (GEEs), que leve em consideração aspectos econômicos, conjunturais e tecnológicos, é essencial para qualquer país ter um planejamento estratégico confiável, além de facilitar o cumprimento das metas estipuladas no Acordo de Paris, negociado durante a COP-21. Aqui, alguns centros de pesquisa já trabalham com esta finalidade. Eles estiveram reunidos em um workshop no último dia 30, na Escola Politécnica da USP, em São Paulo, para trocar experiências. O evento, que foi organizado pelo RCGI (Fapesp-SHELL Research Centre for Gas Innovation), teve também a participação de especialistas estrangeiros, representantes do governo, de empresas e do terceiro setor.

Segundo Osvaldo Lucon, professor do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEE) da USP, atualmente o Brasil trabalha com três planos energéticos distintos, simultaneamente: um que visa o horizonte até 2030, publicado em 2007; um Plano Decenal, que abrange até o ano de 2024; e um terceiro, que é basicamente um estudo de demanda energética abrangendo até o ano de 2050. Todos eles são publicados pela EPE – Empresa de Pesquisa Energética. “O problema é que esses planos estão desatualizados. Alguns deles levam em consideração, por exemplo, um crescimento de PIB de 5% ao ano. Isso infla as expectativas de investimentos e afeta a confiabilidade do planejamento energético”, pondera.

A modelagem é um approach transversal a muitos dos 29 projetos de pesquisa do RCGI. Um deles, o projeto número 23, coordenado pelo pesquisador Ricardo Esparta, do IEE, ao lado de Lucon, é focado na modelagem e simulação de cenários relativas ao uso do gás, mas contemplando também todo o setor de energia e emissões de gases de efeito estufa correspondentes. Eles pretendem testar uma das ferramentas da “Energy Technology Systems Analysis Project,” da Agencia Internacional de Energia (ETSAP/IEA).

 “A ETSAP se dedica a atividades de pesquisa e desenvolvimento que melhorem estado da arte de análise de sistemas de energia. Nosso foco é a tecnologia. Alguns tópicos, como mitigação das mudanças climáticas e decisões políticas, melhora da modelagem das interações entre o sistema de energia e a economia, por exemplo, nos interessam muito”, disse o CEO do ETSAP Brian Ó Gallachóir, que participou do evento.

Segundo ele, apesar de haver um consenso de que o mundo deve caminhar para reduzir as emissões, não há um acordo sobre como manter o aquecimento global abaixo dos 2°C. “Esse é um dos pontos em que a modelagem energética pode ajudar, identificando caminhos para construir pontes entre as ambições e o que é necessário fazer para atingi-las. Nós não tomamos as decisões políticas, mas podemos prover informações que ajudem os responsáveis a tomá-las”, destacou.

Modelos globais – Uma das ferramentas detalhadas no evento foi o JRC Energy Trade Model (JRC ETM) – um modelo global, associado a outra ferramenta que é usada para modelagem e simulação em países da Europa. Juntos, eles abarcam 44 regiões do globo e avaliam os impactos e cenários das escolhas político energéticas relativos à economia (opções de tecnologia, preços, etc.), ao mix de energia e às emissões de carbono. O estudo explora o potencial de desenvolvimento, em médio e longo prazos (até 2040), de hidrocarbonetos não convencionais em escala global, mais precisamente gás e petróleo.

Maurizio Gargiulo, outro integrante do ETSAP, contou que essa ferramenta permitiu desenhar quatro cenários, considerando duas diferentes políticas climáticas baseadas no último relatório do IPCC, de acordo com os níveis de concentração de GEEs. Os cenários foram intitulados RCP 4.5-Low, RCP 4.5-High, RCP 2.6-Low e RCP 2.6-High (RCP é a sigla para Representative Concentration Pathways). “Nos cenários RCP 4.5, o nível de emissões em 2040 será 31% superior a 2010. Nos outros, será 44% inferior a 2010. Também prevemos que o gás natural terá um papel chave na provisão de energia em caso de aumento de demanda: de 84% - 90% maior do que tinha em 2010 nos cenários considerados low e de 113% - 120% maior do que em 2010 nos cenários high.”

Soluções nacionais – Reconhecida pela sua expertise em modelagem de cenários de emissões, a COPPE da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) apresentou no evento algumas versões de ferramentas: o MSB 300, um modelo compacto, o MSB 8000, mais complexo e que inclui o uso da terra, e o COFFEE, único modelo global desenvolvido fora da Europa, Japão e EUA.

“Começamos a desenvolver o MSB na década de 1990, após analisarmos um grande número de estudos. Seu grande diferencial é levar em consideração o papel da biomassa, já que o Brasil tem diversas tecnologias para o uso de biomassa. O MSB 8000, como inclui o uso da terra, é capaz de antever a competição entre a produção de alimentos e a produção de energia. Seu cálculo de emissões inclui a queima de combustíveis fósseis de todos os setores, processos industriais, tratamento de resíduos e emissões fugitivas”, explicou Alexandre Szklo, professor associado do Programa de Planejamento Energético da COPPE.

Já o COFFEE é um modelo global que inclui 18 regiões. “Separamos o Brasil, a Índia, a África do Sul, a Rússia e a China porque queremos saber o que está acontecendo com os Brics. O modelo inclui ainda o transporte e o potencial de armazenamento de carbono, por região, o que é uma coisa realmente inédita”, destacou. O próximo passo, disse Szklo, será incluir a água nos modelos criados pela instituição.

Gás e fontes renováveis – Pelos cálculos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em 2030 o Brasil terá 24% da energia produzida por meio de biomassa e do uso do sol e do vento. “O Brasil assumiu compromissos de redução de emissões na última Conferência do Clima, em Paris. Nos comprometemos a diminuir as emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025, e em 43% até 2030, tendo 2005 como ano-base. Para atingirmos essas metas, é preciso aumentar a participação das fontes renováveis no mix energético brasileiro em 23% até 2030, isso sem contar a energia gerada via hidrelétricas”, disse Jeferson Soares, superintendente para Economia Energética da EPE.

Para o subsecretário da pasta de Minas e Energia do Estado de São Paulo, Dirceu Abrahão, é necessário garantir que o País – e particularmente o Estado de São Paulo – tenha energia no tempo que precisa. “Nós consumimos 30% da energia do País, mas não somos autossuficientes em produção de energia. Por conta do pré sal, estamos lidando com essa situação de uma grande oferta de gás em águas profundas. Temos três termelétricas no Estado e há planos para mais três. A princípio, todo esse gás do pré-sal estaria disponível para operar essas plantas. Além disso, temos ainda 4,7 milhões de hectares de cana plantados no Estado, cujos resíduos rendem biogás e biometano. Então, nos próximos anos, espero que possamos substituir o diesel pelo gás natural”, ressaltou Abrahão.

O pesquisador Ricardo Esparta, que organizou o evento, destacou a importância de realizar um esforço conjunto pela adoção do gás natural em São Paulo, o maior consumidor de energia do País e que, no entanto, não produz o suficiente para se manter. “Em pouco tempo teremos muito gás disponível no Estado, oriundo do pré-sal. Está mais do que na hora de planejarmos o que faremos com ele, de saber o que compensa, o que não compensa, e quais os impactos da adoção do gás em termos de emissões. ”

Ele também ressalta a importância do diálogo entre os que confeccionam as ferramentas de modelagem e os que as utilizam, que era um dos objetivos do workshop. “É crucial saber quais são as expectativas, demandas e expertises dos usuários dessas ferramentas. Não adianta construir um modelo de análise integrada de que as instituições não precisem.”