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Mesa-redonda discute participação das mulheres nas Exatas

Evento foi organizado pelos centros acadêmicos dos cursos de Mecatrônica, Mecânica, Elétrica e de Computação

O debate sobre a presença das mulheres nas Exatas e Engenharias e em posições de liderança no mercado de trabalho está cada vez mais presente no cotidiano da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Os centros acadêmicos de Engenharia Mecânica e Mecatrônica (CAM) e de Engenharia Elétrica e de Computação (CEM) promoveram nesta quinta-feira (26/10), no auditório do Departamento da Engenharia Mecânica, a mesa-redonda “Mulheres nas Exatas”, em que profissionais que atuam nos setores acadêmico e empresarial puderam contar suas experiências de carreira e dar conselhos para o enfrentamento do preconceitual baseado em gênero.

Foram debatedoras a vice-diretora da Poli-USP e professora do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola, Liedi Légi Bariani Bernucci, formada na Poli em Engenharia Civil; a Líder de Projetos na consultoria BCG, Luciana Cruz, formada em Engenharia de Alimentos na Unicamp; a Head de Dados e Inteligência da Revelo e fundadora da startup “Ela, Líder”, Karina Piva, formada em Engenharia Elétrica - ênfase Energia e Automação na Poli; e a IT Manager do Itaú Unibanco Carla Moraes, formada em Ciência da Computação e Tecnologia da Informação pela Universidade Católica de Santos. Os estudantes Sabrina Dotta Noschang, do CAM, e Thomas Palmeira Ferraz, do CEE, foram os coordenadores do evento.

A primeira pergunta tratou da percepção da desigualdade quando eram estudantes. A professora Liedi Bernucci contou que havia 29 mulheres na Poli em um total de 620 alunos no seu ano de ingresso. “Esse número está aumentando, o que é positivo, mas é uma questão da sociedade se habituar a ver mulheres nas posições de engenharia e liderança”, apontou. Ela disse ter vivido situações de preconceito, mas isso nunca afetou sua determinação em atingir seu objetivo de carreira: ser professora titular na universidade.

Ela também alertou para a educação familiar. “Infelizmente, muitas mulheres ainda transmitem uma visão preconceituosa a seus filhos, atribui tarefas específicas para as meninas e não para os meninos e acabam criando pessoas machistas dentro de casa”, lembrou. Para ela, a questão essencial é ter exemplos de mulheres que conquistaram seus espaços na academia e nas empresas. “A Poli levou mais de 100 anos para ter uma professora titular e uma professora na Vice-Diretoria. Hoje temos várias professoras titulares, várias que são chefes de Departamento e espero que eu, pessoalmente, possa deixar um exemplo positivo para nossas estudantes”, completou.

Carla Moraes disse que não havia uma desigualdade muito grande na sua época de estudante. “A discussão sobre temas como minorias, preconceitos não era tão ampla e transparente, então posso ter passado por situações de discriminação sem me dar conta da gravidade das mesmas. A discussão não era tão clara como hoje”, disse. Karina Piva também não reportou ter sentido a desigualdade ou o preconceito de forma aberta. Já Luciana Cruz fez um curso, Engenharia de Alimentos, no qual a distribuição entre homens e mulheres é próxima de 50%. “Como recrutadora noto que não tem como o mercado resolver a questão do pequeno número de mulheres em Engenharia ou em postos de liderança porque o problema está na base, na formação dessas profissionais”, acrescentou.

Outra pergunta se relacionou a estudos que mostram que as mulheres precisam se esforçar muito mais do que os homens para obter o mesmo reconhecimento. Piva lembrou que pesquisas da Universidade de Harvard mostram que a produtividade das mulheres e dos homens se equivale, mas elas precisam entregar até o dobro de resultado ou fazer duas vezes mais esforço do que os homens para provar que são capazes e conseguirem reconhecimentos como, por exemplo, promoções.

Bernucci apontou que o preconceito não vem só de homens, mas também de mulheres. “Quando eu estava na graduação, em um trabalho em grupo no qual eu era a única mulher, todos tiraram nota A e eu fiquei com B, sendo que eu tinha encontrado a solução. Questionei a professora e ela mudou minha nota”, contou. “Precisamos refletir sobre nossas próprias posições quando somos lideradas por mulheres”, prosseguiu.

A docente também afirmou que sempre teve de provar que era tão boa ou melhor do que os homens e que, infelizmente, isso ainda é uma realidade para as mulheres. Moraes acrescentou que enfrentar essa situação é uma forma de continuar galgando os degraus das universidades e do mercado de trabalho para que se possa ter mais e mais mulheres em condições de dar exemplos bem-sucedidos e superar o preconceito. “A velocidade da mudança é mais lenta do que a gente precisa, mas é uma mudança abrangente, que não será promovida apenas pelas empresas ou só pela universidade, envolve a todos”, apontou.

Cruz ressaltou ainda a competitividade natural que existe entre as mulheres, e que muitas vezes se expressa numa acirrada competição que elas estabelecem entre si, algo que não se observa nos homens. Para ela, as mulheres precisam se apoiar e ‘puxar’ umas as outras, como, por exemplo, contratando outras mulheres para cargos de liderança.

Bernucci ponderou sobre a necessidade de se manter uma posição firme quando se está em cargos de liderança. “Isso não significa ser teimosa, pois ouvir a todos é uma habilidade fundamental para um bom líder. Nem também quer dizer que devemos nos travestir de homem para assumir esse tipo de posição”, comentou.

Ao serem questionadas sobre se já foram vítimas de preconceito por parte de colegas de profissão ou clientes/alunos, Bernucci contou que sente mais preconceito no ambiente acadêmico do que no empresarial, onde ela atua como consultora. “Nas obras civis, as pessoas me respeitam plenamento. Na academia, vez ou outra tenho de dar uma resposta tranquila e sutil para mostrar o ridículo da situação”, pontuou.

Para Moraes, a relação está melhorando e as pessoas se sentem mais contrangidas de externalizar comportamentos preconceituosos no ambiente corporativo. Cruz também declarou sentir mais preconceito nos ambientes de ensino do que no empresarial, e sugeriu que debates como o da mesa-redonda devem se converter em ações concretas, como a visita de alunas da Poli a escolas de ensino médio para falar com as estudantes pré-vestibulandas sobre a carreira de Engenharia.

Ao concluir sua participação, a professora Bernucci recomendou que a comunidade politécnica continue a discutir o tema, mas que faça uma mobilização positiva. “Se as alunas vão às redes sociais e apenas reclamam, podem colocar o problema do preconceito como sendo um fator impeditivo e desestimular as estudantes a virem para a Poli e a estudarem Engenharia”, ponderou. “Ainda temos estudantes e docentes que preferem reclamar nos corredores ao invés de vir conversar com a Diretoria e construir conjuntamente as soluções, mas precisamos discutir e enfrentar isso de forma madura, construtiva. Ficou muito feliz em ver movimentos de estudantes como o dessa mesa-redonda e parabenizo essa iniciativa”, finalizou.

Veja no álbum da Poli no Flickr as fotos da mesa-redonda.