Escola Politécnica da USP

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Ideias revolucionárias

Daniel Damas, Diogo Dutra e Miguel Chaves, alunos da Poli

Três estudantes da Poli vencem concurso Batalha de Conceitos e criam empresa de consultoria na área de inovação. Intenção é assegurar a obtenção de soluções desejadas pelo cliente.


A vitória num concurso lançado pela construtora Tecnisa, com uma ideia que pode revolucionar o conceito de sustentabilidade no setor imobiliário, colocou em foco um grupo de três estudantes de engenharia mecatrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP). Além do curso, Daniel Damas, Diogo Dutra e Miguel Chaves têm em comum a paixão pela inovação e o desejo de gerar conceitos que possam levar a novos produtos. Para colocar isso em prática, fundaram o Centro Avançado de Oportunidades e Soluções (CAOS), mais conhecido como Caos Focado, que pretendem que seja o embrião de uma empresa de consultoria na área de inovação e novas ideias para o desenvolvimento tecnológico.

Na verdade, o concurso da Tecnisa foi realizado no Battle of Concepts ou batalha de conceitos, um portal ou rede virtual de inovação aberta apenas para universitários e jovens com até 30 anos. Nele, grandes empresas promovem competições de ideias e premiam os autores que apresentam as melhores propostas. Cada competição é chamada de batalha e tem o objetivo de resolver um problema das empresas ou sugerir novos projetos para elas. As companhias lançam o desafio e os estudantes cadastrados são convidados a enviarem seus ideias ou propor soluções.

Criado na Holanda há seis anos, o Battle of Concepts chegou ao Brasil em 2009, por meio de uma parceria entre a empresa brasileira Terra Fórum e o empresário holandês Hans van Hellemondt. Até agora, o portal lançou seis batalhas e pagou R$ 75 mil em prêmios. Entre as participantes estão grandes companhias como Whirlpool, Philips e Tecnisa. Os temas das disputas variam conforme a necessidade de cada uma. A Philips, por exemplo, queria ideias para melhorar a interatividade dos manuais de uso dos seus produtos. A Whirlpool, por sua vez, buscou inovações na divulgação de suas marcas nos pontos de venda.

No caso da Tecnisa, a batalha, que se estendeu de 18 de janeiro e 6 de abril, foi por sugestões de novas tecnologias ou serviços em seus empreendimentos. O tema foi sobre ideias para melhoria e diferenciação da infraestrutura de tecnologia, lazer e/ou serviços nas unidades residenciais e condomínios desenvolvidos pela empresa. Foram apresentadas 57 propostas de estudantes de todo o País. O Caos Focado apresentou duas, uma em nome de Diogo e outro de Miguel. “O conceito no nome do Miguel ganhou a primeira colocação na batalha e o meu nome ficou na 14ª posição”, conta Diogo. “Ambos os resultados foram muito comemorados por nós, pois logo na primeira participação obtivemos as primeiras colocações.”

Os três amigos e sócios, todos nascidos na cidade de São Paulo, se conheceram no primeiro ano do curso na Poli. Desde então, não perderam mais contato, embora cada um tenha seguido um caminho próprio para chegar até a fundação do Caos Focado. Uma jornada de muito trabalho e estudos. Daniel, por exemplo, sempre desenvolveu muitas atividades extracurriculares, como representação dos alunos, iniciação científica, e participação no Centro Minerva de Empreendedorismo, da Poli. “Foi nesse último que me apaixonei pela inovação e pelo empreendedorismo, culminando na formação do grupo CAOS”, conta.

Antes disso, ele sempre teve áreas de interesse muito amplas, por isso escolheu engenharia mecatrônica, que abrange setores de mecânica, eletrônica e computação e se especializou em engenharia biomédica. “São duas áreas com grande potencial de crescimento na próxima década e são de conhecimento interseccional, onde reside a criatividade”, explica Daniel, que está no quinto ano do curso. Hoje, ele é um estudante do programa de diploma duplo entre a Escola Politécnica da USP e o Politecnico di Milano, na Itália. “Junto ao CAOS, acredito no nosso projeto, na sintonia com meus conhecimentos e minhas paixões e competências para desenvolver projetos que possam agregar valor à sociedade e ao mundo”, diz.

Assim como Daniel, Diogo também é estudante do 5° ano de Engenharia Mecatrônica. Antes, formou-se técnico eletrônico. É um apaixonado por tecnologia. “A engenharia apareceu desde muito cedo para mim como a área de atuação que eu queria”, diz. “A tecnologia e a possibilidade de atuar diretamente nos problemas da sociedade propondo soluções reais sempre foi o que me atraiu nela. O poder de atuação da Mecatrônica, em intersecção com diversas áreas do conhecimento, possibilita a utilização da tecnologia para solucionar problemas, até mesmo melhorando a eficiência, em áreas como educação, habitação e transporte, por exemplo.”

Em meados de 2008, Diogo foi aceito para um intercâmbio de um ano e meio na École des Mines de Paris, de grande renome na França e da qual saem grande número dos dirigentes das multinacionais francesas. Lá, ele teve contatos com uma nova e promissora teoria em Concepção e Design. “Neste período tive aula com os professores Armard Hatchuel, Benoît Weil e Pascal Le Masson, criadores da Teoria C-K”, conta.  Essa teoria, que em inglês chama-se Concept-Knowledge Theory, daí o C-K, tenta explicar como ocorre a criatividade e a inovação.

Já formado em técnico de informática, Miguel também está no mesmo curso e ano que Daniel e Diogo. Assim como os dois amigos, é um apaixonado por tecnologia, mas com uma preocupação maior pelas questões sociais. Em 2006, por exemplo, se inscreveu e foi selecionado para participar do projeto de desenvolvimento de produto com foco na área social e ficou um mês na Aldeia Indígena do Canuanã, na Vila do Bananal, em Tocantins, e duas semanas na comunidade do Jardim Conceição, em Osasco, pelo projeto Poli Cidadã.

Entender o confronto entre diversas culturas e níveis sociais totalmente diferentes e extrair o máximo de soluções interseccionais fascinou-o tanto, que em 2007 foi para Boston como participante do International Development Design Summit (IDDS), um curso de desenvolvimento de produto ministrado no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em 2008, retornou àquela cidade para continuar seus estudos na área de desenvolvimento de produto e ser um dos organizadores do IDDS.

Em 2009, foi convidado para ser um dos membros do time Mobile Child Monitoring em parceria com o Unicef, IDDS e Kwame Nkrumah University of Science and Technology (KNUST), de Gana. “Nessa ocasião, trabalhei em aldeias pobres da região sul de Gana no desenvolvimento de uma máquina para medir altura e peso de crianças em aldeias isoladas da região”, conta. “O Norte da África me mostrou um novo ponto de vista e, além de já ser fascinado pelo empreendedorismo, me apaixonei também pelo empreendedorismo social. No segundo semestre de 2009, fui um dos ganhadores da competição Energy Contest, promovida pelo Banco Internacional de Desenvolvimento (BID).”

Os três juntos, no Caos Focado, vêm estudando conceitos como Open Innovation (inovação aberta) e Teoria C-K há mais de quatro anos. “Por isso, enxergamos no Battle of Concepts uma oportunidade única de colocá-los em prática”, diz Daniel. “O grande diferencial do nosso grupo foi sempre o seu processo criativo e o de inovação. Porém como colocar isso em prática sem cases de sucesso? Por isso, resolvemos participar da batalha da Tecnisa.”

Segundo os três amigos, essa participação foi importante para eles. “Muitas das nossas idéias são abafadas ainda na fase embrionária e são diversos os fatores que nos fazem desacreditar desses insights em potenciais”, explica Miguel. “Por isso, esse tipo de iniciativa, como a da Tecnisa, nos dá motivação para testar esse potencial criativo de desenvolver idéias e soluções. Quando nos foi perguntado se não nos sentimos mal por receber apenas R$ 5.000,00 por uma idéia que ‘pode revolucionar o conceito de sustentabilidade no setor imobiliário’ a nossa resposta foi convicta: não, de forma alguma.”

Isso porque a intenção deles como um grupo criador de ideias e negócios é trabalhar com propostas novas e desenvolvê-las até uma determinada fase. “Nosso negócio é o controle da metodologia de desenvolvimento de soluções, ou seja, assegurar a obtenção de soluções desejadas pelo cliente e não a solução em si”, explica Diogo. “Por isso, sem iniciativas como essa da Tecnisa, sem um desafio, a ideia nem seria gerada. Agora, de onde veio essa ideia que apresentamos no Battle of Concepts virão inúmeras outras. Esse tipo de competição é uma oportunidade para o CAOS Focado e para os amantes da criatividade e da inovação mostrarem seu potencial.”