Centro Virtual de Cultura Marítima
BESNARD: O LEGADO QUE NAVEGA NA CIÊNCIA DO BRASIL
A história da oceanografia moderna no Brasil associa-se com a trajetória de sua mais emblemática embarcação: o N/Oc. Professor Wladimir Besnard. Mais do que um navio, ele representa um projeto de Estado, concebido para transformar a presença brasileira no Atlântico Sul da costa para o oceano. Idealizado sob a influência direta do Professor Wladimir Besnard, o cientista franco-russo responsável pela institucionalização das ciências do mar na Universidade de São Paulo, o navio foi a resposta técnica à necessidade de um ‘laboratório flutuante’ com autonomia e robustez. Sua origem reflete um esforço multidisciplinar, com o projeto técnico inicial desenvolvido pelo Escritório Técnico de Construção Naval da Escola Politécnica da USP, sob supervisão do Almirante Yapery Tupiassu, e materializado na Noruega pelo estaleiro Mjellem & Karlsen, referência mundial em embarcações para mares severos. Entregue em 1967, o Besnard serviu por mais de quatro décadas como sala de aula e plataforma de pesquisa. Sua engenharia, caracterizada por um casco reforçado (Ice Class C)[1] e vocação para mar grosso, permitiu que o Brasil realizasse sua primeira expedição oficial à Antártica em 1982, garantindo ao país lugar no Tratado Antártico.
WLADIMIR BESNARD: O PAI DA OCEANOGRAFIA BRASILEIRA
Nascido em 1890, a bordo de um navio que levava seus pais à Rússia, foi registrado em São Petersburgo, e naturalizado francês posteriormente[3]. Wladimir Besnard é reconhecido amplamente pela sua contribuição no surgimento e estruturação da oceanografia brasileira. Iniciou sua formação acadêmica estudando em instituições de Kiev e Moscou, especializando-se em biologia geral e anatomia comparada. Após a conclusão de seus estudos, foi chamado para o cargo de assistente, na Estação Biológica de Villefranche sur Mer. Em 1914, a explosão da Primeira Guerra Mundial forçou uma pausa em sua carreira, retirando-o dos estudos e colocando à batalha. [4]
Entre 1923 e 1927, foi professor e chefe do departamento de biologia do Colégio Universitário Americano “Robert College” de Constantinopla, onde dedicou-se em reformá-lo inteiramente para elevar o nível do ensino. Seguindo sua meta, instalou em um barco equipamentos para serem feitas pesquisas oceanográficas, que serviu para uma série de trabalhos físicos e biológicos no Mar de Mármara e no Estreito de Bósforo, ambos conectados e localizados na Turquia. É nesse período que temos registrado o primeiro interesse de Besnard com a biologia marinha e oceanográfica. Suas pesquisas continuaram e retornaram junto dele para terras francesas, no Laboratório de Pesca e Produção Colonial e na École Pratique des Hautes Études – EPHE.
Sua chegada ao Brasil ocorreu em 1946, convidado pelo governo do Estado de São Paulo para dirigir o recém-criado Instituto Paulista de Oceanografia (IPO). Após 5 anos, em 1951, sob a liderança de Wladimir Besnard, juntamente com Marta Vanucci e Luciano Gualberto, o IPO foi incorporado à Universidade de São Paulo, denominando-se agora Instituto Oceanográfico da USP (IO-USP). Essa união tornou as pesquisas marinhas parte da universidade, garantindo rigor acadêmico e integração com o programa do curso. Tornando-se o primeiro diretor do instituto, Besnard implementou uma estrutura no departamento que integrava a Oceanografia Biológica, Física, Química e Geológica, modelo que se mantém até nos currículos atuais.
Ele também trouxe à tona a compreensão de que para entender de fato o oceano e a vida marinha era necessário que houvesse expedições in loco, para realizar experimentos e pesquisas precisamente. Foi assim, que a ideia de um navio oceanográfico para o IO-USP surgiu, e que futuramente levaria o nome de seu incentivador.
O PRIMEIRO NAVIO OCEANOGRÁFICO BRASILEIRO
“O instrumento de trabalho fundamental para qualquer instituição que se empenha em pesquisar o mar com finalidades práticas ou científicas é uma embarcação especialmente planejada e equipada para este fim: o navio oceanográfico” (Wladimir Besnard, 1959).
Inicialmente custeado por verbas mistas (federais e estaduais), o projeto da embarcação foi desenvolvido dentro da própria Universidade de São Paulo, pelo Escritório Técnico de Construção Naval da Poli-USP, sob a tutela do Coordenador do Curso de Engenharia Naval, o Almirante Yapery Tupiassu de Brito Guerra.
Enquanto a viabilização construtiva da embarcação demandou aportes suplementares do Governo do Estado de São Paulo, a sofisticação tecnológica e a equipagem foram asseguradas pelo apoio estratégico da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas) e da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Esses recursos revelaram-se fundamentais para garantir a excelência técnica do projeto, permitindo inclusive a contratação dos especialistas noruegueses Hans Zimmer e Thor Kvinge para a supervisão in loco da obra e da instrumentação científica do navio.
Dois anos após o falecimento do Prof. Wladimir Besnard, foi aberta uma consulta pública para a aquisição da embarcação, resultando na seleção do estaleiro norueguês A/S Mjellem & Karlsen, de Bergen, referência mundial na construção de embarcações conhecidas pela sua robustez e estabilidade em mar grosso.
O navio foi lançado ao mar em 18 de agosto de 1966 e batizado em 5 de maio de 1967 no estaleiro A/S Mjellen & Karlsen, onde compareceram o embaixador brasileiro na Noruega, Sr. Jaime de Sousa Gomes, que representou o governador de São Paulo e o engenheiro naval Vicente Verrone, indicado pelo governador para acompanhar a construção do navio. No dia 30 de maio do mesmo ano foi realizada a solenidade de troca da bandeira, com o Brasil representado pelo próprio Almirante Yapery.
Composta por nove cruzeiros oceanográficos, a sua viagem inaugural para o Brasil, denominada Comissão VIKINDIO (Viking + Índio), não foi apenas um translado, mas a primeira missão científica, coletando dados oceanográficos ao longo da costa africana e brasileira até atracar em Santos em 09 agosto de 1967.
Foi nesta viagem que foi descoberta uma montanha submarina encontrada nas proximidades da Ilha do Sal, no Atlântico Norte, na rota entre Dakar e Las Palmas. A montanha de 3,5 mil metros tinha o topo constituindo um alto fundo de 194 metros abaixo da superfície do mar.
Vikindio 1 e 2 (1967) – Série: Expedições oceanográficas do N/Oc. Prof. W. Besnard do IOUSP INSTITUTO OCEANOGRÁFICO – IOUSP. Vikindio 1 e 2 (1967) – Série: Expedições oceanográficas do N/Oc. Prof. W. Besnard do IOUSP. YouTube, 29 de nov. de 2023. 05:01 minutos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7hbzEpBC0cI. Acesso em: 06 de dez. de 2025.
O LEGADO CIENTÍFICO E A CONQUISTA DA ANTÁRTICA
Mais do que uma plataforma de coleta de dados, o N/Oc. Prof. W. Besnard consolidou-se como o pilar fundamental da oceanografia brasileira durante quatro décadas. Até a chegada de embarcações mais modernas nos anos 2010, ele foi o único navio civil do país com capacidade para realizar expedições de longa duração em alto-mar, atuando como uma verdadeira “universidade flutuante” para gerações de oceanógrafos e engenheiros navais.
A sua contribuição mais notável para a soberania nacional ocorreu no início da década de 1980, quando o navio foi requisitado para integrar a I Expedição Antártica Brasileira (OPERANTAR I). Entre 1982 e 1988, o Besnard realizou seis viagens ao continente gelado. Embora não fosse um quebra-gelo, sua classificação estrutural Ice Class C permitiu que navegasse em águas com presença de gelo solto, coletando dados físicos e biológicos pioneiros no Estreito de Bransfield. O sucesso dessas missões científicas foi o argumento técnico decisivo para que o Brasil fosse aceito como Membro Consultivo do Tratado da Antártica em 1983, garantindo ao país poder de voto nas decisões sobre o futuro do continente.
PROANTAR (1982-1988) – Série: Expedições oceanográficas do N/Oc. Prof. W. Besnard do IOUSP
INSTITUTO OCEANOGRÁFICO – IOUSP. PROANTAR (1982-1988) – Série: Expedições oceanográficas do N/Oc. Prof. W. Besnard do IOUSP. YouTube, 01 de dez. de 2023.09:35 minutos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oYFwfQ16PjY. Acesso em: 06 de dez. de 2025.
Além da epopeia polar, a embarcação foi peça-chave em programas estruturantes de mapeamento da “Amazônia Azul”. Destacam-se sua atuação no Projeto REMAC (Reconhecimento da Margem Continental Brasileira), que mapeou recursos minerais e potenciais petrolíferos na costa, e no Programa REVIZEE (Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva), fundamental para o ordenamento da pesca industrial no Brasil.
Ao longo de mais de 150 comissões oceanográficas, o navio acumulou feitos históricos, como a descoberta da Montanha Submarina Besnard (no Atlântico Norte) e a formação de bancos de dados climatológicos e hidrográficos que hoje sustentam modelos de previsão climática no Atlântico Sul. O navio encerrou suas atividades operacionais em 2008, após um incêndio na praça de máquinas, deixando um legado de soberania científica inigualável.
REFERÊNCIAS
- INTERNATIONAL MARITIME ORGANIZATION (IMO). Código Internacional para Navios que Operam em Águas Polares (Código Polar). Disponível em: https://www.imo.org/en/ourwork/safety/pages/polar-code.aspx. Acesso em: 05 dez. 2025.
- INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – IOUSP. N/Oc. Prof. W. Besnard: Histórico. Disponível em: https://www.io.usp.br/index.php/embarcacoes/n-oc-prof-w-besnard/historico.html. Acesso em: 05 dez. 2025.
- INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – IOUSP. Biografias: Wladimir Besnard. Disponível em: http://www3.io.usp.br/index.php/noticias/1182-biografias-wladimir-besnard.html. Acesso em: 05 dez. 2025.
- SciELO. In memorian: prof. Wladimir Besnard (1890-1960). Boletim do Instituto Oceanográfico, São Paulo, v. 11, n. 1, p. 1-3, 1960. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bioce/a/YsSrLKvwWY6dsZHydXPd4yD/?lang=pt. Acesso em: 05 dez. 2025.
- FIORAVANTI, Carlos. PESQUISA FAPESP. O adeus ao Prof. Besnard. Revista Pesquisa FAPESP, ed. 241, mar. 2016. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-adeus-ao-prof-besnard/. Acesso em: 05 dez. 2025.
- INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – IOUSP. Embarcações: N/Oc. Prof. W. Besnard. Disponível em: https://www.io.usp.br/index.php/embarcacoes/n-oc-prof-w-besnard.html. Acesso em: 05 dez. 2025.
- PESQUISA FAPESP. De vento em popa. Revista Pesquisa FAPESP, ed. 59, nov. 2000. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/de-vento-em-popa/?cat=ciencia/. Acesso em: 07 dez. 2025.
- INSTITUTO OCEANOGRÁFICO – IOUSP e FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO E DE DESIGN-FAUUSP. Besnard: histórias de um navio oceanográfico. YouTube, 18 dez. 2019. 24min48s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BABF6sh2Qq8. Acesso em: 05 dez. 2025.
- INSTITUTO OCEANOGRÁFICO-IOUSP e FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO E DE DESIGN-FAUUSP. Vikindio 1 e 2 (1967) – Série: Expedições oceanográficas do N/Oc. Prof. W. Besnard do IOUSP. YouTube, 29 de nov. de 2023. 05:01 minutos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7hbzEpBC0cI. Acesso em: 06 de dez. de 2025.
- INSTITUTO OCEANOGRÁFICO – IOUSP e FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO E DE DESIGN-FAUUSP. PROANTAR (1982-1988) – Série: Expedições oceanográficas do N/Oc. Prof. W. Besnard do IOUSP. YouTube, 01 de dez. de 2023.09:35 minutos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oYFwfQ16PjY. Acesso em: 06 de dez. de 2025.