Centro Virtual de Cultura Marítima
AUTORIA: João Pedro Boreli Volponi
EDITORAÇÃO: Letícia Pelistrato
Vela Esportiva: Prática e Legado
Usar o fluxo dos ventos para navegar sob as ondas é uma técnica antiga, criada pela necessidade e transformada ao longo dos séculos até se tornar uma atividade recreativa, que carrega a herança de conhecimentos de vários continentes.
Os primeiros registros de estruturas de madeira navegando sob a água utilizando o vento ao seu favor através de velas, datam 300 a. c., quando os egípcios criaram essa técnica para transportar pessoas e mercadorias sob as águas do Rio Nilo¹.
Conforme a navegação se tornava global, povos ao redor do mundo utilizaram-a para diferentes fins. Uma saga famosa se inspirou nos povos polinésios para mostrar a tecnologia das canoas movidas à vela utilizadas na exploração de novos territórios (bem antes dos portugueses): Moana: Um Mar de Aventuras (2016) e Moana 2 (2024), da Disney. A obra é fictícia, mas as técnicas mostradas para manusear as embarcações à vela, e a importância da tecnologia e do conhecimento popular para a história das civilizações, é real.
Com o passar dos anos, a liberdade, a conexão com a natureza e o “voar” praticados pelos velejadores originaram o navegar por entretenimento e esporte. Hoje, há competições esportivas voltadas apenas para a Vela Esportiva (também chamada de Iatismo). A categoria também compõe uma das modalidades Olímpicas e, atualmente, é um dos esportes que mais trouxe medalhas para o Brasil.
Ao ser considerado um esporte de alta relevância e reconhecimento, o Iatismo ganhou novos modelos de Velas, carregando tecnologias voltadas para a competição, velocidade e alta performance sobre as águas.
OBS: Texto em produção
Esse texto está em produção, o que significa que, mesmo finalizado por nós, ele segue em aberto para edições e complementos de futuras gerações da equipe Navegar.
Origem do Iatismo
Apesar da existência de barcos a vela no litoral brasileiro desde o século XVI, sua utilização como prática esportiva começa na segunda metade do século XIX.
Já no Brasil, os esportes náuticos no geral surgiram em meados da década de 1840, inaugurados pelas competições de remo. O primeiro Clube voltado à essa modalidade foi Clube dos Mareantes (cidade de Botafogo, RJ), fundado em 18512. Nesse período, a prática da vela era associada diretamente ao remo, sem uma agremiação ou eventos específicos. Isso só mudou em 1895, quando foi realizada a primeira competição específica do esporte registrada no país, na Ilha de Paquetá3.
As instituições que encabeçam a disseminação da prática de atividades náuticas para esporte ou lazer são os iate clubes. Sendo eles, como o nome indica, um clube voltado para a prática de iatismo e outras atividades relacionadas, atualmente ainda se estabelecem como pilar da perpetuação do esporte.
Apesar de existirem ao redor do mundo desde o início do século 18, o primeiro iate clube do país só foi surgir em 1906, o Iate Clube Brasileiro, fundado pelos entusiastas Armando Leitte e Eduardo Motta. Outros clubes surgiram rapidamente nos anos seguintes na própria cidade do Rio de Janeiro e em outras cidades da costa brasileira. O surgimento de Iate Clubes não só marca a integração das modalidades esportivas náuticas, mas também o uso de embarcações no lazer, dada sua integração com o surgimento de marinas pelo país.
Atualmente, as práticas náuticas são bem difundidas pela costa nacional, com campeonatos de várias modalidades. Uma das práticas mais comuns são as Regatas: competições entre veleiros que tem o objetivo de completar determinado percurso no menor tempo possível ². Existem diferentes portes de Regatas, as mais notáveis são: Regata da Escola Naval, a Semana Internacional de Vela de Ilhabela e a Regata Internacional Recife/Fernando de Noronha. Os eventos são essenciais para a difusão do esporte.
TRAJETÓRIA OLÍMPICA
A vela trouxe para o Brasil 19 medalhas olímpicas³ (até a data de produção desse texto, novembro de 2025), ficando em segundo lugar no ranking de premiações, atrás do Judô (24 medalhas) e empatada com Atletismo. Já na contagem de ouros, a Vela lidera com 8 medalhas douradas.
O Brasil ganhou sua primeira medalha na categoria nos Jogos Olímpicos de Verão de 1968, realizados na Cidade do México. A vitória bronzeada foi da dupla Reinaldo Conrad e Burkhard Cordes. Já os primeiros ouros foram conquistados nas Olimpíadas de 1980 (Moscou, Rússia). A dupla de Marcos Soares e Eduardo Penido na categoria 470 (que leva esse nome por conta do comprimento da embarcação, 470 cm), e a dupla de Lars Sigurd Björkström e Alexandre Welter na categoria Tornado.
- 1968 México: Bronze — Burkhard Cordes e Reinaldo Conrad (Flying Dutchman)
- 1976 Montreal: Bronze — Peter Ficker e Reinaldo Conrad (Flying Dutchman)
- 1980 Moscou: Ouro — Eduardo Penido e Marcos Soares (470)
- 1980 Moscou: Ouro — Alexandre Welter e Lars Björkström (Tornado)
- 1984 Los Angeles: Prata — Torben Grael, Daniel Adler e Ronaldo Senfft (Soling)
- 1988 Seul: Bronze — Torben Grael e Nelson Falcão (Star)
- 1988 Seul: Bronze — Clinio Freitas e Lars Grael (Tornado)
- 1996 Atlanta: Ouro — Robert Scheidt (Laser)
- 1996 Atlanta: Ouro — Marcelo Ferreira e Torben Grael (Star)
- 1996 Atlanta: Bronze — Kiko Pelicano e Lars Grael (Tornado)
- 2000 Sydney: Prata — Robert Scheidt (Laser)
- 2000 Sydney: Bronze — Marcelo Ferreira e Torben Grael (Star)
- 2004 Atenas: Ouro — Robert Scheidt (Laser)
- 2004 Atenas: Ouro — Marcelo Ferreira e Torben Grael (Star)
- 2008 Pequim: Prata — Bruno Prada e Robert Scheidt (Star)
- 2008 Pequim: Bronze — Fernanda Oliveira e Isabel Swan (470)
- 2012 Londres: Bronze — Bruno Prada e Robert Scheidt (star)
- 2016 Rio: Ouro — Martine Grael e Kahena Kunze (49er)
- 2021 Tóquio: Ouro — Martine Grael e Kahena Kunze (49er)
COMPETIÇÕES IMPORTANTES
Além das vitórias olímpicas, o Brasil também se destaca atualmente com a participação da equipe Mubadala Brazil no SailGP, a Fórmula Um da vela, como a primeira equipe sul-americana. Desde 2024 a equipe brasileira participa da competição, com Martine Grael como capitã, a primeira da história da competição. Além da capitã, a equipe também é composta por Marco Grael, Mateus Isaac, Andy Maloney, Leigh McMillan, Richard Mason e Kahena Kunze.
A competição se consagra com o uso de uma modalidade própria, os tecnológicos catamarãs F50, adaptados a partir de modelos AC50 utilizados na Americas Cup de 2017. Esse monotipo possui duas adaptações principais: hidrofólios e velas de asa. Ambas as implementações utilizam dos efeitos de sustentação de asa, permitindo às embarcações alçar vôo. O não contato do casco com a superfície da água reduz drasticamente a resistência ao avanço total, possibilitando alcançar velocidades de até 100 km/h.
EMBARCAÇÕES E MODALIDADES
As embarcações a vela de esporte e lazer são divididas em classes baseadas no projeto de cada embarcação. As definições de classes de embarcações se destinam principalmente à regulamentação de práticas esportivas, sendo utilizadas para a construção de regulamentos exclusivos para cada categoria. Seguem breves descrições de algumas das categorias mais comuns da vela esportiva no Brasil.
Monotipos
Embarcações monotipo são aquelas cuja todas as embarcações da classe são praticamente idênticas, dom uma pequena variação entre cada uma delas. Esse tipo de classificação permite competições em que não há vantagem de equipamento entre os participantes, a mesma baseando-se apenas em suas habilidades de velejo.
As classes monotipos estão associadas às regatas de pequeno curso e em águas abrigadas, se diferenciando, então, das regatas oceânicas. As seguintes embarcações podem ser tripuladas por um único indivíduo ou por uma dupla, dependendo da modalidade.
470 (Olímpico)
O 470 é um dos veleiros de competição para duas pessoas mais respeitados do mundo, cujo nome vem diretamente de seu comprimento: 4,70 metros. Ele é visto como o degrau ideal para velejadores que já dominaram barcos básicos e buscam entrar no universo da alta performance.
Por ser um barco técnico e veloz, ele exige total sintonia da dupla. Com uma área de velas grande para o seu peso, ele foi feito para planar – “deslizar” sobre a água em alta velocidade – uma manobra emocionante que geralmente exige que o proeiro use o trapézio (um cinto que o prende para fora do barco) para equilibrar o barco com o peso do corpo, maximizando a velocidade.
Essa necessidade de sincronia total é o que torna o 470 um palco tão fascinante para a competição de alto nível, cujo ápice é sua longa e contínua história nos Jogos Olímpicos. A classe é um pilar do evento desde 1976 e evoluiu ao longo das edições: começou como uma categoria aberta, foi dividida entre masculina e feminina em 1988 e, mais recentemente, adotou o formato de duplas mistas (um homem e uma mulher), promovendo a igualdade de gênero no esporte.
Para garantir que o foco seja sempre no talento dos atletas, o 470 é uma classe “monotipo” (one design) muito rigorosa, onde todos os barcos são idênticos. Esse equilíbrio competitivo é tão efetivo que mais de 18 países diferentes já conquistaram medalhas olímpicas na classe, demonstrando seu imenso alcance e prestígio global.
A Classe 470 International é responsável pela organização e administração da Classe 470 em todo o mundo. Com 25% dos atletas da vela nos Jogos Olímpicos competindo na Classe 470, a Classe está empenhada em garantir que seus interesses e os interesses mais amplos dos velejadores de 470 sejam representados e encoraja, promove e desenvolve a Classe 470 em todo o mundo.
Star (Ex-Olímpico 1932-2012)
Um verdadeiro clássico da vela, o Star é um veleiro de quilha para duas pessoas que marcou época. Projetado em 1911, sua combinação de design elegante e performance excepcional o consolidou como uma das classes mais importantes e duradouras da história do esporte, com mais de 8.500 barcos construídos.
O que o torna tão especial é a sua navegabilidade. Ele possui um conjunto de velas grande e potente combinado a um casco leve, que o impulsiona com agilidade mesmo nos ventos mais fracos. Em condições mais fortes, seu mastro flexível e os inúmeros ajustes na vela principal permitem que a dupla controle a potência do barco com enorme precisão, garantindo uma velejada técnica e desafiadora. Essa versatilidade o torna acessível para quem está começando em barcos de quilha, mas complexo o suficiente para os maiores especialistas do mundo.
Para manter a competição justa e acessível, a classe possui regras “monotipo” (one design) rigorosas que controlam o design e os custos. Isso permitiu uma longevidade incrível ao projeto, mantendo barcos mais antigos competitivos por décadas.
O maior palco do Star foi, sem dúvida, os Jogos Olímpicos, onde reinou como a classe mais antiga, competindo de 1932 até 2012. Para o Brasil, a classe Star é sinônimo de glória, com um histórico de 5 medalhas olímpicas: três de bronze e duas de ouro. As medalhas douradas foram conquistadas pela lendária dupla Torben Grael e Marcelo Ferreira, que se tornaram bicampeões olímpicos em Atlanta (1996) e Atenas (2004).
Flying Dutchman (Ex-olímpico 1960-1992)
O FD ainda é um dos veleiros de regata mais rápidos do mundo. Seu velame é composto por uma vela mestra, uma genoa de área bastante grande e um grande spinnaker (balão) para o popa de través.O FD foi velejado nas competições olímpicas desde os Jogos Olímpicos de 1960 até os Jogos Olímpicos de 1992. A equipe brasileira possui duas medalhas na categoria, ambas de bronze.
Conhecido pela sigla FD, o Flying Dutchman é um veleiro de alta performance para duas pessoas que, em sua época, representou um verdadeiro salto de inovação e velocidade na vela. Projetado na Holanda nos anos 50, sua principal característica é a enorme área de velas em relação ao seu peso, o que lhe permite planar (deslizar em alta velocidade sobre a água) com extrema facilidade, inclusive em ângulos contra o vento — um feito impressionante para os barcos de então.
Mais do que apenas veloz, o FD foi um verdadeiro laboratório flutuante. Sua regra de classe, considerada uma “monotipo aberta”, controlava rigidamente o casco e as velas, mas encorajava inovações no equipamento. Graças a essa filosofia, foi pioneiro na introdução de tecnologias que se tornaram padrão em muitos barcos modernos, como o próprio uso do trapézio em barcos de série, o enrolador de genoa e sistemas mais eficientes para içar e controlar a vela balão (spinnaker).
Esse DNA de vanguarda levou o Flying Dutchman aos Jogos Olímpicos, onde foi uma classe de destaque por mais de três décadas. Atualmente, ele continua a ser um veleiro cultuado e respeitado, participando de eventos de prestígio para barcos clássicos, como o Vintage Yachting Games8.
Tornado (Ex-olímpico 1976-2008)
O Tornado não é um catamarã qualquer; ele nasceu com um propósito claro: ser um barco olímpico. Projetado em 1967 pelo britânico Rodney March, ele foi desenvolvido especificamente para vencer uma seletiva internacional que definiria o primeiro catamarã da história dos Jogos Olímpicos. Ele venceu de forma definitiva, e cumpriu sua missão.
Com seus dois cascos, linhas elegantes e um moderno conjunto de velas, o Tornado é uma verdadeira máquina de velocidade. Capaz de superar os 33 nós (mais de 60 km/h) com vento de través, sua performance é pura adrenalina, atraindo olhares por onde passa. Essa combinação de design e potência o consolidou como o principal catamarã de competição por décadas.
Seu sucesso foi imediato. O Tornado estreou nas Olimpíadas de 1976, no Canadá, e permaneceu como o catamarã oficial do evento até os jogos de 2008 em Pequim, completando uma longa e respeitada trajetória olímpica. Mesmo tendo sido criado para a elite da vela, ele se tornou um sucesso global por mérito próprio, com milhares de barcos construídos e velejados em mais de 30 países.
Para o Brasil, a classe também rendeu frutos importantes no cenário olímpico, com a conquista de três medalhas: uma de ouro e duas de bronze.
Soling (Ex-olímpico 1972-2000)
O Soling é um veleiro de quilha projetado para três tripulantes que se destacou no cenário mundial por seu design focado em performance e por sua longa carreira olímpica. Criado pelo norueguês Jan Linge em 1965, ele nasceu com uma filosofia clara: ser um barco excepcional para regatas e passeios diurnos, sem fazer concessões ou comprometer seu desempenho com acomodações para cruzeiro.
Essa pureza no projeto resultou em um veleiro rápido, técnico e muito prazeroso de velejar. Suas qualidades foram testadas e comprovadas em 1968, quando a Federação Internacional de Vela (hoje World Sailing) o escolheu, após rigorosos testes contra outros barcos, para ser a classe olímpica de quilha para três homens.
O Soling estreou nos Jogos de 1972 e sua superioridade como barco de regata foi continuamente reafirmada ao longo dos anos. Mesmo com o surgimento de muitos outros veleiros, ele foi mantido no programa olímpico por quase três décadas, encerrando sua trajetória nos Jogos de Sydney, em 2000.
49er e 49er FX (Olímpico)
O 49er e seu barco-irmão, o 49er FX, representam o que há de mais veloz, radical e visualmente impressionante na vela olímpica. Projetados pelo australiano Julian Bethwaite, estes barcos, conhecidos como “skiffs”, são máquinas de pura adrenalina construídas para um único propósito: a velocidade máxima.
O 49er é a classe masculina, enquanto o 49er FX, que compartilha o mesmo casco, possui um conjunto de velas e mastro ligeiramente menores, sendo perfeitamente adaptado para a competição feminina de elite.
Seu design é inconfundível, com “asas” laterais que se estendem para fora do casco e permitem que os dois tripulantes usem o trapézio duplo para maximizar o contrapeso. Essa alavancagem é necessária para suportar uma área de velas bastante grande (quase 60 m²) em um casco ultraleve de fibra de carbono e de vidro, que pesa apenas 125 kg. O resultado é um barco que veleja frequentemente mais rápido que o próprio vento.
Velejar um 49er é estar no limite do controle. A sintonia e a confiança entre timoneiro e proeiro precisam ser perfeitas, pois o menor erro ou desequilíbrio pode resultar em uma capotagem espetacular. É uma classe que atrai velejadores que buscam a emoção da velocidade extrema e o desafio técnico.
O 49er fez sua estreia olímpica nos Jogos de Sydney, em 2000, e se tornou um sucesso instantâneo pela emoção que proporcionava. Em 2016, nos Jogos do Rio de Janeiro, o 49er FX foi introduzido para a competição feminina, consolidando a família de skiffs como uma das mais empolgantes e populares do programa olímpico atual. O Brasil atualmente possui duas medalhas de ouro na classe, ambas obtidas na categoria feminina pela dupla Martine Grael e Kahena Kunze.
Laser (Olímpico)
A principal característica da classe Laser reside em sua notável dualidade: a capacidade de proporcionar tanto atividades de lazer familiar quanto de satisfazer a busca pela excelência e pelo teste físico ao mais alto nível competitivo, como o dos Jogos Olímpicos. Trata-se de uma embarcação especial, cujo charme e simplicidade atraíram mais de 200 mil proprietários, com um crescimento anual contínuo de aproximadamente 4 mil novas unidades.
Essa ampla aceitação se manifesta em extremos geracionais: é tão significativo observar jovens de 15 e 16 anos, em transição da classe Optimist, velejando com total controle barcos como o Laser 4.7 ou o Laser Radial, quanto analisar os relatos de velejadores Masters, com 60 anos, sobre suas experiências no Oceano Pacífico durante o Campeonato Mundial de 1997, no Chile.
Seja no âmbito de clubes ou no cenário olímpico, o Laser representa um desafio técnico gratificante. O princípio da classe permite que uma embarcação com dez anos de uso compita em paridade com uma nova. Dessa forma, o desafio central para o velejador consiste em se aprimorar em dedicação, estratégia e habilidade de navegação para superar os demais. O resultado de uma regata é, portanto, a recompensa pelo mérito da perícia e esforço individuais. Mesmo na ausência de uma vitória, a paridade de equipamentos assegura que sempre existe o potencial para aprimoramento técnico.
Adicionalmente, o barco possui atributos práticos relevantes: rapidez na montagem, contribuição para a manutenção da forma física e um custo de aquisição relativamente baixo no mercado de embarcações usadas.
A dimensão global do Laser é confirmada por dados expressivos: sua prática em 115 países, o fato de ter alcançado o maior número de nações inscritas nos Jogos Olímpicos e a alta participação em seus campeonatos mundiais. Tais indicadores revelam a magnitude da classe e sublinham a importância de uma associação forte para a sua correta gestão e preservação.
A classe estreou nos Jogos Olímpicos de 1996 em Atlanta, a qual foi marcada pelo ouro do velejador brasileiro Robert Scheidt, reconhecido internacionalmente como um dos melhores de seu nível, além de possuir grande domínio da classe. Robert também conseguiu uma medalha de prata nos Jogos de Sydney e uma de ouro em Atenas, totalizando uma medalha de prata e duas de ouro.
Optimist (Classe Popular)
Para a imensa maioria dos velejadores do mundo, a jornada no esporte começa em um barco pequeno, seguro e com um formato quase retangular: o Optimist. Considerado o veleiro-escola por excelência, ele é a porta de entrada para crianças e adolescentes de 7 a 15 anos em mais de 110 países, sendo a base para mais de 150.000 jovens atletas.
Sua história começou de forma despretensiosa em 1947, na Flórida (EUA) Projetado pelo engenheiro naval Clark Millis. Porém seu design simples e genial se espalhou rapidamente pelo mundo. O crescimento foi tão grande que, em 1965, foi criada a IODA (Associação Internacional da Classe Optimist) para zelar para que todos os barcos sejam rigorosamente iguais, garantindo que o talento do pequeno velejador seja o único fator na competição.
No Brasil, a história do Optimist começou a ser escrita em 1972, com a construção dos primeiros dez barcos no país — um deles, como uma verdadeira relíquia, ainda pode ser visto pendurado no teto da garagem de barcos do Clube Caiçaras, no Rio de Janeiro.
Hoje, mais de 50 anos depois, a classe está mais forte do que nunca no Brasil. Com uma associação nacional bem estruturada (a Optbra)9, o país realiza campeonatos regionais regulares e um robusto Campeonato Brasileiro, que anualmente reúne centenas de jovens atletas, entre veteranos e estreantes, formando a base da vela nacional para as futuras gerações.
Dingue
Com um lugar especial na história da vela nacional, o Dingue é o primeiro veleiro monotipo (de regras unificadas) que foi totalmente projetado e construído no Brasil. Idealizado em 1978 pelo engenheiro naval carioca Miguel Pomar, ele nasceu com uma proposta clara: ser um barco versátil e de baixo custo, perfeito para o lazer em família nos fins de semana, mas com DNA de competidor, sempre pronto para uma boa regata.
A ideia foi um sucesso imediato. O barco conquistou os velejadores e, em pouco tempo, os próprios proprietários se organizaram para criar uma classe competitiva, realizando o primeiro campeonato já em 1979, na Baía da Guanabara, seguido pelo primeiro Campeonato Brasileiro em 1981.
A trajetória da classe teve um hiato marcante em 1993, quando a fabricação foi interrompida e as atividades pararam. No entanto, em 1998, o Dingue renasceu ao ter sua produção retomada pela empresa Holos Brasil, que foi fundamental não apenas para construir novos barcos, mas para reacender o espírito competitivo e o prazer de velejar na classe.
Hoje, o Dingue é um sucesso consolidado, com mais de 4.300 unidades vendidas. Sua versatilidade o levou para quase todos os estados brasileiros, incluindo lugares sem grande tradição náutica, e sua popularidade já cruzou o Atlântico, com as primeiras unidades chegando a Portugal. A classe é organizada pela ABCD (Associação Brasileira da Classe Dingue)10, que, em parceria com o fabricante, promove um calendário ativo de competições e encontros em todo o país.
Veleiros de Oceano
Diferentemente da regata de monotipos, as regatas oceânicas permitem que diferentes modelos de embarcação compitam de forma justa e igualitária em uma mesma regata. No Brasil, essa busca pela igualdade entre embarcações é gerenciada pela Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO).
Proprietários de barcos, velejadores, designers, construtores e desenvolvedores de regras estão sempre em busca de soluções que aprimorem o desempenho dos veleiros, e assim os projetos dos barcos mudam com o tempo.
Para que barcos distintos possam concorrer em igualdade, surgem as diversas regras de rating, onde cada barco recebe um coeficiente (handicap), que é calculado através de fórmulas que usam diversas medidas obtidas dos barcos, tais como tamanho da linha d’água, estabilidade, tamanho das velas e uma outra dezena de informações, tudo com objetivo de permitir, por exemplo, que um barco de 20 pés (6 metros) possa competir, em igualdade de condições, com outros barcos de tamanhos diversos.
O coeficiente do barco, resultado da fórmula matemática, multiplicado pelo tempo real do próprio barco, resulta no tempo corrigido que é o valor considerado para a apuração do resultado final de cada prova de regata.
No Brasil, cada região se organiza em flotilha e esta flotilha opta por determinada regra, seja por sua ‘justa’ fórmula, seja por sua praticidade ou seja por qualquer outra razão. Por isso são utilizadas diversas regras de rating (ou handicap, como também são chamadas) tais como IRC, APS, VPRS, BRA-RGS, MOCRA, ORC dentre outras.
Por ser uma associação a nível nacional do esporte, que busca disciplinar a prática competitiva da Vela de Oceano, a ABVO tornou-se o escritório oficial de representação da ORC no Brasil. Ela é constantemente atualizada por meio de desenvolvimento tecnológico, estando presente em mais de 45 países e com mais de 96.000 certificados emitidos em todo o mundo nos últimos 20 anos para barcos de 18 a 100 pés.
REFERÊNCIAS
1 – A Fascinante História da Vela: Como Tudo Começou. Regata de Portugal. 27 de novembro de 2024. Acessado em 22 de novembro de 2025.
2 – Rio Memórias: Remo, Acessado em
3 – Rio Memórias: Vela, Acessado em
4 – SailGP equipes: Mubadala Brazil, Acessado em
5 – Classes reconhecidas FEVERJ, Acessado em
6 – O que é uma regata e como participar?. Alemão Beach Ilhabela. Maio de 2021. Acessado em 22 de novembro de 2025.
7 – Qual esporte conquistou mais medalhas para o Brasil na história das Olimpíadas? Veja todas que cada modalidade ganhou. ESPN Brasil. 10 de agosto de 2024. Consultado em 22 de novembro de 2025
8 – Vintage Yachting Games, Acessado em
9 – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS VELEJADORES DA CLASSE OPTIMIST, Acessado em
10 – Associação Brasileira de Classe Dingue, Acessado em