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Centro Virtual de Cultura Marítima

AUTORIA:Dante Carbognin Pizani
Última edição: 17/12/2025

Carpinteiros Navais Artesanais: A Herança do Mar em Icapuí

 

ATENÇÃO: Estão sendo selecionados e editados alguns trechos das entrevistas realizadas durante e pesquisa de campo em Icapuí (em julho de 2025), a serem adicionados na matéria posteriormente. Por esse motivo, o texto está em produção, o que significa que ainda não está em sua versão final e sofrerá alterações pontuais — de acréscimo de conteúdo.

 


Carpinteiros Navais Artesanais: A Herança do Mar em Icapuí

O município de Icapuí tem seu nome derivado do Tupi Igarapuí (ygara: canoa, puí: rápida, veloz), traduzido como “canoa ligeira”. No coração do litoral leste cearense, a localidade carrega em seu próprio nome a identidade e essência de uma cultura tradicionalmente voltada para o mar, tornando-se uma região ideal para o florescimento de embarcações e ofícios relacionados ao oceano, como a pesca e carpintaria naval. A constante prática dessas atividades marítimas cria uma herança viva que se vê até hoje na região, materializada, por exemplo, na Casa de Cultura Cores da Vida.

Nesse sentido, a carpintaria naval artesanal surge como uma das tradições culturais mais relevantes da região. Através de conhecimentos e técnicas transmitidas de geração em geração, os carpinteiros artesanais de Icapuí são capazes de conceber desde jangadas até robustos barcos atuneiros, que possuem cerca de 12 metros de comprimentos e são capazes de suportar expedições que ultrapassam dez dias em alto-mar.

Com relação direta, a pesca artesanal também é bastante proeminente no município de Icapuí. Intrinsecamente conectada com a carpintaria naval, os pescadores costumam ser os maiores clientes dos mestres artesãos da região, solicitando as embarcações para pesca, além de ocasionais reparos e ajustes.


O Saber Tradicional: Dom e Instinto

Uma pesquisa de campo, realizada pela equipe do Navegar em julho de 2025, com quatro mestres artesãos de Icapuí, donos de alguns dos estaleiros construtores das embarcações da região, revelou que a construção dos barcos artesanais é muito mais que um simples ofício: é uma manifestação de um legado cultural histórico e de um saber empírico tradicional que perdura até os dias de hoje. Os entrevistados foram Heverton de Chico de Doninha, em seu estaleiro no Bairro Salgadinho; Dedé de Zé de Liliza, na Casa de Cultura no Bairro Centro; Olismar, em seu estaleiro no Bairro Morro Alto, e Seu Evilásio, em seu estaleiro na Praia da Barrinha.

Para esses mestres, o conhecimento não reside em manuais ou livros, mas é um saber armazenado na memória, experiência e instinto, com seu aprendizado usualmente ocorrendo de maneira empírica, baseado na repetição e no “ver e fazer”. Heverton e Olismar também caracterizam a habilidade como um dom de Deus e um talento que vem de sangue. Os carpinteiros também revelam que existe uma predisposição de nascença naqueles que sabem “fazer barco” — não adianta forçar o ensino para quem não demonstra afinidade à prática.

A adaptabilidade também se prova fundamental no ofício de carpinteiro naval. Diante de novas tecnologias e exigências de mercado, os carpinteiros de Icapuí revelam-se inovadores por necessidade, ajustando o design das embarcações com base no instinto e na observação prática, alterando estruturas para garantir mais estabilidade ou velocidade, sempre respeitando os limites daquilo que a experiência dita como funcional e seguro. Heverton, por exemplo, garantiu que apenas faz mudanças estruturais na embarcação quando ele instintivamente “sabe que vai dar certo”.


A Cultura da Resiliência e Adaptabilidade

O ofício do carpinteiro naval é marcado pela resiliência e engenhosidade do artesão, principalmente na superação de adversidades.

O caso de Seu Evilásio e seus irmãos é um exemplo de superação e adaptabilidade. Após um período de 8 anos morando no Pará, onde se dedicaram à agricultura, sua família retornou a um Ceará em seca, encontrando-se sem profissão. A decisão de construir a primeira jangada de tábua nasceu da necessidade de um ofício, e da necessidade de um “fazedor de barcos” na região. De início, sem ferramentas, bateram dentes em arcos de ferro para criar serrotes improvisados. O improviso e adaptação de Seu Evilásio e seus irmãos marcou o início de um negócio que viria a produzir mais de cem embarcações.

Essas características são fundamentais para os carpinteiros navais (e não à toa, recorrentes). Nota-se um padrão do surgimento do ofício da carpintaria nas famílias: a necessidade e a oportunidade. Na maioria dos casos, o indivíduo torna-se carpinteiro naval devido à necessidade de profissão (desempregado, precisa de um sustento para si e sua família) e à oportunidade/demanda por um carpinteiro naval na região. Isso demanda uma capacidade de adaptação por parte dos mestres artesãos: em poder “transferir” suas habilidades para o feitio de embarcações artesanais.


O Desafio da Continuidade

A herança da carpintaria naval tradicionalmente é transmitida de geração para geração, comumente de pai para filho. O mestre Heverton, que aprendeu a profissão observando o pai, hoje luta para que seu filho siga seu legado, garantindo que essa tradição não morra. Justamente devido às exigências físicas extenuantes do ofício, a necessidade de transmissão do saber se mostra essencial para a continuidade da profissão.

No entanto, apesar da importância cultural, a continuidade do ofício da carpintaria naval encontra-se sob ameaça. O desinteresse das novas gerações na carpintaria naval, provocado pelas condições desgastantes do trabalho pesado e atração dos jovens por carreiras modernas, ameaça interromper o ciclo de renovação do ofício. Soma-se a isso um mecanismo de autoproteção de fechamento social: Heverton, por exemplo, confessa a relutância em ensinar o ofício a estranhos, por receio de concorrência ou disputas judiciais, preferindo manter o saber restrito ao círculo familiar.

Lutando “contra a maré”, figuras como Dedé de Zé de Liliza atuam como guardiões da memória e cultura da região. Através da Casa de Cultura Cores da Vida, Dedé transforma a carpintaria em afeto e arte. Lá, cada espaço é um memorial: do forró de João Sabino à vela de jangada que carrega os nomes de pescadores falecidos. Dedé também tem o desejo de reabrir uma escola de carpintaria naval para preservar essa tradição, dando sequência a um projeto de sucesso do UNICEF que, no passado, formou 60 alunos.


Conclusão

A carpintaria naval artesanal é muito mais do que um simples ofício: é a materialização de uma cultura de resiliência, adaptação e empirismo, sendo capaz de se reinventar através da necessidade. Em Icapuí, essa noção está presente desde sempre, considerando a própria etimologia de seu nome Igarapuí, e preservada como herança nas atividades proeminentes da região.

No entanto, o futuro dessa herança depende não apenas da preservação direta, através do fluxo de transmissão desse saber a cada geração, mas também da visibilidade e do registro de tal conhecimento, através de iniciativas como a Casa de Cultura Cores da Vida.

Referências

Entrevistas realizadas com os carpinteiros artesanais de Icapuí