Formando Engenheiros e Líderes


Centro Virtual de Cultura Marítima

AUTORIA: Vinicius Assunção
EDITORAÇÃO: Lara Musa
Agradecimento: Professor Elcio Ribeiro (EPUSP) pela colaboração no texto
 

Bacias hidrográficas brasileiras:Conhecendo suas rotas
 

O Brasil, detentor de uma das mais extensas redes hidrográficas do mundo, possui um enorme potencial para o transporte hidroviário, modal que se destaca por sua eficiência logística, sustentabilidade e custo-benefício. Porém, por falta de investimento e de estrutura, esse potencial ainda é pouco aproveitado. Com aproximadamente 63 mil quilômetros de rios potencialmente navegáveis, as hidrovias brasileiras desempenham um papel estratégico no escoamento de commodities agrícolas, minérios e outros insumos, integrando regiões remotas e reduzindo a pressão sobre os modais rodoviário e ferroviário de maneira mais interessante e rentável.

 O Brasil possuí inúmeras bacias importantes, entre elas:a do Tietê-Paraná, crucial para o escoamento de grãos do Centro-Oeste e Sudeste para a costa; a Bacia  do Rio Madeira, vital para o escoamento da produção agropecuária da Amazônia e no transporte de produtos na região amazônica; a Bacia do São Francisco, que passa por muitos estados brasileiros, e apesar de pouco aproveitada tem um potencial gigantesco; a Bacia do Tocantins-Araguaia, essencial no transporte de grãos nordestinos para os portos da região norte; e a Bacia do Sul, crucial no desenvolvimento do Rio Grande do Sul.  


Mas afinal, o que é uma hidrovia ?

Embora muito se comenta sobre as bacias hidrográficas, para uma análise focada no transporte interno de cargas e pessoas, é fundamental definir o conceito de hidrovia e diferenciá-lo de uma rota fluvial ou de um trecho navegável.

Inicialmente, a legislação brasileira, através do Art. 2º da LEI Nº 9.537, de 11 de dezembro de 1997, define hidrovia de forma ampla: como qualquer rio, lago, canal, lagoa, baía, angra, enseada e áreas marítimas consideradas abrigadas. No entanto, este conceito legal é problemático para a prática do transporte[1], por não levar em consideração a estrutura e tão pouco a segurança destes meios. 

Para que rotas fluviais de escoamento de carga e transporte de passageiros tornem-se hidrovias são exigidos: sinalização náutica específica e dados detalhados sobre os meios navegáveis, por diversos motivos de segurança e logística. Além disso, a mesma lei estabelece que a regulamentação seria feita pelo então Ministério da Marinha, hoje sob a alçada do Ministério da Defesa e, especificamente para assuntos náuticos, o Comando da Marinha (CM).

Uma diferenciação mais clara começou a ser estabelecida em janeiro de 2023 com a criação do Ministério de Portos e Aeroportos[2]. Dentro dele, a Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação[3] já faz uma breve distinção entre rotas navegáveis e hidrovias. O fator principal para se definir uma hidrovia passa a ser a observância dos seguintes requisitos:

  • Balizamento: É um sistema de bóias que demarca o canal de navegação, que é o espaço em que a embarcação pode passar com segurança tanto por determinar um calado garantido quanto por estabelecer uma zona de operação. 
  • Sinalização: Semelhante ao rodoviário, estabelece placas e códigos para instruir as navegações. 
  • Cartas de Navegação: São de maneira objetiva as rotas que as embarcações podem seguir com segurança no sentido de estrutura. 
  • Especificações para embarcações: Cada hidrovia estabelece tipos de embarcações e características que elas podem ter, como calado, boca, altura, comprimento, etc. 
  • Eclusas: Muitas hidrovias tem como meios de auxiliar o fluxo eclusas, e nesse caso, elas são marcadas nas cartas e determinam-se as especificações e limitações que ela possuí. 

 

Com os requisitos acima atingidos, tanto para rotas naturais que foram adaptadas e modificadas, quanto para rotas artificiais, temos as hidrovias.


As principais Bacias Hidrográficas brasileiras e suas hidrovias

Bacia Tietê-Paraná

 

  A rota mais importante da região sul e sudeste, historicamente esses rios foram rotas importantes para a exploração do interior do Brasil durante o período colonial, utilizadas por bandeirantes e exploradores. Com o tempo, surgiram projetos de modernização e infraestrutura para aproveitar seu potencial hidroviário. A hidrovia Tietê-Paraná começou a ser estruturada no século XX, com o objetivo de integrar regiões produtoras agrícolas aos grandes centros consumidores e portos de exportação. Hoje, a Hidrovia Tietê-Paraná é uma das principais vias de navegação do país, com cerca de 2.400 km navegáveis. Ela permite o transporte de grandes volumes de cargas, como grãos, minérios e combustíveis, com menor custo e impacto ambiental em comparação com outros modais. Além disso, ela também impulsiona o desenvolvimento regional, promovendo integração econômica e social.

A rota

A hidrovia possibilita o escoamento de grãos e produtos agrícolas de cidades do interior paulista, paranaense, sul mato-grossense e mato-grossense para grandes centros comerciais e metrópoles. Além de permitir o escoamento de produtos dos grandes portos para o interior, no sentido contrário. Possui 14 terminais distribuídos ao longo de sua extensão, em que um terminal hidroviário é constituído por um atracadouro e uma estrutura de retroporto, com conexão em terra com um ou mais modais de transporte. Realizando uma unificação entre as modalidades de transporte, permitindo a realização da transferência das cargas entre embarcações, caminhões, trens e dutos. Além disso, a hidrovia também conta com barragens e eclusas que são essenciais para atravessar as mais vastas variações de terreno durante o trajeto.
Imagem: Hidrovia Tietê-Paraná Fonte: Portal Gov. [4]

 

Características físicas da hidrovia: [5]

Extensão navegável: 2.400 km

Largura média: 120 m

Declividade média: 281 m, perfil c/ eclusas

Regime hidrológico (Variação do volume de água do rio):
-Período de águas baixas: Junho / Setembro
-Período de águas altas: Outubro / Maio

Embarcações da Tietê-Paraná: 

Empurradores e Barcaças [6]

Os empurradores são embarcações especialmente projetadas para impulsionar comboios de barcaças em rios e hidrovias. Diferente dos rebocadores, que puxam outras embarcações, os empurradores operam acoplados na parte traseira das barcaças, empurrando-as ao longo do percurso. Voltados principalmente para o transporte de grandes volumes de cargas – como soja, milho, combustíveis e minérios – são transportados por via fluvial.

Essas embarcações possuem estrutura reforçada, motores potentes e sistemas de direção adaptados para manobrar comboios de até centenas de metros de comprimento. Além de proporcionarem economia no transporte, os empurradores contribuem para a redução do impacto ambiental, já que um único comboio pode substituir dezenas de caminhões, diminuindo as emissões e o tráfego rodoviário.

Consideradas principais embarcações utilizadas no transporte de cargas pesadas, atualmente a hidrovia comporta uma frota de 48 comboios de empurradores e embarcações responsáveis por transportar até 6.000 toneladas pela hidrovia, que possuem as seguintes configurações:

  • Quatro chatas de 59,44 m de comprimento, 10,67 m de boca (largura no convés) e pontal de 3,50 metros.
  • O peso médio de cada chata é de 220 toneladas aproximadas (pode chegar a 250 t com tampas de aço) e calado máximo de 3,00 metros.
  • O empurrador tem 18,50 metros de comprimento, 8,50 metros de boca e calado de 2,20 m,  impulsionado por propulsores de 1,80 metros de diâmetro. Embora em alguns casos tenham sido empregados propulsores de 1,5m de diâmetro devido a restrições no trecho à jusante de Nova Avanhandava.
  • Os lemes, um por propulsor, têm área aproximada de 2,50 metros quadrados. Por ante avante dos propulsores operam dois lemes de flanco, ou cerca de 2,50 m² por propulsor.
Imagem - Empurradores e Barcaças utilizados na Hidrovia Tietê-Paraná Fonte: Plano Diretor da Hidrovia Tietê-Paraná Volume I Anexo: Considerações sobre a utilização de comboios de 9.000 toneladas úteis [7] .
Tabela: Potência x Carga de Empurradores Tietê-Paraná Fonte: Secretária de Meio Ambiente Infraestrutura e Logística(2023)[10]

Cargas

O principal tipo de carga movimentado na hidrovia Tietê-Paraná é o granel sólido, principalmente soja, farelo de soja e milho. Além disso, também foram registrados mais de 85 mil passageiros transportados.

No ano de 2024, foi registrado uma movimentação de mais de 3 milhões de toneladas[9], contando exportação e importações, segundo a ANTAQ, a seguir alguns gráficos demonstrando a relação de produtos e suas movimentações:

 

Tabela: Porto x Qtd. Transportada

Fonte: Estatistico – ANTAQ 

 

Impacto Cultural 

A Hidrovia Tietê-Paraná impacta significativamente as esferas econômica, social e cultural das regiões que atravessa. Economicamente, a hidrovia mostra-se vital para a logística, ao reduzir custos de transporte comparados aos modais rodoviário e ferroviário, graças à sua eficiência energética e capacidade de movimentar grandes volumes de carga de forma consolidada mostrado em Bravin em 2025[10]. Essa competitividade logística favorece o escoamento da produção agrícola nacional e estimula investimentos em terminais e infraestrutura, além de favorecer o fortalecimento das cadeias produtivas que dependem da exportação.

Socialmente, a hidrovia funciona como instrumento de integração regional, conectando comunidades e conjuntos agrícolas ao sistema de transporte — um eixo que interliga estados produtores ao mercado consumidor e portos exportadores Secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de SP (SEMIL), 2024 [11]. Essa conectividade facilita o acesso a bens essenciais, reduz o custo de transporte de cargas e, indiretamente, gera emprego e renda nas áreas de logística, transporte e comércio ligado ao agronegócio.

Culturalmente, a Hidrovia Tietê-Paraná resgata uma tradição histórica de navegação interior, reforçando um modo de vida ligado aos rios, barcaças e canais — algo reconhecido como uma vantagem logística e ambiental do modal, como mostrado por Bigaran e Tizato em 2000 [12] e objeto de estudos que enfatizam seu papel na estruturação territorial e econômica das regiões que ela interliga.

Bacia São Francisco

O Rio São Francisco teve papel fundamental no desenvolvimento do interior do Brasil, sendo conhecido como o “Rio da Integração Nacional”. Desde o período colonial, suas águas serviram como uma das principais rotas para a ocupação, circulação de pessoas, mercadorias e cultura entre o litoral e o interior do Nordeste, Sudeste e parte do Centro-Oeste [13] . No século XIX, o rio foi essencial para o comércio regional, permitindo o transporte de alimentos, couro, sal, algodão e outros produtos, conectando cidades e povoados isolados. Além de sua função econômica, o São Francisco também possui grande importância cultural e simbólica para as populações ribeirinhas, comunidades tradicionais e para a formação da identidade nordestina. Sua navegação foi decisiva no período anterior ao desenvolvimento das ferrovias e rodovias, sendo uma das poucas alternativas viáveis para vencer as longas distâncias no semiárido brasileiro. Sua extensão é de 640.000 quilômetros quadrados, segundo o site do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) em 2011[14]. Apesar de as principais rotas percorrerem apenas às microrregiões dos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais, sua área de influência engloba também o estado de Goiás e o Distrito Federal. A hidrovia é composta por treze rios: Rio Pará, Rio Verde Grande, Rio das Velhas, Rio Indaiá, Rio Jequitaí, Rio Paraopeba, Rio Urucuia, Rio Abaeté, Rio Carinhanha, Rio Paracatu, Rio São Francisco, Rio Grande e o Rio Corrente.
Imagem - Bacia rio São Francisco Fonte: ANTAQ[13]

Rotas 

A bacia do rio São Francisco é composta por diversos rios que contribuem diretamente para sua formação e dinâmica hídrica. O próprio rio São Francisco possui uma extensão total de aproximadamente 2.800 quilômetros, dos quais existem dois trechos navegáveis: o primeiro, com 1.371 quilômetros, localizado entre o município de Pirapora (MG) e o polo Petrolina (PE)/Juazeiro (BA); e o segundo, com 208 quilômetros, entre a cidade de Piranhas (AL) e a sua foz. No entanto, alguns trechos apresentam limitações para a navegação. Entre Petrolina (PE)/Juazeiro (BA) e Santa Maria da Boa Vista (PE), a presença de muitos pedrais inviabiliza as condições ideais de navegabilidade. Pelo mesmo motivo, o trecho entre Santa Maria da Boa Vista (PE) e Piranhas (AL) também não é navegável, além de possuir elevada sinuosidade.

O rio São Francisco é dividido em três grandes trechos: Alto, Médio e Baixo São Francisco. A subdivisão compreende desde as proximidades da Serra da Canastra, no município de São Roque de Minas (MG), até os arredores de Pirapora (MG), sendo que o Alto São Francisco não faz parte deste estudo específico. No Médio São Francisco destacam-se seus principais afluentes, como os rios Branco, Preto, Fêmeas, Ondas e São Desidério, este último situado na parte montante do rio. Esses afluentes apresentam comportamento sazonal, com vazões reduzidas durante os períodos de estiagem e grandes volumes de água nas épocas de cheia.

O trecho navegável do Médio São Francisco possui cerca de 366 quilômetros, entre a cidade de Barreiras (BA) e a sua foz, na cidade de Barra (BA). Apesar de apresentar certa sinuosidade em alguns pontos, não existem obstáculos significativos que comprometam a navegação nesse trecho. Na parte final, o rio conta com um trecho adicional de 120 quilômetros, formado pela confluência dos rios Formoso e Correntina, localizado entre os municípios de Santa Maria da Vitória (BA) e Sítio do Mato (BA). Este segmento possui uma largura média de 80 metros e praticamente não apresenta restrições relevantes à navegação [17].

Cargas 

Apesar da grande área navegável, a bacia do rio São Francisco não possui uma hidrovia propriamente dita, por não cumprir com as normas exigidas para a considerar como tal. Existem alguns trabalhos acadêmicos que tentam fazer uma projeção do potencial de escoamento e transporte de cargas pelo rio, como por exemplo a pesquisa Avaliação da Competitividade da Hidrovia do São Francisco para o Transporte de Cargas realizada por Nascimento em 2024[15]

Tabela Empresa x Produto x (10³t/ano)

Fonte: Secretária de Agricultura da Bahia (2024) [15].

Embora não haja transporte efetivo de cargas pelo rio São Francisco, com base na mesma pesquisa, estima-se que seriam utilizadas barcaças para transportar os produtos pela hidrovia. 

Impacto cultural 

O Rio São Francisco, tradicionalmente chamado de “Velho Chico”, é o eixo central de inúmeras manifestações culturais que moldam a identidade dos povos que habitam suas margens. Entre os eventos mais emblemáticos está a Romaria de Bom Jesus da Lapa (BA), considerada uma das maiores peregrinações religiosas do Brasil, onde parte dos fiéis chega por via fluvial — prática documentada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2019 [16]. Outro exemplo marcante são os Barcos de Fogo de Penedo (AL), espetáculo pirotécnico sobre as águas do rio durante as festas juninas.

Além disso, o uso das carrancas, esculturas nas proas das embarcações artesanais, é uma tradição que remonta aos mestres canoeiros do Baixo São Francisco e simboliza proteção espiritual, conforme analisam pesquisadores do Museu de Arqueologia de Xingó , segundo o Museu de Arqueologia de Xingó (MAX) em 2018[17]. Festas como o “Encontro Cultural do Velho Chico” e eventos ribeirinhos ligados à pesca e à colheita de vazante reforçam a relação entre práticas culturais e o ciclo natural das águas, vínculo amplamente destacado por antropólogos que estudam a região (Oliveira, 2014)[18].

Em termos regionais, o São Francisco mantém relevância cultural e econômica para os estados que atravessa. Em Minas Gerais, suas margens acompanham antigas rotas de ocupação do cerrado e inspiraram festividades ligadas ao período das monções. Na Bahia, o rio é alicerce de cidades históricas como Barra, Xique-Xique e Juazeiro, onde práticas musicais — como as toadas ribeirinhas e a sanfona sertaneja — refletem a influência do Velho Chico. Em Pernambuco, o rio sustenta comunidades tradicionais do sertão e participa de rituais religiosos como procissões fluviais. No Baixo São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, o rio articula atividades de pesca, artesanato, festivais regionais e o turismo cultural, funcionando como referência histórica e simbólica para a população.

Assim, os eventos, rituais e tradições associados ao São Francisco constituem um patrimônio cultural vivo, perpetuando saberes, crenças e práticas comunitárias que continuam a desempenhar papel essencial na vida das populações ribeirinhas e no desenvolvimento sociocultural dos territórios por onde o rio passa.

Bacia Tocantins-Araguaia

 

Localizada principalmente na Região Centro-Norte do Brasil e abrangendo os estados de Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Mato Grosso e Distrito Federal, é uma das maiores do país e com uma grande importância histórica por tratar-se de umas das principais bacias responsáveis pela interiorização do Brasil. 

 

Historicamente, os rios Tocantins e Araguaia foram utilizados por povos indígenas, bandeirantes e colonizadores desde o século XVII como rotas naturais de deslocamento, comércio e comunicação. Esses cursos d’água funcionavam como corredores estratégicos para trocas culturais, circulação de mercadorias e exploração do território, permitindo a interiorização da economia e a formação de núcleos urbanos ao longo de suas margens.

 

Fazendo uma análise mais contemporânea, a Bacia Tocantins-Araguaia consolidou-se como fonte estratégica de recursos hídricos, favorecendo a instalação de grandes hidrelétricas, como a UHE Tucuruí (PA), uma das maiores do país, ampliando a capacidade de irrigação e produção agropecuária. Hoje, a bacia desempenha papel essencial no abastecimento de água, na geração de energia elétrica e no suporte aos setores agrícola e industrial.

Por fim, a bacia tem grande importância logística, já que integra o projeto da Hidrovia Tocantins-Araguaia, que visa permitir a navegação contínua entre o Centro-Oeste e os portos do Norte. Essa conexão reduziria significativamente os custos de transporte da produção agrícola e mineral, sobretudo soja, milho e fertilizantes, tornando a região mais competitiva no mercado interno e externo. Assim, a Bacia Tocantins-Araguaia configura-se não apenas como um recurso natural vital, mas também como um eixo estratégico para o desenvolvimento econômico sustentável, a integração multimodal e a valorização social e cultural do Centro-Norte brasileiro[19].

Rotas 

A Bacia Hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia possui uma área de mais de 960.000 quilômetros quadrados e uma extensão de 2.250 quilômetros,  formada por diversos rios, sendo os principais o Rio Tocantins, o Rio Araguaia e Rio das Mortes, também sendo os principais trechos navegáveis da bacia[20]



 

Principais rios que compõem a Bacia do Tocantins-Araguaia Fonte: ANTAQ [19]

Cargas 

Segundo a instituição de analise de investimentos publicos do governo federal, Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) em 2024, a hidrovia do Tocantins-Araguaia, por mais que tenha o  fluxo limitado no trecho de Porto de Vila do Conde, no rio Pará que é responsavel por interligar a hidrovia em questão com a Região Hidrográfica Amazônica, movimenta por volta de 12,7 milhões de toneladas ao ano. Desse total,a navegação de longo curso é majoritária , com quase 9,7 milhões de toneladas, correspondendo a 76% do total transportado, com destaques para os granéis sólidos (mineral e vegetal) [21].

 

Impacto cultural

Muito mais que um corredor de transporte: ela pulsa como um dos principais eixos culturais do Centro-Norte brasileiro. Ao longo de seus rios, comunidades do Pará, Tocantins, Maranhão, Goiás e Mato Grosso construíram modos de vida profundamente ligados às águas, criando práticas, festividades e expressões artísticas que ainda hoje definem a identidade regional. Pesquisas da Universidade Federal do Tocantins mostram como a cultura ribeirinha se organiza em torno da pesca, das romarias fluviais e de celebrações populares que acompanham o ciclo das águas, segundo a Universidade Federal do Tocantins (UFT) em 2019[22].

 

Entre os eventos mais emblemáticos está a Festa do Divino Espírito Santo do Araguaia, com destaque para as procissões fluviais em Xambioá e Araguatins, que misturam música, fé e tradições seculares, um patrimônio vivo descrito, apresentado por Barbosa em 2016[23]. Já o animado Festival da Praia de Araguacema, realizado nas margens do Araguaia, transforma as praias sazonais do rio em palco de encontro entre ribeirinhos, pescadores, artesãos e turistas, reunindo gastronomia típica, música regional e práticas ligadas às vazantes,segundo a SECTUR-TO em 2018[24].

 

No Baixo Tocantins, cidades históricas como Cametá e Baião preservam tradições marcadas pela fusão entre culturas indígena, afro-amazônica e luso-brasileira. Nessas regiões, expressões como o Carimbó, a Marujada de São Benedito e as Cavalhadas fluviais revelam a força da religiosidade e da vida comunitária ribeirinha, segundo o IPHAN em 2017[25]. Entre os povos indígenas da bacia, especialmente os Karajá, Javaé e Xambioá na Ilha do Bananal, os rios desempenham papel espiritual central. Rituais como o Hetohoky[26], as pinturas corporais e a confecção dos conhecidos bonecos ritxoko são práticas ancestrais cuidadosamente registradas pelo Museu Antropológico da UFG em 2015 [27].

 

O impacto cultural da hidrovia também se expressa na formação das cidades ribeirinhas. Núcleos como Marabá, Imperatriz, Porto Nacional e Araguaína cresceram em torno de antigos portos fluviais, mercados ribeirinhos e feiras onde circulavam peixe, cerâmica indígena, castanha, artesanato e produtos agrícolas, como mostrado por Santos em 2014[28]. Esse processo fortaleceu ofícios tradicionais, como canoeiros, barqueiros e pescadores artesanais, que continuam ligados ao cotidiano da hidrovia.

 

Bacia do Amazonas-Madeira


É a maior bacia hidrográfica do mundo, abrangendo cerca de 7 milhões de km², dos quais aproximadamente 4 milhões estão em território brasileiro, estendendo-se por grande parte da região Norte.

 

Historicamente, seus rios foram as primeiras “estradas” da Amazônia, utilizados por povos indígenas muito antes da chegada dos colonizadores como rotas de subsistência, comércio e integração entre aldeias. A partir do século XVI, missionários e exploradores portugueses e espanhóis passaram a navegar o rio Amazonas e seus afluentes, abrindo caminho para a ocupação europeia, a catequese e o estabelecimento de fortes e vilas. Entre os séculos XVII e XIX, a região ganhou importância estratégica, especialmente durante o Ciclo da Borracha, quando a bacia se tornou eixo de exportação da seiva de seringueiras, atraindo migrantes e consolidando cidades como Manaus e Belém.

 

Do ponto de vista cultural, a bacia abriga uma imensa diversidade de povos indígenas e comunidades tradicionais, que desenvolveram modos de vida profundamente ligados às águas. As crenças, festividades e práticas cotidianas desses grupos refletem o vínculo simbólico com os rios, que são vistos não apenas como fonte de alimento e transporte, mas também como espaço de espiritualidade e identidade. Festas ribeirinhas, como as celebrações de Nossa Senhora dos Navegantes, e manifestações artísticas inspiradas na pesca e na mitologia das águas, exemplificam a riqueza cultural da região.

 

A importância para o desenvolvimento regional também é expressiva. A bacia é responsável por parte significativa da geração de energia do país, com hidrelétricas como Tucuruí e Belo Monte, e sustenta atividades econômicas como pesca, transporte de mercadorias, extrativismo vegetal e mineral, além do turismo ecológico. Para muitas cidades da Amazônia, sem conexão por estradas, os rios continuam sendo a principal forma de acesso, garantindo abastecimento e circulação de pessoas e produtos.

 

Entre os principais rios da bacia destacam-se o rio Amazonas, maior do mundo em volume de água; o rio Negro, famoso por sua coloração escura; o rio Solimões, que compõe o curso superior do Amazonas em território brasileiro; o rio Madeira, essencial para o transporte de cargas; o rio Tapajós, de grande potencial hidrelétrico; e o rio Xingu, de relevância histórica e cultural para povos indígenas. Juntos, esses rios formam uma vasta rede hidrográfica que sustenta a vida, a economia e a cultura do Norte do Brasil.

Rotas

De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA) em 2011, a Bacia Amazônica é a mais extensa rede hidrográfica do planeta, com 25.000 Km de rios navegáveis e uma área de 6,1 milhões de quilômetros quadrados distribuídos por seis países, além do Brasil. A grande pluviosidade da região torna os rios permanentemente caudalosos, escoando cerca de um quinto do volume de água doce do mundo. Os rios Juruá, Madeira e Purus, assim como o Amazonas, encontram-se entre os mais extensos do mundo.

O Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) definiu, em 2003, a Região Hidrográfica Amazônica como sendo constituída pela Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas, situada em território nacional, e pelas bacias hidrográficas da Ilha de Marajó e do estado do Amapá. Portanto, a Região Hidrográfica diferencia-se da Bacia Hidrográfica por estar totalmente localizada em território brasileiro, abrangendo os estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Pará, Amapá e norte do Mato Grosso, ocupando uma área de 3,8 milhões de quilômetros quadrados, correspondendo a 45% da área total do país[29]

Características Físicas[30]:

– Extensão navegável: 1.060 km

– Largura média: 1.000 m

– Declividade média: 1,7 cm/km

– Regime Hidrológico( Variação do volume de água do rio):

– Período de águas baixas: Julho/Outubro

– Período de águas altas: Fevereiro/Maio

– Declividade média: 1,7 cm/km

Navegabilidade

Sistema de sinalização / balizamento: Placas de sinalização de margem e bóias cegas modelo Paraná.

 

Restrições à navegação: Não existem. Apenas em determinada época do ano (águas baixas) ocorre formação de bancos de areia, alternando o canal preferencial de navegação.

 

– Comboio-tipo: 1 Empurrador + 4 Barcaças (200 X 16 X 2,5) m

Região Hidrográfica Amazônica com seus principais rios e afluentes Laboratório de Transporte - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Cargas 

De acordo com a Administração das Hidrovias da Amazônia Ocidental (AHIMOC), o porto localizado em Manaus, ponto estratégico da hidrovia da bacia do Amazonas-Madeira, é composto por três terminais principais. O primeiro deles é voltado para operações Ro-Ro (Roll-on/Roll-off, sistema de transporte de veículos), contando com duas rampas que dão acesso a um pátio de estacionamento de 10.000 m², além de uma área adjacente, também descoberta e não pavimentada, de dimensões idênticas.

O segundo terminal, conhecido como Pátio das Gruas, opera sem cais de atracação direto, realizando a movimentação de cargas para uma área de 10.000 m². Já o terceiro terminal é dedicado à carga geral, equipado com um flutuante de acostagem de 115 metros e cinco berços, conectado à margem por uma ponte metálica com vão de 113,5 metros. As profundidades operacionais nesses terminais variam entre 2,5 e 17,5 metros, e a estrutura conta ainda com um armazém de 900 m² destinado à carga geral.

 

Parte do porto está arrendada para a empresa HERMASA, que construiu quatro silos verticais para movimentação de soja com o uso de esteiras transportadoras e um carregador de embarcações para o escoamento de grãos no cais flutuante, no terceiro terminal. O porto é equipado por 3 gruas de 3t, 1 guindaste de pórtico de 6t, 1 auto guindaste de 18t, 2 empilhadeiras de 7t, 1 pá carregadeira, 1 skidder[31], 2 empilhadeiras, 2 utilitários e 1 caminhão.

Gráfico de Portos/Terminais x Cargas em milhões de toneladas Fonte: Estatístico Aquaviário (ANTAQ)

Segundo o Estatístico Aquaviário (ANTAQ)utilizando os dados do ano de 2023, a hidrovia teve uma movimentação portuária de cerca de 142,8 milhões de toneladas distribuídas nas seguintes categorias (em milhões): 

 

– 112,8t- Granel Sólido;

-15,1t – Granel Líquido ; 

-7,8t – Conternizada; 

-7,2t – Carga Geral.

 

Além disso, foram transportadas cerca de 55,9 milhões de toneladas via longo curso, 10,4 milhões de toneladas via cabotagem e 96,4 milhões de toneladas por vias interiores. 

 

Estão distribuídos a seguir as principais cargas movimentadas em milhões de toneladas pela hidrovia amazônica: 

 

Gráfico de Produtos x Cargas em milhões de toneladas

Fonte: Estatístico Aquaviário (ANTAQ) 

Impactos Culturais 

A Bacia Amazônica é um dos maiores símbolos da diversidade cultural do planeta e constitui o eixo vital da organização social e econômica da Região Norte do Brasil. Seus rios, em especial o Amazonas, o Negro, o Solimões, o Tapajós, o Madeira e o Xingu, moldam o modo de vida, a espiritualidade e as tradições de milhões de pessoas que habitam suas margens. Desde os tempos pré-coloniais, os povos originários da região, como os Ticuna, Yanomami, Kayapó, Munduruku, Baniwa, Tukano, Arara, Wajãpi e Ashaninka, desenvolveram modos de vida profundamente ligados à água e à floresta. Para esses povos, o rio é muito mais que um recurso natural — é um ser vivo, um elo entre o material e o espiritual, parte essencial de sua cosmovisão[32].

Essas populações indígenas e ribeirinhas construíram sistemas culturais complexos baseados no respeito à natureza, no uso sustentável dos recursos e na transmissão oral de mitos e saberes ancestrais. Os ciclos das cheias e vazantes definem o ritmo da vida: a pesca, a agricultura de várzea, o extrativismo e até as celebrações religiosas e comunitárias. Essa relação se reflete em rituais e festividades que expressam a união entre o homem e o ambiente. Entre os eventos mais marcantes, destacam-se o Festival do Çairé, em Santarém (PA), uma celebração que combina tradições indígenas e católicas; o Festival Folclórico de Parintins (AM), que homenageia a cultura amazônica através do duelo simbólico entre os bois Caprichoso e Garantido, mostrado pelo governo do estado do Amazonas em 2020 [33]; o Festival das Tribos Indígenas do Alto Solimões, que valoriza danças e ritos tradicionais; e as romarias fluviais de Nossa Senhora dos Navegantes, em cidades ribeirinhas, que reafirmam a fé e a conexão espiritual com os rios, segundo o IPHAN em 2018 [34].

Culturalmente, a bacia é também um espaço de resistência e diálogo. A diversidade linguística — com mais de 180 línguas indígenas ainda faladas, segundo o IBGE em 2012 [35] — e o sincretismo religioso resultante da convivência entre tradições indígenas, africanas e europeias criaram um patrimônio imaterial único. Expressões como o carimbó, o marabaixo, o lundu marajoara, a cerâmica tapajônica e o artesanato em sementes e fibras naturais mostram a capacidade de reinvenção e continuidade das culturas amazônicas. Essa herança cultural não apenas mantém vivas as tradições, mas também movimenta a economia regional por meio do turismo, do artesanato e das manifestações artísticas.

 

No campo do desenvolvimento humano e social, o legado cultural da Bacia Amazônica influencia diretamente a organização das comunidades e o fortalecimento da identidade regional. As festas, crenças e práticas tradicionais criam laços de solidariedade, preservam o conhecimento ecológico e fortalecem a autonomia dos povos locais. A valorização da cultura amazônica também tem impacto econômico, estimulando o turismo cultural, a produção artesanal e o reconhecimento internacional da Amazônia como um centro de diversidade e sabedoria ancestral, mostrado pela UNESCO em 2010[36]

Assim, o impacto cultural da Bacia Amazônica transcende fronteiras geográficas. Ela representa um modelo de convivência equilibrada com a natureza, onde tradição e modernidade coexistem. A vida às margens dos rios — entre canoas, cânticos e lendas — é o reflexo de uma civilização viva, que resiste e se renova. A cultura amazônica, com suas cores, sons e rituais, não apenas define a identidade do Norte do Brasil, mas também inspira o mundo a buscar caminhos mais sustentáveis e humanos de desenvolvimento.

Bacia do Sul

A Bacia Hidrográfica do Sul desempenhou um papel essencial no processo de ocupação, integração e desenvolvimento econômico da região Sul do Brasil, especialmente no estado do Rio Grande do Sul. Durante os primeiros séculos de colonização, os rios e lagos da região funcionaram como as principais vias de transporte e comunicação, permitindo o escoamento da produção agrícola e o intercâmbio entre as comunidades estabelecidas ao longo de suas margens. No século XIX, com a chegada dos imigrantes europeus, as hidrovias tornaram-se fundamentais para a expansão da ocupação em direção ao norte, possibilitando o surgimento de novos núcleos urbanos ao longo dos rios Taquari, Caí e dos Sinos. Nessa época, o charque, principal produto comercial do estado, era transportado em embarcações até Porto Alegre e, de lá, encaminhado ao Porto de Rio Grande, consolidando a navegação como eixo logístico de integração regional (Muller, 2003)[38].

 

O avanço da infraestrutura hidroviária marcou um importante período de modernização. Em 1906, foi construída a primeira eclusa do país, no rio Caí, obra que, associada a melhorias em outros trechos fluviais, possibilitou a navegação constante entre São Sebastião do Caí e Porto Alegre, caracterizando o auge do transporte fluvial regional (Klein, 2010)[39]. Até a década de 1940, o transporte hidroviário manteve-se como um dos principais modais logísticos do estado, perdendo gradualmente espaço com a expansão das rodovias e ferrovias. Entretanto, em 1961, foi aprovado o Plano Hidroviário do Estado do Rio Grande do Sul, elaborado pela Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) em 2005, que buscava ativar a navegação interior e modernizar as condições de navegabilidade, fortalecendo novamente o setor [40].

 

Atualmente, o sistema hidroviário da bacia liga as regiões industriais e agrícolas do Rio Grande do Sul ao Porto de Rio Grande, desempenhando papel estratégico na logística de exportação e no desenvolvimento econômico estadual (PORTOS RS, 2025)[41]. A hidrovia gaúcha continua sendo reconhecida como elo fundamental entre o interior e o litoral, com contínuos investimentos em dragagem, balizamento e manutenção dos canais navegáveis — evidência de que o modal permanece relevante para a estrutura logística do estado (SPH, 2012; HIDROVIAS RS, 2021)[42]. Assim, a Bacia Hidrográfica do Sul consolida-se não apenas como via de transporte, mas como um elemento estruturador do território, contribuindo historicamente para o desenvolvimento social e econômico da região.

 

Rotas

O Rio Grande do Sul possui uma relevante malha hidroviária concentrada principalmente nas bacias hidrográficas do Guaíba e da Lagoa dos Patos. Entre os principais rios navegáveis destacam-se o Jacuí e o Taquari — seguidos pelos rios Gravataí, Caí e dos Sinos — que também desempenham papel importante no transporte regional . O lago Guaíba e a Lagoa dos Patos são amplamente utilizados para o escoamento de cargas por meio de terminais públicos e privados. Os portos públicos de maior relevância são os de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, que integram a rede de transporte aquaviário estadual. Além disso, o estado conta com 17 Terminais de Uso Privativo (TUPs) em operação, distribuídos tanto nesses portos quanto ao longo das hidrovias interiores, reforçando a importância logística do modal hidroviário para a economia gaúcha, como mostrado em pela Agência Estadual de Portos do Rio Grande do Sul em 2025 [41].

 

A principal rota hidroviária de cargas do Estado encontra-se na Lagoa dos Patos e no lago Guaíba, entre os portos de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. A hidrovia da Lagoa dos Patos possui cerca de 259 km de extensão, e a do lago Guaíba cerca de 56 km. Ambas vias têm calado aproximado de 5 m, o que permite a navegação de embarcações de porte médio-pesado, segundo o Atlas Socioeconômico  RS em 2022 [43]. A navegação pelas hidrovias da bacia do rio Jacuí também é significativa, com extensão de cerca de 225 km e trechos com calado entre 5 m e 2,5 m, de acordo com o trecho, o que reforça o uso intensificado por TUPs recentemente de novo pelo PORTOS RS em  2025 citado anteriormente.



Sistema Hidroviário do Sul

fonte: FARSUL

 

Sistema Hidroviário do Sul fonte: FARSUL

Cargas

A movimentação nos portos de Pelotas e Porto Alegre é bem menos significativa, quando comparada ao Porto do Rio Grande. Pelotas movimentou 1,2 milhão de toneladas de cargas em 2022, especialmente madeira e clínquer. Já Porto Alegre, movimentou 780 mil toneladas no mesmo ano e teve como principais mercadorias matéria prima para fertilizantes, cevada, sebos bovinos e sal, segundo a Portos RS[51].

 

Tabela de mercadoria/toneladas/% da exportação

fonte: Porto RS[44]

Tabela de mercadoria/toneladas/% da exportação fonte: Porto RS[44]

Além disso segundo projeções da movimentações internas retiradas do site da ANTAQ, temos os seguinte gráficos: 

 

Primeiramente os numeros mostrando as cargas moviementadas pelos portos da hidrovia no ano de 2024 levando em consideração todos os meses do ano. 

Gráfico: Maiores Portos(carg) x Peso da carga bruta Fonte: Estatístico Aquaviário (ANTAQ)

Segundamente, levanta-se os dados das principais cargas movimentadas pela hidrovia durante todos os meses do ano de 2024 e a quantidade dessas cargas.

Gráfico: Maiores Mercadorias x Peso de carga bruta Fonte: Estatístico Aquaviário (ANTAQ)

Impacto cultural

As hidrovias do Rio Grande do Sul constituem não apenas rotas de transporte, mas também espaços fundamentais para a construção da identidade cultural das comunidades ribeirinhas e litorâneas do estado. A presença dos rios Jacuí, Caí, Sinos, Taquari e do estuário da Lagoa dos Patos consolidou práticas culturais que se desenvolveram ao longo de mais de dois séculos. Um dos exemplos mais marcantes é a Navegação de Saveiros e Barcos de Vela na Lagoa dos Patos, tradição registrada em pesquisas etnográficas do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, que documentam regatas históricas e festividades náuticas realizadas desde o século XIX (Cunha, 2014)[45].

 

Outro evento significativo são as Festas de Navegantes realizadas em cidades como Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas, nas quais milhares de fiéis acompanham procissões fluviais que celebram a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes — prática amplamente reconhecida pelo IPHAN em 2018 como manifestação tradicional de fé ligada à navegação[46]. A cultura ribeirinha também se expressa nas antigas barqueatas do Jacuí, registradas em estudos da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH), que destacam o papel das embarcações tradicionais no transporte de charque, couro e produtos agrícolas, consolidando um modo de vida ligado às águas[47].

 

Além disso, municípios banhados pelas hidrovias preservam práticas culturais que derivam da relação histórica com a navegação. Em São Lourenço do Sul, por exemplo, a Festa da Praia e antigas tradições náuticas de comunidades pomeranas refletem a convivência com a Lagoa dos Patos. Em Triunfo e Charqueadas, às margens do Jacuí, memórias do ciclo do charque, das carreiras de barco e dos antigos portos fluviais compõem parte importante do patrimônio histórico regional (Karsburg, 2012)[48]. A gastronomia típica — como peixes de água doce, o ensopado ribeirinho e pratos tradicionais do estuário — também é produto direto dessa relação cultural com os rios.

 

Do ponto de vista regional, a cultura hidroviária influenciou a formação social e econômica dos centros urbanos conectados pelas hidrovias, como Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. As atividades portuárias moldaram ofícios tradicionais, como mestres carpinteiros navais, pescadores artesanais e pilotos fluviais, que permanecem como elementos identitários das comunidades locais. Assim, as hidrovias do Rio Grande do Sul não apenas contribuíram para a integração territorial e para o desenvolvimento econômico, mas também constituem um patrimônio cultural imaterial, no qual práticas religiosas, festivas, artesanais e históricas permanecem vivas e vinculadas à presença da água na paisagem gaúcha.

REFERÊNCIAS
         
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  5. BRASIL. Ministério de Portos e Aeroportos. Competências da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação. Brasília: MPOR, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/portos-e-aeroportos/pt-br/assuntos/setor-hidroviario/competencias-secretaria-nacional-de-hidrovias-e-navegacao. Acesso em: 15 nov. 2025.
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  9. BRASIL. Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Hidrovia do Tietê-Paraná. Brasília: DNIT, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/dnit/pt-br/assuntos/aquaviario/intervencao-em-hidrovias/hidrovias-1/hidrovia-do-tiete-parana. Acesso em: 15 maio 2025.
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  11. SÃO PAULO (Estado). Plano Diretor da Hidrovia Tietê – Volume I. São Paulo: SEMIL, 2020. Disponível em: https://semil.sp.gov.br/htp/wp-content/uploads/sites/13/2024/02/Plano-Diretor-Hidrovia-Tiete-Volume-I-20dez2020.pdf. Acesso em: 15 maio 2025.
  12.      
  13. SÃO PAULO (Estado). Plano Diretor da Hidrovia Tietê – Anexo de comboios de 9.000 toneladas úteis. São Paulo: SEMIL, 2021. Disponível em: https://semil.sp.gov.br/travessias/wp-content/uploads/sites/10/2021/07/Plano-Diretor-Hidrovia-Tiete-Comboios-jun2021.pdf. Acesso em: 15 maio 2025.
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  15. SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Tabela de barcaças e empurradores e suas potências. São Paulo: SEMIL, [s.d.]. Disponível em:https://semil.sp.gov.br/travessias/frota/. Acesso em: 26 maio 2025.
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  19. BRAVIN, Luís Fernando Nicolosi. Logística e transporte na hidrovia Tietê–Paraná: custos e análise ambiental. 2005. 92 f. Tese (Doutorado em Engenharia Agrícola) – Faculdade de Ciências Agronômicas, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Botucatu, 2005. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/101785. Acesso em: 29 jun. 2025.
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  21. SEMIL — Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de SP. Hidrovia Tietê–Paraná registra crescimento de 5,8% na quantidade de carga transportada. São Paulo, 31 jul. 2024. Disponível em: https://semil.sp.gov.br/2024/07/hidrovia-tiete-parana-registra-crescimento-de-58-na-quantidade-de-carga-transportada/. Acesso em: 13 fev. 2025.
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  27. COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO (CBHSF). Relatório de situação da bacia hidrográfica do Rio São Francisco – 2011. Belo Horizonte: CBHSF, 2011. Disponível em: https://www.agenciapeixevivo.org.br. Acesso em: 12 fev. 2025
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