Formando Engenheiros e Líderes

Centro de pesquisa da USP busca novas soluções para descarbonização da indústria offshore

Na manhã do dia 15 de abril, autoridades da USP, da Fapesp, do IPT, da Marinha do Brasil e da Shell se reuniram na Escola Politécnica (Poli) da USP para a inauguração da sede administrativa e os laboratórios do Offshore Technology Innovation Center (OTIC). A iniciativa foi lançada em 2024, fruto de uma parceria entre a Universidade, a Shell Brasil, a Fapesp e o IPT.

Em sua apresentação, o diretor-executivo do OTIC, professor Gustavo Assi, celebrou a atuação do OTIC na parceria entre essas empresas e instituições. O docente defendeu o modelo como um exemplo onde governo, academia e indústria se fortalecem com interesses fortes e coesos, “com parcerias de longo prazo onde podemos construir um centro de pesquisa de fato transformador”.

Assi partiu do lema do OTIC, “Criando o offshore do amanhã”,  para detalhar a proposta e o propósito do Centro. “‘Criando’ é o ato contínuo de criar, de desenvolver o que não existe, função primordial dos engenheiros”. Partindo do desafio imposto pelas mudanças climáticas, que norteia muitas das ações em engenharia, desenvolvimento e pesquisa na atualidade, o docente detalhou o desafio enfrentado pela geração atuante neste momento. “Quando lidamos com o setor energético de óleo e gás, aparece o trilema: três vetores que puxam em direções opostas – precisamos de mais energia, ao menor custo, e com menos impacto ambiental. São três vetores quase que antagônicos”. Neste contexto, cabe ao setor de pesquisa e desenvolvimento buscar soluções técnicas que satisfaçam essas três condições desafiadoras.

O docente também pontuou o contexto brasileiro de energia, que apesar de uma matriz energética bastante limpa, ainda tem uma parcela expressiva de utilização de combustíveis fósseis, especialmente no setor de transporte. “Estamos vivendo os altos e baixos da nossa dependência de energia fóssil, responsável pelo grande desenvolvimento tecnológico e social das nações por muitas décadas. Não podemos simplesmente apagar a luz e amanhecer com uma resposta imediata, precisamos de uma transição no setor energético de óleo e gás”. 

Ele também apresentou dados sobre a produção dessa energia, que em sua maior parte vem do oceano. “Nós somos um País que tira sua energia fóssil do oceano, portanto não tem como a indústria offshore não ser transformada num contexto de transição energética, ela precisa se reencontrar, se reinventar de uma forma revolucionária pensar o que será o offshore do amanhã. Essa é a nossa visão e o nosso desafio”.

O docente ainda ressaltou que a indústria offshore terá um papel fundamental na transição energética brasileira, e que a integração entre as indústrias onshore e offshore traz a chance de alcançar a neutralidade de carbono. “O setor offshore pode se apresentar como solução para novos processos e novas operações. Seja a geração de energia renovável do oceano, seja  o local para você guardar carbono emitido nas outras fontes produtivas que vêm do continente. […] O onshore brasileiro, com seus ativos e tecnologia madura, pode apresentar uma solução integrada com o setor offshore do Brasil. Só que isso requer uma visão que vai muito além de pesquisa e desenvolvimento e passa por um planejamento nacional de setores industriais. Por isso, fazendo a nossa parte, é que nós estamos construindo ou criando o offshore do amanhã”.

Antes de apresentar os cinco programas técnicos que estruturam o OTIC, Assi destacou que as tecnologias a serem desenvolvidas seguem duas diretrizes: Neutralidade de carbono e operações cada vez mais seguras. “Tudo que nós fazemos no OTIC está norteado por essas duas frentes. Cada vez produzir mais energia limpa e sempre de maneira segura”.

Os cinco programas são: Novos processos e operações, Transformação digital, Potência de baixo carbono, Materiais inovadores e novas tecnologias e Saúde, segurança e meio ambiente & Economia Circular.

Por fim, Assi destacou os principais objetivos do OTIC. O primeiro deles é produzir tecnologia inovadora. “Nós não queremos passar o pano em tecnologia existente, polir aquilo que já foi feito. Nós queremos, assim como diz T. von Karman (1881-1963), cientistas estudam o mundo como ele é, mas engenheiros criam o mundo que nunca existiu. Nós temos que fazer tecnologia nova. E essa é a função primordial do engenheiro”.

O segundo objetivo é a transferência de tecnologia. “A universidade não é uma empresa e não pode funcionar como uma empresa. A universidade precisa transferir a sua tecnologia para os setores produtivos de serviços e produtos da sociedade. Nós precisamos de empresas parceiras que entram no Centro desde o início dos projetos, e também aproveitar ecossistemas de inovação com spin-offs e startups e licenciamento da tecnologia para que essa tecnologia esteja pronta para ser utilizada. 

A difusão do conhecimento gerado é o terceiro aspecto, que vem da essência da FAPESP, que a trata como primordial. “E nós dizemos que o engajamento com a sociedade vai muito além do tempo do artigo publicado. Nós precisamos usar a credencial da universidade para falar com a sociedade, seja nas suas linguagens ou traduções necessárias, para conseguir fazer uma boa difusão do conhecimento gerado”.

O quarto objetivo é trabalhar bem com a percepção e a apropriação social da tecnologia. “Nós vivemos num tempo onde algumas pessoas podem virar o rosto ou fechar os olhos para realidades, ou fatos que acertam. Nós precisamos tomar a credencial da universidade também para levar ações formativas para a atual geração. A universidade, junto com essa parceria de indústria e governo, tem que dizer e usar a sua voz para, além de medir, também imprimir uma boa percepção social da tecnologia que nós fazemos”.

Por fim, o líder do OTIC destacou a importância da atuação política para permitir que as estratégias transcendam governos. “Esse liga e desliga de estratégias tecnológicas faz o Brasil chegar a lugar nenhum. Precisamos de estratégias que mirem os desafios reais da nação e a credencial da universidade precisa também ser bem utilizada com os formadores e gestores de políticas públicas. Nós precisamos ter voz quando o assunto é tecnologia, transição energética, indústria offshore”, concluiu.

Os participantes do evento puderam, também, conhecer quatro novos laboratórios inaugurados. O NAVE – Navigation, Augmented & Virtual Environments Lab, coordenado pelo professor Thiago Martins (Poli), o COSMOS – Center for Systems Operations and Multipurpose Simulation, coordenado pelo Marcelo R. Martins (Poli), o SPOT Lab – SOcial perception of Technology, coordenado pelo professor Gustavo Assi (Poli), e o Digital Ocean Laboratory, coordenado pelo professor Rubens Lopes, do Instituto Oceanográfico.

Confira outras informações sobre o Centro na página https://sites.usp.br/otic/

Autoridades participantes – Participaram da solenidade a diretora da Escola Politécnica da USP, professora Anna Helena Reali Costa, o reitor da USP, professor Aluísio Augusto Cotrim Segurado, a vice-reitora da Universidade de São Paulo, professora Liedi Légi Bariani Bernucci, o diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, Anderson Ribeiro Correia, o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, Carlos Frederico de Oliveira Graeff, o Capitão de Mar e Guerra, engenheiro da Naval, Reinaldo de Melo Maeda, representando o comandante do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, Vice-Almirante (EN) Celso Mizutani Koga, e a diretora de Tecnologia e Inovação da Shell Brasil Petróleo, Manuela Lopes, além do professor Gustavo Roque da Silva Assi, diretor-executivo do OTIC. Estiveram presentes, também, o vice-diretor da Poli, Gilberto Francisco Martha de Souza, e o ex-diretor da Poli, Reinaldo Giudici.

Em suas palavras, a diretora da Poli, Anna Reali, destacou o sucesso da iniciativa na missão de produzir e difundir conhecimento, inovação e desenvolvimento. “O lema é ‘Criando o Offshore de Amanhã’, e isso me enche de orgulho e de satisfação, porque, na verdade, esse é de fato o DNA da Poli. Engenharia científica e tecnológica, inovadora, com consciência ética e responsabilidade ambiental e social. Então, é essa engenharia que a gente quer, essa engenharia que a gente difunde aqui”, finalizou a dirigente.

Confira aqui a repercussão do lançamento no Jornal da USP – https://jornal.usp.br/institucional/pesquisas-de-ponta-em-transicao-energetica-ganham-novos-laboratorios-e-simuladores/