Formando Engenheiros e Líderes

23 de junho – Dia Internacional das Mulheres na Engenharia: a importância das docentes para inspirar mais mulheres a ingressar na pós-graduação

Em entrevista, professoras do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Poli-USP (PPGEC) destacam o quanto ter uma referência feminina as inspirou a seguir construírem seus caminhos na pós-graduação e carreiras acadêmicas

“Ainda há uma visão retrógrada da engenharia como algo masculino, mas tem cada vez mais exemplos muito legais aqui na Poli de professoras muito inspiradoras”, é o que afirma a professora doutora Juliana Siqueira-Gay, docente no Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica (Poli) da USP. Ela, junto a professora doutora Rachel Biancalana Costa, também docente do departamento e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Poli-USP (PPGEC), são representações da importância de datas como 23 de junho, Dia Internacional das Mulheres na Engenharia para celebrar e estimular a entrada de mais mulheres na área.

Em um breve entrevista com ambas sobre suas trajetórias profissionais, as duas demonstram como foi importante a presença de mulheres em suas vidas acadêmicas. Para a professora Rachel Biancalana Costa, a paixão pela temática ambiental nasceu em ainda no período colegial. Ela destaca, inclusive, dois momentos muito marcantes anteriores ao seu ingresso na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), em Engenharia Ambiental: um projeto com sua professora de geografia sobre ilhas de calor em Campinas; e uma conversa com a irmã de uma amiga, que estudava Geologia, sobre seus planos futuros quanto a universidade. É a partir destes eventos que sua história profissional e acadêmica começa.

Ao chegar em São Carlos, Biancalana sentiu alguns desafios no curso, já que nunca teve muita facilidade em matemática e física, além de todos os impasses de tornar-se uma adulta, mas lembra deste período como um dos mais importantes e felizes de sua vida, justamente por ter aprendido tantas fundamentações da área e moldado sua visão de mundo e sobre a educação, além de destacar que sua turma tinha um certo equilíbrio quanto a quantidade de estudantes mulheres e homens.

Já para a professora Juliana Siqueira-Gay, o caminho foi um pouco diferente, mas assim como Rachel, seu interesse surgiu na fase escolar, mais especificamente pelas na biologia e exatas, em que tinha que resolver questões analíticas, algo que sempre gostou. Ao decidir pela Engenharia Ambiental, não tinha muitas referências profissionais, principalmente de mulheres, mas as encontrou ao ingressar em seu mestrado e ter aulas com professoras que futuramente seriam suas colegas, como a professora Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo, professora Maria Eugenia Gimenez Boscov e professora Liedi Légi Bariani Bernucci, a primeira mulher a assumir o cargo de diretora da Poli-USP.

Atualmente, ambas fazem parte do rol de professoras da Escola Politécnica e do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil, onde orientam novos discentes, entre elas muitas mulheres, comenta Juliana, que foi homenageada em 2024 por ser a  primeira egressa do curso de engenharia ambiental a ingressar como docente na Escola Politécnica, pelo Centro Acadêmico da Engenharia Ambiental. 

Além de orientadoras, elas também integram grupos de pesquisa, como Rachel que faz parte do projeto “Produção de biometano em biorrefinarias de cana-de-açúcar a partir da integração com resíduos da pecuária”, integrado e coordenado somente por mulheres; e Juliana, que desde 2025 é coordenadora do “Elas fazem ciência: A inserção de jovens mulheres da engenharia na pesquisa durante a graduação”, projeto que propõe novas ações à Comissão de Inclusão e Pertencimento e Comissão de Pesquisa da Escola Politécnica, para maior inserção feminina nas pesquisas do campus. Ela também acaba de vencer o prêmio 2025 IAPA Best Paper Award, International Association for Impact Assessment por seu artigo Developing strategic environmental assessment in contexts of non-systematic practice: contributions for offshore energy transition

E é aqui que retornaremos a grande questão que centraliza todo o debate que motivou a criação desta data e a citação que abre este artigo: com tantos exemplos de mulheres bem-sucedidas nas áreas da engenharia, por que ainda existe uma visão deste espaço como masculino? Esta é uma resposta fácil de se saber, mas difícil de se lidar: desde muito cedo, mulheres são inferiorizadas em relação ao seu gênero oposto. Em estudo realizado pelos Departamentos de Psicologia das Universidades de Illinois e Nova Iorque, em parceria com o Departamento de Filosofia de Princeton, publicado em 2017 pela Revista Science, constatou que meninas a partir dos 6 anos tendem a enxergar a inteligência como um atributo masculino, além de evitarem atividades associadas a estas pessoas. O mesmo padrão de visão foi observado em meninos.

“Eu brinco que é um machismo não tão direto, mas te sufoca, porque a sua competência é questionada de uma forma tão sistemática que você deixa de imaginar que consegue fazer aquilo, que é impossível, você nem sonha em alçar determinados voos”, é o que afirmou a professora Rachel ao lembrar de situações desconfortáveis que viveu ao trabalhar como projetista. 

 

Mas para além de serem mais vezes questionadas quanto a sua assertividade em suas carreiras, há uma outra forma de desestímulo: a falta de apoio de familiares e parceiros. Segundo dados do Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG), mesmo o Brasil formando mais cientistas mulheres, poucas seguem para a docência na pós-graduação, já que muitas vezes há uma jornada dupla entre trabalho e atividades domésticas mal distribuídas entre casais que tende a pender para o lado da mulher. Sabendo deste fato, Juliana Siqueira-Gay reiterou a importância de uma rede de apoio.

Mas afinal, o que fazer? Como mostrado ao longo de todo este artigo, há uma grande inserção de mulheres na área acadêmica e, principalmente, muitas que alcançaram metas que até então pareciam improváveis e abriram caminhos. Há muita evolução em todo esse percurso, mas é preciso que mulheres como as professoras doutoras Juliana Siqueira-Gay, Rachel Biancalana Costa, Liedi Légi Bariani Bernucci entre diversas outras que compõem o corpo docente, deixem de ser apenas exceções e tornem-se um padrão. Para isso, o PPGEC mantém seu compromisso com a diversidade de gênero e na exaltação da produção científica realizada por nossas docentes e discentes.