Roberto Aureliano Salmeron

Por Adnei Melges de Andrade,
professor aposentado da Poli-USP.
Primeira turma de alunos da Escola Politécnica da USP na École Polytechnique, 2002. Da direita para a esquerda, em pé, estão o professor Henrique Lindenberg Neto, da Poli-USP, e o professor Roberto Aureliano Salmeron, junto à primeira turma de alunos de duplo diploma da Escola na instituição francesa. Crédito: Acervo do Professor Henrique Lindenberg Neto.

É com profunda tristeza que recebemos nesta data a notícia do falecimento do Professor Salmeron. A convivência com o professor Salmeron nos anos em que atuamos na CCint, depois nominada CRINT-Poli (Comissão de Relações Internacionais), foi de grande aprendizado sobre a atividade de intercâmbio internacional de estudantes para nós da Escola Politécnica da USP.

Professor  Salmeron iniciou sua carreira professional como assistente de Física Geral e Experimental na Escola Politécnica da USP e sua atividade científica com o professor Gleb Wataghin, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em 1950, deixou a USP para ser pesquisador do CBPF, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, do qual foi membro fundador.

Professor Salmeron esteve por muitos anos na Europa, onde foi orientado pelo professor Patrick Blackett, Prêmio Nobel de Física. Foi membro do CERN, Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, recém-fundado, e do qual foi um dos primeiros pesquisadores, sendo por muito tempo o único não europeu. Atualmente, o CERN conta com cerca de 7000 pessoas entre pesquisadores e pessoal técnico.

Embora na Europa, professor Salmeron mantinha uma forte ligação com o Brasil e compromisso com a universidade brasileira, tendo atuado como assessor para organizar a Universidade de Brasília e se tornou seu professor entre 1964-1965. Devido às pressões políticas que iniciaram em 1964 e que perduraram até 1985, Professor Salmeron, juntamente com mais de 200 outros professores se demitiram da UnB.

Foi convidado a regressar ao CERN, tendo lá ficado até 1967, quando passou a trabalhar na École Polytéchnique, na França, na área de física nuclear de altas energias, atuando junto ao CERN, dirigindo grupos de pesquisadores. Tendo sido membro dos comitês Track Chamber Committee e o Super-Proton-Synchroton Committee, advogou como assessor do governo brasileiro a instalação de um laboratório Síncrotron no Brasil e que resultou na criação do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas.

Professor Salmeron foi titular da Academia Brasileira de Ciências e membro da The New York Academy of Sciences., tendo sido convidado pela Royal Swedish Academy of Sciences, como conselheiro para atribuição do Prêmio Nobel de Física, de 1985 a 1989.

Como dito, Professor Salmeron manteve sempre forte ligação com o Brasil, e em particular com a Escola Politécnica. No início do ano 2000, quando iniciamos na CCInt a busca de parceiros europeus para a intensificação da atividade de intercâmbio internacional dos estudantes da Escola Politécnica, tivemos muita ajuda do Professor Salmeron, então Professor Emérito da École Polytéchnique, que com seu prestígio, nos guiou nas discussões para a consecução do acordo acadêmico. Dadas as diferenças na formação dos estudantes no Brasil e na França, as sugestões do Professor Salmeron no que toca ao reforço de algumas disciplinas ligadas às matemáticas, foram de enorme importância para que nossos alunos da Poli pudessem se sair bem nos processos de seleção, e posteriormente como estudantes da École Polytèchnique. Por muitos anos, entre 2000 e 2006~2007, tivemos o prazer da visita do Professor Salmeron à EPUSP para acompanhar o desenvolvimento dos estudantes e das relações com a École Polytéchnique. No âmbito das relações humanas, o interesse e cuidados que o Professor Salmeron dedicava a nós da USP foram marcantes. Nós sentíamos a proteção e guia do poderoso “padrinho acadêmico” que tínhamos.

A atuação do Professor Salmeron junto à CRint, foi de fundamental importância para o sucesso da EPUSP no intercâmbio internacional, tanto na aproximação e consolidação do acordo com a École Polytécnhique, mas também como modelo para os demais acordos, como os de Duplos Diplomas com as melhores escolas de engenharia da Europa.