Formando Engenheiros e Líderes

Inserção de jovens mulheres na pesquisa durante a graduação pode ajudar a transformar ambiente da engenharia, analisa pesquisa da USP

Contato precoce com a iniciação científica pode incentivar alunas a seguir na pós-graduação e na docência

As mulheres ainda são minoria na engenharia em geral. A iniciação científica na graduação, entretanto, pode ser um meio eficaz para diminuir a disparidade de gênero. Esse é um dos apontamentos da pesquisa “Elas fazem ciência: A inserção de jovens mulheres na pesquisa durante a graduação”. O estudo foi realizado por Isabella Vieira Aureliano, estudante de graduação da Escola Politécnica (Poli) da USP, sob orientação da professora doutora Juliana Siqueira-Gay. Segundo a pesquisa, a iniciação científica possibilita que as jovens mulheres se adaptem mais rápido ao ambiente de engenharia.

Confira a pesquisa na íntegra aqui.

A participação em projetos de pesquisa aproxima as estudantes do cotidiano acadêmico desde os primeiros anos da graduação. O contato com pesquisadores e docentes, especialmente mulheres, faz com que a pós-graduação e a carreira científica pareçam mais acessíveis. “Quando você faz pesquisa na graduação, você já teve contato com o que é fazer pesquisa e não parece mais tanto um bicho de sete cabeças”, explica Isabella.

A estudante também destaca um efeito gradual. “O contato com mulheres já inseridas na pesquisa acadêmica incentiva mais alunas a seguirem para a pós-graduação e, futuramente, para a docência, ampliando a presença feminina em espaços de liderança e criando novas referências para estudantes mais jovens” , conclui. 

Na foto, estudante apresenta seu trabalho de iniciação científica no SIICUSP - Simpósio da USP que apresenta pesquisas realizadas por alunos e alunas durante a graduação todos os anos.

Os desafios da permanência feminina na pesquisa 

Na pesquisa, foram analisados dados de 2017 a 2024 referentes às iniciações científicas ativas no Programa de Iniciação Científica (IC) nos departamentos da Poli-USP. As politécnicas representam apenas 29% dos alunos que fazem pesquisa durante a graduação da Poli, e são hoje 21% das ingressantes. Esse percentual é inferior ao limite mínimo para paridade de gênero e  estabelecimento de uma massa crítica, ou seja, uma quantidade de mulheres considerável para reduzir o estigma da engenharia como ambiente masculino.

Para Isabella, a disparidade não está ligada apenas à menor presença feminina nos cursos de engenharia, mas também a dinâmicas acadêmicas que podem dificultar o pertencimento de alunas nos espaços de pesquisa. Entre elas está a relação “especialista-novato”, baseada em uma estrutura hierárquica entre orientador e estudante. Segundo a pesquisadora, mulheres tendem a se sentir mais confortáveis em ambientes colaborativos, sem a necessidade constante de “provar” sua capacidade técnica.

Possíveis caminhos

O estudo seleciona propostas institucionais para aumentar a quantidade de jovens mulheres no meio da pesquisa acadêmica na graduação. Segundo Isabella, a escolha das referências levou em consideração soluções que dialogassem com a realidade da própria Poli. 

Uma das estratégias discutidas na pesquisa é a chamada “abordagem furtiva”, baseada na incorporação de temas relacionados à equidade de gênero em atividades mais amplas de desenvolvimento acadêmico e profissional. Para a estudante, a proposta se aproxima da cultura da Escola Politécnica, marcada por uma rotina intensa e pela priorização das demandas da graduação.

Outra proposta é a elaboração de chamadas de bolsas de iniciação científica voltadas exclusivamente para  alunas, além da premiação para as pesquisas lideradas por mulheres que tiveram destaque. O acesso a cientistas que compartilham trajetórias reais é mais eficaz para a persistência das jovens. “Acredita-se que a paridade de gênero na engenharia começa pela formação de novos modelos de liderança feminina. O contato com esses modelos inicia-se na graduação com o importante papel desempenhado pelas professoras nesse contexto. Eu mesma fui muito inspirada pelas minhas professoras durante a graduação na Poli e hoje reconheço essa importância”, relata a docente Juliana Siqueira-Gay, orientadora do estudo.

Estudante apresenta trabalho de iniciação científica no SIICUSP na Poli, em 2023.