Kazuo Nishimoto, professor da Poli há quatro décadas, relembra vida e trajetória
Kazuo Nishimoto chegou no Brasil ainda criança, aos 9 anos de idade, em 1964. Em 2026, retorna ao seu país de origem, o Japão, para ser celebrado como uma das personalidades mais relevantes na história da engenharia naval e offshore, na Conferência Internacional de Engenharia Offshore e Ártica (OMAE). Este ano, ele também se despede do Brasil e da Escola Politécnica para voltar de vez à terra natal. Mas o passado que deixou aqui é memorável e marcado por um protagonismo ímpar no avanço da ciência, da pesquisa e do ensino de engenharia no Brasil.
A vida no Brasil nem sempre foi fácil, mas também não foi tão difícil quanto para os seus pais, relata Kazuo. Por meio dos amigos, ele se enturmou e rapidamente aprendeu a língua, mas seu destaque mesmo sempre foi para a matemática e a física. O talento se desenvolveu e, em 1974, ingressou na Escola Politécnica. Inicialmente, ele queria graduar-se em engenharia aeronáutica, mas, em plena Ditadura Militar, ele não podia ingressar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) por não ser brasileiro nato. Seguindo a lógica de gerenciar grandes meios de transporte, ele mudou o foco de avião para navio, e optou pela Engenharia Naval – no período um dos cursos mais concorridos na Escola Politécnica da USP.
Enfrentou diversas dificuldades na sua graduação, tendo que conciliar responsabilidades pessoais e familiares com exigências acadêmicas. Mas isso não impediu que, em cinco anos, ele saísse da Poli, formado como engenheiro naval. Com oportunidades de trabalho na então florescente área de offshore no Brasil, Kazuo foi oferecido uma bolsa de mestrado na Universidade Nacional de Yokohama, no Japão. Como retornar ao país sempre foi um objetivo, foi-se para lá, onde ficou durante 6 anos, e emendou um doutorado na Universidade de Tóquio.
Ao voltar para o Brasil, já em meados da década de 1980, a Petrobras estava desenvolvendo o seu programa de exploração em águas profundas, justamente a área que Kazuo estudou no Japão. De volta ao País, foi acolhido por colegas que trabalhavam na estatal e desenvolveu diversos projetos e pesquisas nacionais. Como o professor relembra, foi um período áureo para o offshore brasileiro, levando o Brasil ao topo do desenvolvimento científico na área.
Quando voltou para a USP, ele voltou por meio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), porém ele não possuía tanta liberdade para desenvolver suas pesquisas no Instituto quanto na Poli. Quando abriu uma vaga de professor na Escola Politécnica, justamente no Departamento de Engenharia Naval e Oceânica e na área de offshore, Kazuo era o candidato perfeito. Entre as diversas mudanças que presenciou e participou, Kazuo destaca a criação do Tanque de Provas Numérico (TPN). Este Tanque alia modelos matemáticos, físicos e simulação em um laboratório de ponta. Usando um cluster de computadores para realizar operações, o TPN torna possível fazer simulações de embarcações e flutuantes localizados a altas profundidades, como e mágoas profundas e ultraprofundas. Por meio do modelo físico, permite simular condições mais reais e incorporar isso em um banco de dados para futuras simulações. O TPN rapidamente tornou-se em um dos principais laboratórios do mundo, a sua tecnologia possibilitou simulações voltadas para profundidades cada vez maiores e tornou-se um instrumento vital para o treinamento de práticos da Marinha brasileira.