A proposta foi realizada pelo Democratic Architects, e contou com a participação do professor da Escola Politécnica da USP e engenheiro hidráulico Fábio Lofrano
Conheci rios
Rios antigos e escuros
Minha alma cresceu profunda como os rios
– Langston Hughes
O Bixiga é um dos bairros mais tradicionais da cidade de São Paulo. A história dele vem desde o século XIX, quando era lar de pessoas escravizadas libertas. No século XX, foi também foi lar de imigrantes italianos e, durante os anos 80 até 2024, foi palco de uma batalha judicial entre o dramaturgo Zé Celso e o empresário Sílvio Santos, que disputaram pelo terreno que circunda o teatro Oficina, criado por Celso.
No dia 4 de maio, após anos de indefinições sobre o futuro da área, a Prefeitura de São Paulo, junto ao Instituto de Arquitetos do Brasil (IABsp),anunciou o resultado do concurso público que buscava uma proposta para o Parque Municipal do Bixiga. O projeto é do escritório Democratic Architects, e nasceu de uma motivação específica: a vontade de conciliar, em uma única intervenção, as diferentes camadas históricas, sociais e culturais que marcam o terreno.
O cerne da proposta é renaturalizar o do Rio Bixiga, que está soterrado sob obras urbanas e asfalto há décadas. Agora, ele correrá a céu aberto, junto a dispositivos hidráulicos que permitam a conciliação entre meio ambiente, mudanças climáticas e drenagem urbana.
Fábio Lofrano, docente do Departamento de Engenharia Hidráulica da Escola Politécnica (Poli) da USP e engenheiro, foi chamado para atuar como consultor técnico na proposta, na parte de engenharia hidráulica. O professor, que também é morador do Bixiga, destaca a importância de uma planejamento urbano não só para o bairro, mas para a metrópole de São Paulo como um todo. “A gente está falando talvez do último terreno no centro de São Paulo, que pode virar um parque dessa magnitude”.
Antecedentes
Segundo reportagem da CNN Brasil, o terreno do parque vem sendo alvo de disputas judiciais desde os anos 1980 O território era ocupado pelo Teatro Oficina, criado pelo dramaturgo Zé Celso. Em 1981, Silvio Santos adquiriu a área de aproximadamente 11 mil m² com o objetivo de expandir os empreendimentos de seu grupo empresarial.
Com receio que os projetos previstos para o local comprometessem as atividades do teatro e a dinâmica cultural do bairro, Zé Celso iniciou uma mobilização que se estenderia por décadas. Ao longo dos anos, diferentes propostas de ocupação da área foram contestadas por artistas, moradores, urbanistas e movimentos sociais, que defendiam a criação de um parque público no terreno.
A reivindicação ganhou força à medida que o debate passou a incorporar também questões ambientais e urbanísticas, como a preservação do patrimônio cultural da região e a recuperação do córrego do Bixiga, canalizado sob o bairro. Em 2024, após o encerramento do litígio envolvendo os herdeiros de Silvio Santos e o Teatro Oficina, a Prefeitura de São Paulo adquiriu o terreno. A área foi então destinada à implantação do Parque Municipal do Bixiga, e um concurso público foi lançado para definir a proposta arquitetônica e urbanística do futuro espaço.O concurso público em voga foi o vencido pelo Democratic Architects.
O projeto
“Eu gostaria de ter uma engenharia que fosse sensível às pessoas e ao entorno de toda essa história. Que não distinga pessoa, cultura, de natureza intocada. Tudo existe simbioticamente.’’
– Fábio Lofrano
A necessidade de conciliar as atividades de lazer com a recuperação do rio, os interesses públicos e privados, além dos anseios dos moradores e das diferentes comunidades que marcaram a história da região, permeou todo o projeto.
Fábio destacou que, mesmo atuando na frente mais técnica, o maior desafio foi colocar a engenharia a serviço dessas múltiplas demandas. Para ele, as soluções hidráulicas não poderiam se limitar a cálculos e dispositivos de drenagem, mas precisavam dialogar com a memória do bairro, as questões sociais e as necessidades ambientais do território. Nesse sentido, o projeto buscou integrar conhecimento técnico e sensibilidade urbana, sem ignorar as tensões e complexidades presentes na construção do futuro Parque do Bexiga.
O ambiente será constituído de um parque alto e um parque baixo. Como o terreno circunda o Teatro Oficina em formato de U, o edifício ficará inserido no interior do parque. A parte baixa é por onde passa o rio, e lá haverá dispositivos de drenagem superficial , passarelas-deck, hortas urbanas e sistemas agroecológicos,a fim de cuidar da parte ambiental do local. As áreas de lazer, como quadras, edificações, arquibancadas, entre outras, ficarão no Parque alto.
O parque também será um ‘parque‑esponja’, inspirado no conceito de cidades‑esponja desenvolvido pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, que propõe reter a água de chuva no próprio território urbano para reduzir o risco de inundações.”São Paulo não é mais a ‘terra da garoa’, é a terra das pancadas de chuva “, diz Fábio. Assim, os sistemas de drenagem convencionais revelam dificuldade em lidar com uma grande quantidade de água de uma só vez.

Exemplo de cidade-esponja projetada por Kongjian Yu, na China. [Imagem:Divulgação\Turenscape]
No parque, a lógica da “esponja” será aplicada por meio da abundância das áreas verdes, as quais e farão com que a água infiltre no solo, de redes de drenagem superficiais e da criação de áreas alagáveis propositais no terreno, que terão a função de retardar as cheias. Fábio explica que esses “jardins de chuva” terão sim um período de cheia, mas que, com os próprios dispositivos hidráulicos a serem construídos, eles vão liberar essa água aos poucos, ou ela se infiltrará no solo.
Houve também, na criação da proposta, uma atenção dada à questão do parque ter horário de fechamento. A fim de harmonizar o fechamento do parque com a circulação 24 horas, foram planejados “bolsões de liberdade”. O termo, cunhado pelo arquiteto brasileiro Sérgio Ferro, de acordo com a monografia Canteiros Populares:uma análise da Ocupação 9 de Julho, se refere a espaços que são idealizados pensando na luta social, ficando fora de uma lógica imobiliária.
Assim, eles ficarão abertos 24 horas por dia, com praças e banheiros públicos. “[Os bolsões de liberdade] foram uma maneira que o grupo encontrou de democratizar esse acesso, que funciona como praças próximas das entradas. E servem, inclusive, como apoio para a população em situação de rua, que podem usar esses banheiros.Então provêm alguma dignidade para pessoas marginalizadas, mas que também são população desse bairro” pontua Lofrano.
O parque ainda está distante de sua versão final. A proposta apresentada pelo Democratic Architects servirá como diretriz para as próximas etapas do projeto, mas deverá passar por adaptações conforme novas informações sobre o terreno forem surgindo. Segundo Lofrano, a área permanece repleta de incertezas: além de décadas de intervenções urbanas pouco documentadas, há dúvidas sobre as condições do subsolo, os níveis do terreno e estruturas que podem ter sido construídas sem registro ao longo dos anos. O processo também envolve a preservação de elementos históricos da região, como remanescentes da primeira sinagoga sefardita da cidade.
Ainda não há uma data definida para o início das obras. Antes da construção, será necessário desenvolver o projeto executivo, realizar estudos complementares e conduzir o processo de licitação. A expectativa é que essas etapas levem pelo menos mais alguns anos. Enquanto isso, existem discussões para que o espaço possa começar a ser ocupado gradualmente pela população.
Para Lofrano, o projeto vencedor definiu os princípios que devem orientar o Parque, mas o terreno ainda guarda muitas incógnitas. O engenheiro compara a próxima etapa a uma espécie de arqueologia urbana, em que cada descoberta ajudará a determinar como esses princípios serão transformados em realidade.
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https://concursoparquedobixiga.org.br/resultado/resultado-final/