As contribuições de Inés Pereyra pela microeletrônica na América Latina

— A física surgiu porque eu desde pequena gostei muito da parte de exatas, da matemática, foi natural. A minha mãe é professora de matemática, então já vinha um pouco de família.

Inés Pereyra, hoje professora titular no Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da USP, entrega sua origem argentina ao falar, carregando ainda um leve sotaque, mesmo após décadas no Brasil. Física de formação, Inés conta que a engenharia surgiu na sua vida durante a graduação. Após trocar a matemática pela física na Universidad de Buenos Aires, a então estudante se deparou com dispositivos semicondutores no seu trabalho de conclusão de curso, e começou a estudar microeletrônica. 

“Então meu encontro com a engenharia foi do ponto de vista dos dispositivos semicondutores, que é um ponto onde convergem a física e a engenharia”, conta a professora, rodeada por livros e papéis em sua sala bem iluminada no final de um corredor escondido do prédio da engenharia elétrica.

Inés Pereyra é professora titular da Escola Politécnica. Foto: acervo pessoal.

Ela revela que, quando ingressou no curso de matemática, mal conhecia a física. Porém, ao fazer disciplinas da matéria na faculdade de ciências exatas e naturais, acabou se encantando. “Porque, na verdade, a matemática é muito abstrata, a parte da física eu já via muito mais concreta, onde você aplica matemática. E eu sempre gostei de aplicar, tanto que depois como física eu fui para a microeletrônica, onde você usa física para a engenharia”.

Depois de concluir a graduação, Inés Pereyra partiu de seu país natal para continuar a formação no exterior. Fez doutorado e pós-doutorado nos Estados Unidos, em Delaware, trabalhando com materiais semicondutores e dispositivos fotovoltaicos. E foi através dessa pesquisa que ela veio parar no Brasil, já na Escola Politécnica. A pesquisadora conta que, naquela época, estavam formando um grupo de estudos de células solares aqui na universidade, para o qual ela foi “praticamente convidada”. A vontade de trabalhar novamente na América Latina falou mais alto, então acabou ficando por aqui. 

 

Inés Pereyra contribui com o avanço da microeletrônica do país. Foto: acervo pessoal.

Como professora e pesquisadora, Inés Pereyra ajudou muito no desenvolvimento de dispositivos no Brasil, incluindo seu trabalho com células solares. “Acho que minha maior contribuição foi mostrar que aqui, nestes países (da América Latina), dá para efetivamente implementar desenvolvimento”, conta, com orgulho. Na Poli, ela fundou e liderou o Grupo de Novos Materiais e Dispositivos, e atualmente é coordenadora geral do Laboratório de Microeletrônica (LME), onde promove uma pesquisa multidisciplinar em conjunto com o Instituto de Química para o desenvolvimento de sensores eletroquímicos de aplicação biológica e na indústria química. Segundo Inés, os dispositivos estão “indo bastante bem”.

— Como mulher nessa área é muito interessante. Naquela época era um bicho estranho. Ser mulher, física. Eu fiz um doutorado, mesmo lá nos Estados Unidos não tinha muitas mulheres nessa área, então sempre, assim… Aquela coisa estranha.

Porém, para Inés, isso nunca foi uma questão. Tendo uma mãe professora de matemática, a presença das mulheres nas exatas sempre pareceu muito natural à docente, que soube desde o início que era isso o que queria fazer. Ela conta que, quando chegou à Poli, não tinha nenhuma professora titular na engenharia — hoje, elas são nove. Então, os avanços estão acontecendo, embora ainda não tenha tantas alunas, lembra a doutora. “Mas que é difícil, é difícil. Eu pessoalmente não senti que a minha carreira foi dificultada pelo fato de ser mulher, mas sim que era uma coisa considerada um pouco fora do lugar”.