Um ano de Projeto Inspire: “um representante legítimo do esforço acadêmico”

Há um ano, começava na Escola Politécnica (Poli) da USP a iniciativa do Projeto Inspire, que viabilizou um ventilador pulmonar com baixo custo em meio a demanda nacional de  equipamentos hospitalares de combate à covid-19 

 
Raul Gonzalez e Marcelo Zuffo (da esquerda para direita), representantes da Marinha do Brasil (ao meio) e Liedi Bernucci e Dario Gramorelli (da direita para a esquerda) em coletiva de imprensa para anúncio de respiradores produzidos pela USP. (Imagem: Governo do Estado de São Paulo).

“O Inspire é uma iniciativa da Escola Politécnica frente a demanda que a pandemia da covid-19 acabou gerando. De repente, a sociedade brasileira precisava de um ventilador que pudesse ser usado em locais remotos e ao mesmo tempo na UTI “, conta o professor  do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli e um dos coordenadores do Projeto, Raul Gonzalez Lima, no vídeo “O que é o Projeto Inspire?”. 

O Inspire completou um ano no dia 27 de março de 2021, e já responde efetivamente à demanda por equipamentos hospitalares em âmbito nacional. Unidades do ventilador pulmonar foram distribuídas aos mais diferentes lugares do país como São Paulo (mais de 25 municípios), Pernambuco, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Amazonas  (Manaus e Parintins), de sul ao norte do País. 

Marcelo Zuffo, professor do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Poli e coordenador do projeto junto com Gonzalez, relatou em reunião da Congregação da Poli-USP em 18 de março, que eles possuem material em estoque para produção de 1000 ventiladores, que suprirão ainda mais a demanda por equipamento de ventilação no País. “Temos que lembrar que o único ventilador  de emergência do mundo que chegou à UTI, foi o Inspire da Escola Politécnica”. 


Toda estrutura do Projeto Inspire só foi possível com a participação conjunta de pesquisadores e voluntários da Poli, da Faculdade de Medicina (FMUSP), da Faculdade de Direito (FD), da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), da Faculdade de Odontologia (FO), da Faculdade de Saúde Pública (FSP), da Marinha do Brasil – que se responsabilizou pela montagem dos equipamentos – , dos  institutos especializados e da iniciativa privada, que viabilizaram uma resposta rápida de ciência e de inovação tecnológica para combater a pandemia, que já levou à morte de 337.364 brasileiros. 

O engenheiro Dario Gramorelli, atual Presidente da Associação dos Engenheiros Politécnicos e ex-professor da Poli, explica que o Inspire se transformou em algo muito maior do que um ventilador emergencial: “O Inspire foi, e continua sendo, um representante legítimo do esforço acadêmico, em particular da USP, para mitigar uma ameaça verdadeira à sociedade. É um agregador de esforços multidisciplinares dentro da Universidade, numa convergência muito pouco vista dentro deste ambiente acadêmico”. Dario enfatizou que o Projeto é uma quebra de paradigmas técnicos, e também um iniciador de um espírito de coletividade poucas vezes visto.

Partindo para os aspectos técnicos, o Inspire, aprovado em caráter emergencial na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde agosto de 2020,  também funciona por meio de bateria e tem nível de controle computacional sofisticado, sendo um dispositivo de ventilação mecânica, de caráter emergencial, com recursos de atendimento às necessidades básicas para pacientes com déficit de respiração, tanto para ventilação não invasiva (no jargão médico – VNI) quanto para invasiva (entubação). “O contínuo desenvolvimento do equipamento acabou resultando num ventilador extremamente competente do ponto de vista técnico, rivalizando em desempenho com os respiradores comerciais disponíveis no mercado, com a vantagem de ser extremamente simples de operar e de custo muito baixo, além de poder ser portátil e de fácil transporte”, explica Gramorelli. 


O desenvolvimento e toda produção do ventilador foi um desafio para os pesquisadores e voluntários envolvidos desde o início, porque o diferencial do protótipo era viabilizar um produto adequado e viável para o mercado, tanto econômica quanto tecnicamente. Ao longo de um ano de desenvolvimento do ventilador, foram incorporadas melhorias em componentes, na metodologia de montagem, e no software de controle, com o uso contínuo de novas tecnologias e materiais: “A versão atual, em uso e com ampla distribuição, é um produto muito superior ao que se imaginou no início do projeto”, pontua Dario. 

Dario Gramorelli, Marcelo Zuffo, Liedi Légi Bariani Bernucci e Vahan Agopyan em visita ao o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, localizado na Cidade Universitária – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens Inspire.

“Temos que lembrar que o único ventilador  de emergência do mundo que chegou à UTI, foi o Inspire da Escola Politécnica”. 

O Inspire já está sendo utilizado por diferentes hospitais do país em menos de um ano de existência, com o destaque para o atendimento à necessidade emergencial de equipamentos de ventilação em meio à crise do sistema de saúde de Manaus, caso mais notável. Saliente-se que, mesmo com a pandemia em franca propagação, ainda assim foi feito treinamento in loco pelo professor Raul Gonzalez, notadamente em Manaus e no interior de São Paulo.

Dario comenta sobre a viabilização do Inspire nesse pequeno espaço de tempo: “Fala-se muito que a necessidade é a mãe de todas as invenções. Talvez se não houvesse a urgência provocada pela pandemia, nunca teríamos algo parecido com o Inspire na Poli. Apesar de termos todos os recursos necessários, eles só foram mobilizados e produziram resultado pela catálise da necessidade premente”. 

Em condições normais, um projeto de ventilador leva de dois a três anos para ser desenvolvido e a aprovação pela Anvisa também demora. Mas pela situação de urgência o Inspire levou quatro meses para aprovação da Agência. Dario explica que foram usadas técnicas de “projeto ágil”, conceito mais moderno dentro da Engenharia, que reduziram sobremaneira os tempos de projeto, desenvolvimento, testes e obtenção de produto viável. “Grande mérito aqui deve ser deixado à equipe do CITI (Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas da USP) , que conseguiu realizar verdadeiros milagres em tão pouco tempo’’, diz Gramorelli. 

A construção de um projeto dessa magnitude, contou com a colaboração de muitos engenheiros experientes e com grande vivência na Engenharia como o professor  Raul Gonzalez Lima,  responsável pelo projeto,  que colocou em prática seus conhecimentos na área de ventilação mecânica. O desenvolvimento de uma plataforma de processadores da Poli, na área eletrônica, sob a responsabilidade do Prof. Marcelo Zuffo, se encaixou perfeitamente nas necessidades do projeto. “Em outras palavras, a Poli estava no lugar certo e na hora certa. E com as pessoas certas e, mais do que tudo, profundamente motivadas em encontrar soluções para a falta de ventiladores no mercado”, finaliza Dario. 

*O Projeto Inspire está fazendo a distribuição dos ventiladores pulmonares gratuitamente, como forma de retornar para sociedade civil todas as doações.*


Texto: Beatriz Carneiro (estagiária de jornalismo).

Revisão: Amanda Rabelo (jornalista).