Uso equitativo de gás e eletricidade diminuiria em 11% a vulnerabilidade energética das residências

É o que afirmam pesquisadores do RCGI após formatarem um mapa que mostra a vulnerabilidade energética nos bairros paulistanos e simularem o uso complementar das duas fontes de energia.

Pesquisadores do RCGI – Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (Centro de Pesquisa em Inovação em Gás), sediado na Escola Politécnica da USP, elaboraram um inédito Mapa de Vulnerabilidade Energética para Áreas Residenciais de São Paulo, que mostra quais são as áreas mais ou menos propensas a sofrerem cortes no fornecimento de energia elétrica, categorizando-as em quatro classes com relação à vulnerabilidade: muito alta, alta, média e baixa. Paralelamente, simularam um cenário em que as residências seriam servidas por gás e eletricidade em igual proporção. E compararam os resultados.

“Ao projetar esse cenário concluímos que o uso de gás e eletricidade, de forma complementar, diminuiria em 11% a vulnerabilidade energética das residências paulistanas”, afirma o coordenador da pesquisa, o geógrafo Luís Antonio Bittar Venturi. As áreas de vulnerabilidade muito alta, que no mapa representam 20,4% de todas as áreas residenciais mapeadas, no cenário de uso equitativo entre eletricidade e gás diminuem para 7%. Do mesmo modo, as áreas de vulnerabilidade alta diminuem de 37% para 28,5%. Por outro lado, áreas de vulnerabilidade média aumentam de 31,9% para 39,4% e, finalmente, as áreas de vulnerabilidade baixa aumentam de 10,7 para 25,1%. 

“O aumento do uso do gás tornaria as residências muito menos vulneráveis energeticamente, pois, havendo complementaridade entre duas fontes, na falta de uma haveria outra que asseguraria, ao menos, metade das funções domésticas que necessitam de energia.”

Ricos e pobresDe acordo com Venturi, na situação atual é possível identificar uma tendência de aumento da vulnerabilidade a partir do centro para o centro expandido, e daí para as regiões periféricas. Outra conclusão: a variação da vulnerabilidade não se relaciona diretamente com o nível socioeconômico dos distritos (maior ou menor demanda de energia), podendo haver áreas de alta ou muito alta vulnerabilidade tanto em distritos mais ricos (Alto de Pinheiros, Campo Belo e Morumbi) como naqueles de padrão socioeconômico mais baixo (São Mateus e Ermelino Matarazzo).

“Escolhemos cinco indicadores para mapear a vulnerabilidade: o tamanho da área abastecida por uma única subestação; a existência de fonte alternativa ou complementar de energia; a distância do distrito das vias arteriais; sua proximidade de áreas consideradas prioritárias no fornecimento de energia, como hospitais; e a densidade de árvores nas vias arteriais locais, já que nas áreas residenciais a distribuição de energia é feita predominantemente por rede aérea  e, portanto, vulnerável a quedas de arvores”

O cruzamento dos indicadores resultou na construção do mapa e na definição das quatro classes de vulnerabilidades citadas. “No caso do Alto de Pinheiros, Campo Belo e Morumbi, o indicador referente à densidade de árvores deve ter sido mais determinante que os outros, pois estas áreas costumam ser mais arborizadas. Outra conclusão parcial emerge ao observarmos bairros contíguos e urbanisticamente semelhantes, mas com níveis de vulnerabilidade distintos, como o Campo Limpo e o Capão Redondo. O primeiro é bem menos vulnerável que o segundo. Neste caso, o primeiro indicador foi determinante, já que Capão Redondo está inserido em uma subestação que abastece uma grande área, incluindo outros municípios como Embu das Artes. Daí sua maior vulnerabilidade.”

Por outro lado, a maior proximidade a diversos hospitais na região da Avenida Paulista pode ajudar a explicar a baixa vulnerabilidade das áreas adjacentes, abrangendo partes da Bela Vista, Jd. Paulista e Vila Mariana, além do fato de estas áreas serem bem servidas de vias arteriais.

Metodologia replicável – Outros indicadores poderão ser incluídos na medida em que a equipe obtiver dados mais precisos sobre eles. “O mapa foi criado em ambiente ArcGis, é dinâmico e pode ser alimentado com dados novos. Para nós, mais importante do que ele é a metodologia que a equipe moldou para a tarefa. Ela pode ser aplicada em qualquer cidade do mundo: basta que os pesquisadores escolham os indicadores que melhor se adaptem ao contexto estudado.”

Além disso, ele servirá de base para um estudo mais avançado que avaliará a viabilidade técnica de complementar parcialmente a energia elétrica com o gás natural. Segundo Venturi, pelo menos 50% do consumo doméstico de energia em São Paulo poderia ser convertido para gás, considerando que a cidade tem uma boa infraestrutura de distribuição. “Defendemos que a energia elétrica fique restrita à utilização em que ela é absolutamente necessária, como nos eletroeletrônicos e nos sistemas de comunicação.”

Sobre o RCGI:

O RCGI – FAPESP-SHELL Research Centre for Gas Innovation (Centro de Pesquisa em Inovação em Gás) realiza pesquisas de classe mundial para desenvolver produtos e processos inovadores, e estudos que viabilizem a expansão do uso do gás no Brasil. Sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, o RCGI é financiado com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da BG Brasil – subsidiária do Grupo Shell. O Centro reúne mais de 150 pesquisadores, de diversas instituições brasileiras, que atuam em 29 projetos de pesquisa. Saiba mais: http://www.rcgi.poli.usp.br/pt-br/