Teoria da Complexidade promove integração entre os diversos campos da Engenharia

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Em palestra no IEA-USP, o diretor da Poli-USP , professor José Roberto Castilho Piqueira, falou sobre a transposição da teoria do filósofo Edgard Morin para a atividade do engenheiro.

No século XIX, o Positivismo promoveu uma compartimentalização do conhecimento científico e a Engenharia não escapou desse processo. Agora, ela está se reorganizando para dar conta dos desafios do século XXI, em um mundo complexo que exige cada vez mais o diálogo entre as diversas áreas do conhecimento, e que vive no contexto das mudanças climáticas globais. Nesse sentido, a Teoria da Complexidade desenvolvida pelo antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgard Morin pode trazer grandes contribuições.

Interpretar a teoria de Morin, inserido-a no escopo do ensino e da prática da Engenharia, foi o tema da palestra apresentada na última sexta-feira (22/09) pelo diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), professor José Roberto Castilho Piqueira, no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), em São Paulo.

A Poli está formatando, junto com Groupe des Écoles Centrales da França, um curso de Engenharia da Complexidade, que será sediado no campus da USP em Santos, litoral de São Paulo. Segundo Piqueira, professor do Departamento de Engenharia de Telecomunicações e Controle (PTC) da Poli-USP, a Teoria da Complexidade aplicada à Engenharia implica em uma grande mudança metodológica. “Hoje, o complexo pode ser definido pelos engenheiros como algo complicado, difícil de tratar, fazer, entender. Mas um sistema complexo é muito mais do que isso”, afirmou. Trazendo os conceitos filosóficos de Morin para a Engenharia, Piqueira ressalta que um sistema complexo é definido por meio de quatro propriedades esseciais.

A primeira é de que todo sistema complexo é aberto, não pode ser visto como um objeto isolado em si mesmo, mas sim como algo que interage com seu entorno – e cujas interações devem ser sempre observadas. A segunda propriedade é a da emergência, ou seja, o comportamento ou característica do todo não é resultado de uma simples soma ou superposição das partes. A terceira é a aleatoriedade, ou seja, não há comportamentos lineares. A quarta é a incompletude: nenhum sistema lógico é completo.

A velha e a nova Engenharia – Ao falar do projeto de construção de uma ponte ou avenida, ele dá um exemplo prático sobre como projeta a Engenharia ‘tradicional’, que encara os projetos como sistemas estanques e não conectados, e como ela o faria observando a Teoria da Complexidade. Hoje, o trabalho é dividido em partes: quem projeta a ponte não vai cuidar da operação de construção e estes profissionais não vão acompanhar o comportamento da mesma quando esta estiver aberta para o uso da população.

A ‘nova Engenharia’, de acordo com os princípios da complexidade, demanda outros elementos que não apenas projetar as colunas, calcular a força do vento, definir quais e a quantidade de materiais necessários etc. As várias etapas do projeto de uma ponte precisam estar conectadas, o que demanda uma formação de profissionais capazes de atuar em equipe e de forma multidisciplinar.

É preciso saber os impactos econômicos, sociais, ambientais e financeiros – algo que é cada vez mais imposto pelas questões da sustentabilidade. “Devemos considerar quantas pessoas serão removidas do local onde a ponte vai ser instalada, para onde essas pessoas podem ser realocadas, qual o impacto de geração de poluição na região por conta do aumento do tráfego, se esses elementos tornam o projeto tão custoso que é melhor abandoná-lo”, enumerou. Também é preciso considerar o pós-construção, ou seja, a manutenção preventiva e corretiva, se necessária, e a ‘desengenharia’, ou seja, a possibilidade de um dia aquela obra precisar ser removida ou destruída.

Segundo Piqueira, o que possibilita a execução de projetos utilizando-se da complexidade são as novas ferramentas trazidas pela Teoria da Informação e a Ciência da Computação – especialmente pela Big Data, que permite o armazenamento e tratamento de forma mais integrada de um grande volume de dados, em tempo real, e o desenvolvimento de simulações cada vez mais completas.

Uma forma de trazer a Complexidade para a prática da sala de aula, na visão do docente, é promover cada vez mais os trabalhos em grupo, executando projetos que impliquem a presença de pessoas de várias formações – da Engenharia, Economia, Medicina. Na Poli-USP duas iniciativas nesse campo são o InovaLab e o OCEAN, sediados no Departamento de Engenharia de Produção (PRO), onde alunos da Poli trabalham em parceria com docentes e alunos de outras áreas para desenvolver projetos inovadores e atuar de forma empreendedora.

Para Piqueira, a maior dificuldade em implementar o pensamento complexo nas práticas didáticas e profissionais – ou seja, na academia e no setor empresarial – está nas pessoas. “É preciso que elas saiam da sua zona de conforto. Quando propomos a Complexidade, a primeira pergunta do professor é o que vai ocorrer com sua carga didática, com a disciplina que ele ministra”, afirmou.