Mulheres com carreira de sucesso na Engenharia são exemplos de incentivo para estudantes

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Em mesa-redonda na Poli-USP docentes discutem questão de gênero na Engenharia, e como enfrentar casos de discriminação.

Procurar e divulgar amplamente os bons exemplos de mulheres que se destacam na carreira de Engenharia é uma das ações práticas que podem ajudar a despertar o interesse do sexo feminino pela área e, dessa forma, ampliar a presença das mesmas nesse campo do conhecimento. Essa foi uma das sugestões apresentadas pelas participantes da mesa-redonda “Mulheres na Engenharia”, realizada nesta terça-feira (19/09) na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), em São Paulo. O evento integra a programação da IV Semana de Engenharia Elétrica e de Computação (IV SEnEC), promovida pelo Centro de Engenharia Elétrica e de Computação da Poli, que se encerra na sexta-feira.

A mesa-redonda teve a intermediação da vice-diretora e professora do Departamento de Engenharia de Transportes da Poli-USP, Liedi Legi Bariani Bernucci, primeira mulher a ocupar um cargo na Diretoria da Escola. Como debatedoras participaram as professoras Cintia Borges Margi, do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS), e Roseli de Deus Lopes, do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos (PSI), além da engenheira politécnica Renata Bartoli de Noronha, que atua em captações de recursos em desenvolvimento imobiliário no Credit Suisse (CSFB).

O resultado do debate mostrou que, apesar do machismo que ainda permeia a sociedade de uma forma geral, a discriminação, geralmente implícita, é algo que pode ser lidado com uma postura mais propositiva por parte da mulher. E que a Poli, como instituição, tem tido um papel ativo para combater este tipo de postura.

Vocês foram vítimas de preconceito na Engenharia da Poli? Renata Noronha foi taxativa na resposta. Não. “Sempre tive demanda muito grande por performance, vivi em um ambiente de competição e cooperação muito forte. Essa questão de se sentir discriminada está muito relacionada a não se deixar discriminar. Nunca me senti discriminada”, disse.

Já Roseli Lopes ponderou que viveu algumas situações no passado que lhe pareceram normais na época, mas hoje, ao revê-las, fica em dúvida sobre se foi vítima de machismo – como, por exemplo, uma vez em que tirou nota alta em uma disciplina e percebeu que os colegas ficaram incomodados. “Estávamos muito no piloto automático no passado, inclusive com relação a outros problemas além de gênero, como bullying. Hoje, as pessoas não aceitam muitas coisas que antes toleravam”, afirmou.

Cintia Margi também não se recorda de ter sofrido preconceito, de forma explícita, mas lembrou de algumas brincadeiras discriminatórias. “De modo geral, eu ouvia, não gostava, mas não criava antagonismo com os colegas”, contou. “Esse tipo de brincadeira existe há muito tempo e continua existindo, mas acho que, com o passar da idade, criamos uma casca”, prosseguiu. “Hoje é mais comum as pessoas deixarem claro quando não gostam de algo”, acrescentou.

Casos de brincadeiras discriminatórias de professores ou de alunos foram citados pelo público. Liedi Bernucci lembrou que a Poli tem um canal para que esses casos sejam reportados: a Ouvidoria. “Temos acolhido as reclamações, e os nomes são preservados”, destacou ela. “É preciso pontuar essas questões com tranquilidade, mas com firmeza.”

Maior exigência – A mulher precisa se esforçar mais do que o homem para não duvidarem de sua capacidade e para ter mais oportunidades na carreira? Para Renata Noronha, performance é uma obrigação quando se trabalha em um ambiente norteado pela meritocracia. “Na medida em que você entrega resultados consistentes, você conquista seu espaço”, afirmou.

A executiva considera, porém, que as mulheres são pouco representadas nos cargos de liderança porque, quando constituem família, acabam acumulando muitas tarefas, o que torna difícil entregar resultados iguais aos de um homem sem as mesmas responsabilidades. “A empresa quer resultado. Se uma pessoa acumula funções fora do ambiente de trabalho, ela tende a entregar menos e tem dificuldade de assumir cargos mais elevados”, continuou.

Em sua opinião, o que deve mudar é a posição do homem, que também precisa assumir responsabilidades familiares, dividindo as tarefas com as mulheres. “As mulheres muitas vezes tomam a dianteira e assumem tarefas sem dar chance ao homem para ele fazer isso”, acrescentou. Para ela, as mulheres precisam saber dividir as tarefas e construir essa visão de compartilhamento na educação dos seus filhos.

Cintia Margi lembrou que, apesar de as metas serem iguais e explícitas na carreira acadêmica, a cobrança é desigual. Ela citou um estudo no qual foi constatado que no processo de revisão de artigo científico duplo cego – revisor e autor não sabem quem são – o resultado é diverso quando se sabe que primeiro autor do artigo é uma mulher.

O elemento cultural, na avaliação das participantes, ainda é um empecilho para ter mais mulheres interessadas em Engenharia. Mulheres não são incentivas a gostar de Matemática e outras disciplinas de Exatas; acabam sendo direcionadas para as de Humanas e Biológicas. E o problema não se reflete apenas na Engenharia da Poli. Liedi Bernucci contou que, depois de formada, foi estudar na Escola Politécnica Federal de Zurique, na Suíça. “Na época, eram 50 pessoas no instituto e não havia nenhuma engenheira. Hoje, apenas 8% dos alunos são mulheres lá, um indicador mais baixo do que o da Poli”, disse.

Mudança em curso – Roseli Lopes contou que houve um aumento da presença de projetos submetidos por meninas na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) depois de uma campanha que destacou a presença do sexo feminino no evento. “Precisamos elaborar mais campanhas junto às escolas de ensino fundamental e médio para mudar essa realidade. As próprias alunas da Poli podem voltar a suas escolas e fazer isso”, sugeriu.

Ela também defendeu que a Engenharia seja divulgada junto às escolas como uma atividade que tem profissionais dedicados a resolver problemas da sociedade, e não como uma área técnica e difícil. Cintia Margi também endossa este tipo de iniciativa. “É importante dar visibilidade para mulheres que chegaram a cargos importantes, mostrando que é possível, sim, desenvolver uma carreira.” 

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