Aluno da Poli USP tem projeto de mestrado aplicado no Paraná

Quando o geólogo Pedro Henrique Vogt Silveira, aluno da Universidade de São Paulo, iniciou seu mestrado em 2015, não sabia que caminho iria trilhar até aqui. Ele que morava em São Paulo e trabalhava na Votorantim Cimentos, iniciou o mestrado em Engenharia de Minas na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com foco em Lavra a Céu Aberto, orientado pelo Prof. Dr. Giorgio Francesco Cesare de Tomi. A banca de sua defesa contou com o Prof. Dr. José Luiz Albuquerque Filho, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), e a Prof.ª Daniela Neuffer, Institute for Sanitary Engineering, Water Quality and Solid Waste Management, Universidade de Stuttgart, Alemanha.

Enquanto morou na capital paulistana, conviveu com a extrema estiagem em toda Região Metropolitana de São Paulo que durou de outubro de 2013 até fevereiro de 2014. No entanto, os meses sequentes, mesmo com a atenuação desses eventos, não foram suficientes para recompor os níveis dos reservatórios. São Paulo começou a viver então uma crise hídrica sem precedentes. O Sistema Cantareira, que é composto por diversos reservatórios interconectados, chegou a atingir 5% do seu volume de água. Os reservatórios só normalizaram no final de 2015 com as chuvas de primavera.

No ano seguinte, 2016, Pedro Henrique fora chamado para assumir o concurso público na Companhia de Saneamento do Paraná (SANEPAR), entendia naquele momento, que deveria mudar o foco da sua pesquisa e contribuir também para com a empresa de saneamento. Dessa forma, veio a ideia de como a mineração poderia contribuir com o abastecimento público: utilizar os lagos formados em pedreiras como reservatórios de emergência. 

       Visão geral do Lago de Mina da Pedreira Orleans em Curitiba.                                                                      (Foto: acervo pessoal)

Pedro lembrou que o governo de São Paulo promoveu uma pesquisa de ideias para contornar a situação. Essa pesquisa foi realizada online e contou com ideias de diversas instituições de ensino, empresas do ramo, além da sociedade como um todo, onde foram apresentadas soluções como perfurações de poços, transposições de rios, tecnologias de tratamento, dentre outras. No entanto, verificou que não havia nada relacionado a ideia que imaginava.

As pedreiras são comuns nos arredores das grandes cidades, São Paulo por exemplo contava com mais de quarenta pedreiras e, muitas vezes, a exploração de rocha se dá até profundidades que intercepta o lençol freático, dessa forma, após a atividade de lavra ser interrompida, esses locais recebem contribuições do aquífero além da água da chuva. Com os anos, o nível de água pode ascender até atingir volumes consideráveis e formar lagos imensos que podem servir como reservatórios de água.

Em Curitiba o cenário não é diferente, a capital paranaense conta também com diversas pedreiras e, destas, algumas possuem lagos consideráveis. Dessa forma, o geólogo começou a realizar sua pesquisa com apoio da empresa, amigos e familiares. Foram quase três anos e, destes, dois anos indo a campo quase todos os fins de semana a fim de garantir amostragens a cada estação do ano. 

A pesquisa demandou infraestrutura fornecida pela SANEPAR, tal como aparelhos de medição de parâmetros de qualidade de água e a embarcação da empresa. (Foto: acervo pessoal).

Ele nos conta que as pedreiras possuem uma imensa importância para a sociedade, são delas que provém as pedras britas necessárias para a construção civil e, portanto, a mineração, assim como o saneamento, é uma das atividades de base para uma sociedade moderna e bem estruturada. Além da pedra britada em diversos tamanhos, se pode obter areia artificial e pó de rocha e, ainda, dependendo da natureza da rocha, insumos como o corretivo agrícola advindo de rochas calcárias. 

Uma pedreira pode operar por décadas e, se bem planejada, pode contribuir com a sociedade mesmo depois de encerrada. O seu trabalho apontou justamente algumas soluções encontradas para áreas de mineração que encerraram suas atividades, dentre elas, citou exemplos de Curitiba, como o Parque Zaninelli (Universidade Livre do Meio Ambiente) e o Parque Tanguá, que de antigas pedreiras, se tornaram parques muito visitados tanto por turistas como por curitibanos.

Algumas pedreiras ganham funções como aterros sanitários quando são isentas de água, outras são simplesmente abandonadas e causam incômodos a vizinhança por atrair, inclusive, atividades irregulares. Por outro lado, muitas pedreiras que formam lagos em seu interior, podem ganhar destinos nobres junto a sociedade, tal como reservas de água de grande escala e funções paisagísticas.

Sua dissertação de mestrado, “Lago de minas: uma alternativa para o abastecimento público?”, abordou a destinação dessas pedreiras como reserva estratégica para situações de escassez hídrica. O trabalho, concluído em 2018, trouxe resultados interessantes tanto para São Paulo como para Curitiba. Na primeira, apontou a presença de quarenta pedreiras que, somadas, poderiam atender mais de dois milhões de habitantes ao longo de um mês. Já para a capital paranaense, o geólogo monitorou a qualidade da água das pedreiras no seu entorno e obteve resultados satisfatórios.

Seu trabalho obteve um maior reconhecimento quando premiado em dezembro de 2018 com o 1º lugar na categoria Lavra a céu aberto do “1° Concurso de Projetos de Destinação de Áreas Mineradas para Utilização Econômica e Social”, promovido pela Secretaria de Energia e Mineração do Estado de São Paulo, em parceria com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

 

 

A pesquisa do mestrando da Poli USP  resultou no 1º lugar no “1º Concurso de Projetos de Destinação de Áreas Mineradas para Utilização Econômica e Social”. O mestrando Pedro Henrique (ao meio) está com o Prof. Dr. Giorgio de Tomi da Poli ( a esquerda) e o Prof.  José Luiz Albuquerque Filho do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (a direita). (Foto: acervo pessoal).

 

Para Curitiba o projeto foi além do papel, quando o cenário climático apontou uma estiagem sem precedentes, a pior seca já registrada no estado do Paraná, o trabalho estava aguardando para de plano B se tornar um plano A no contingenciamento da crise hídrica. Das pedreiras estudadas, uma possuía as condições ideais de captação, a Pedreira Orleans contava com um volume expressivo, 1,7 bilhões de litros de água de ótima qualidade e localizados a apenas 150 metros do Rio Passaúna.

A logística apontada pelo pesquisador era simples: bombear e lançar a água da pedreira através de adutoras até o leito do rio para que ele se encarregasse do trabalho. O ponto de lançamento está localizado a 7,5 km a montante do reservatório que leva o mesmo nome e possui uma captação da SANEPAR.

No dia 03 de julho, exatamente as 21h, foi realizado o primeiro teste do bombeamento. No entanto, foi no sábado dia 04 que a bomba de 160 cavalos foi colocada em operação com uma vazão de 150 l/s. Com esta vazão a pedreira poderá abastecer o reservatório do Passaúna por cerca de cinco meses.

Segundo o Diretor de Operações da Sanepar, Paulo Dedavid, afirma que esta é mais uma medida adotada pela Companhia neste período de estiagem para garantir reservação do sistema de abastecimento. “Esta captação, por si só, é equivalente a 12 dias de funcionamento da ETA Passaúna”, disse o diretor.

E os estudos não encerraram, agora Pedro Henrique trata do lago de mina tal como um poço tubular profundo e, assim como em outras captações da GHIG, analisa o rebaixamento do nível de água através de medidas de nível, vazão e tempo de bombeamento, a fim de determinar a real contribuição do aquífero. Pedro afirma que a pedreira está localizada em rochas conhecidas como embasamento cristalino que permitem a circulação do lençol freático por meio de fraturas.

A novidade teve grande repercussão tanto no meio acadêmico como na mídia de todo o estado do Paraná. “É uma grande satisfação ver meu trabalho contribuindo com o abastecimento de água para milhares de pessoas!”, diz Pedro Henrique, que participou da pesquisa a implantação, e agora, Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo.