Pesquisador da Poli une engenharia e infectologia em estudos para o combate à pandemia

Carlos Augusto Prete Junior faz parte da equipe do projeto Cadde, comandado pela Dra. Ester Sabino, que busca analisar os dados do coronavírus no Brasil de forma interdisciplinar

A pandemia do novo coronavírus evidenciou um cenário com diversas possibilidades de pesquisa e desenvolvimento aos engenheiros da Escola Politécnica (Poli) da USP, que trabalharam, com especialistas de diferentes áreas do conhecimento, desde a criação de um ventilador mecânico emergencial até a distribuição massiva de equipamentos de segurança individual para agentes de saúde. Um dos caminhos destacados pela situação emergencial foi a análise de dados: para o combate efetivo da covid-19, é necessário transformar dados em informações em tempo real, desafio este que cabe à engenharia. 

Diferentes caminhos da Engenharia: o trabalho de dados com epidemias

Carlos Augusto Prete Júnior é engenheiro, formado pela Poli, e atualmente desenvolve seu doutorado na Escola como integrante do grupo Cadde

O trabalho conjunto da engenharia elétrica com a infectologia já esteve presente em diversos artigos importantes, como a identificação genômica da origem das infecções no Brasil no começo da pandemia, e, mais recentemente, o estudo do caso das infecções em São Paulo e Manaus, que apontou uma taxa de 76% de infecção na cidade do Amazonas. Carlos Augusto Prete Junior, doutorando da Poli e integrante do projeto Cadde (Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus), conta que começou a trabalhar na decodificação de dados da pandemia ainda em março de 2020, quando seu grupo elaborou um dashboard para o Ministério da Saúde ajudando a entender o funcionamento da pandemia, e publicou um artigo explicando como o vírus se espalhou pelo Brasil.

“Do ponto de vista de engenharia, o que fizemos é mais a parte de análise exploratória dos dados. É como se fosse Big Data, temos um monte de dados e precisamos extrair informações deles”, explica o pesquisador. Prete detalha que grande parte desse trabalho inicial é mais voltado para a medicina, “a engenharia de verdade começou a entrar depois”, com os estudos sobre os intervalos de infecção. 

O primeiro artigo a trabalhar com foco na engenharia de dados e no processamento de sinais foi sobre serial interval. O conceito é simples: o nome faz referência ao intervalo de tempo entre a pessoa que infectou e a pessoa que foi infectada pelo coronavírus sentirem os primeiros sintomas. “Se eu infecto você, a diferença de tempo entre você sentir sintoma e eu sentir sintoma é o serial interval. Nesse artigo, usamos bastante técnicas da engenharia para entender qual a distribuição desse tempo serial”. Agora, o estudo originou outro, que partirá do intervalo de tempo entre sintomas para obter o intervalo entre infecções — o generation interval, dado valioso para quantificar a reprodução do vírus e, portanto, para o controle da pandemia. 

Inúmeros trabalhos foram realizados a partir dos estudos iniciais, como o mais recente deles sobre a situação da pandemia em Manaus, cidade que recentemente vem sofrendo um colapso no sistema de saúde com a alta nas infecções de coronavírus. O estudo recebeu bastante destaque na mídia e nas comunidades acadêmica e científica, e agora está sendo ampliado: além de São Paulo e Manaus, que figuram no primeiro artigo, seis outras cidades estão tendo seus dados de sorologia analisados pela equipe do Cadde, que divulgará os resultados em nova publicação. 

“Nesse sentido, isso é puramente engenharia, puramente processamento de sinais. Você tem dados que precisam ser processados para obter informações”
Carlos Prete
Pesquisador

“O trabalho é em tempo real: a gente recebe os dados, já tem que processar e mandar os resultados”, explica o engenheiro sobre o dia-a-dia em um grupo de pesquisa que atua na linha de frente da produção de conhecimento para enfrentar a Covid-19. “A nossa equipe que faz a coleta dos dados é muito boa, eles fazem muito rápido. Não tem fim de semana, não tem feriado, não tem nada. Chegou o dado eles já processam e mandam para a gente”, completa. 

Sobre o método de trabalho e o desenvolvimento científico impulsionado pela pandemia, Prete conta que a ciência evoluiu muito em termos de epidemiologia e modelos epidemiológicos. “Se pensar nos modelos que existiam há um ano atrás, a gente evoluiu muito. As pessoas estão sabendo usar melhor os modelos também, inclusive ajudando a entender melhor outras doenças que não só a covid-19”, revela. 

O engenheiro enfatiza que todos os pesquisadores, tanto os que fazem pesquisa teórica quanto os que fazem pesquisa prática, estão contribuindo muito na pandemia. As pesquisas desenvolvidas no Cadde são aplicadas, então o grupo de estudiosos não desenvolve muitos métodos teóricos, focando na aplicação e adaptação de modelos existentes. “Eu, por exemplo, estou usando o artigo de um cientista que deve ter passado anos desenvolvendo esse método para a epidemiologia. Ele foi fundamental para o resultado que a gente está tendo hoje. Por isso, eu acho muito importante entender que o pessoal que faz a pesquisa teórica é fundamental”, finaliza.