Alunos da Poli realizaram workshop sobre a Década dos Oceanos

Nesta quinta-feira, 10 de junho de 2021, os alunos de graduação da disciplina Introdução à Engenharia (PNV3100) dos cursos de engenharias de produção, mecânica e naval da Escola Politécnica (Poli) da USP realizaram o workshop online “Escola Politécnica em prol dos Oceanos”, com a temática da Década do Oceano, promovida pela Organização das Nações Unidas. O workshop foi transmitido pelo canal do Youtube da Poli

O workshop foi iniciado pela apresentação dos estudantes que organizaram o evento, que explicaram a importância do tema. Para abordar sobre o que será trabalhado nesta Década e os desafios que almejam ser alcançados, foi apresentado o vídeo feito por Salvatore Aricó, chefe da Seção de Ciências Oceânicas da Comissão Oceanográfica da Unesco. No vídeo, Aricó comentou sobre os problemas causados pela contaminação dos oceanos e suas consequências. 

O vice-diretor da Poli, professor Reinaldo Giudici, representou a diretoria da Escola no workshop, e falou sobre a importância da disciplina Introdução à Engenharia (PNV3100), já que ela permite que os futuros engenheiros tenham contato com problemas reais logo no primeiro ano,  os preparando, assim, para situações que serão recorrentes em suas carreiras. 

O primeiro painel do evento foi “O papel da mídia na conscientização da sociedade acerca dos impactos humanos sobre os oceanos”, com a participação do comunicador e ex-aluno da Poli, Marcelo Tas. O painel foi iniciado com a apresentação do convidado e de sua carreira. Tas afirmou acreditar que a nova geração de jovens é mais questionadora, e que provavelmente deve passar esse sentimento para as outras gerações.

Os estudantes fizeram uma série de perguntas para Marcelo. Em suas respostas, o apresentador comentou que tem uma longa relação com o mar e que, hoje, os problemas oceânicos não são algo que as pessoas percebem apenas pelas pesquisas e dados. Segundo ele, os problemas do oceano estão vindo até os seres humanos, o lixo jogado nos mares aparece em grandes quantidades nas praias.

Tas esclareceu que para buscar soluções para os problemas oceânicos é necessário que haja diversidade de ideias, vieses e pessoas neste processo. Para ele, é preciso interpretar os dados por vários pontos de vista para entender as problemáticas. Marcelo também respondeu que para abordar nas mídias a poluição dos mares, é importante que se tratem sobre a complexidade dos oceanos e que não se tente uma abordagem agressiva. Segundo Tas, é necessário entender as várias realidades brasileiras para transmitir a todos as questões oceânicas. O apresentador afirmou que é impossível solucionar essas problemáticas de uma vez e individualmente. Para ele, é preciso que haja a união entre os países e as pessoas com esse objetivo que será realizado aos poucos.

Marcelo Tas terminou a sua participação com um recado para os futuros engenheiros. O apresentador incentivou que os estudantes tenham coragem para enfrentar os seus medos sozinhos. Já que, segundo Tas, se não houver medo de um próximo projeto, ele não é tão grande e desafiador assim.

Em seguida, Lenita de Freitas Tallarico, pesquisadora do Instituto Butantã e presidente da Sociedade Brasileira de Malacologia (estudo de moluscos), ministrou a palestra “Exploração dos recursos do oceano e seus impactos”. Ela começou falando sobre a importância e a representatividade dos oceanos para a vida do planeta Terra. A bióloga marinha explicou as características litorâneas do Brasil e a relação do País e de sua população com o mar. O Brasil tem uma das maiores representatividades de biosfera marítima e uma a parte significativa da população vive próximo do mar e necessita economicamente dele para viver.

Lenita elucidou que todas as atividades humanas realizadas no mar impactam nos oceanos. Assim, os mares sofrem com problemas causados pela humanidade há milênios, mas essas sequelas aumentaram com a Primeira Revolução Industrial e vem ganhando força com o avanço das Revoluções Tecnológicas. Segundo a pesquisadora, é necessário que as pessoas mudem suas atitudes, visto que todos os humanos geram impactos no oceano e são potenciais devastadores, por meio da emissão de metano, produção de lixo que atinge os mares e outras atividades.

Tallarico continuou a palestra explanando sobre outros problemas que são recorrentemente causados no ambiente marinho, como poluição, destruição de manguezais e da vida marinha, entre vários outros. Esses impactos são causados majoritariamente pela exploração dos oceanos, por meio da exploração de gás natural e petróleo, refinamento do sal de cozinha, entre outros.

A bióloga diferenciou o extrativismo e o cultivo da vida marinha e os impactos dessas duas ações. A pesca é uma atividade extrativista em que são retiradas espécies marinhas de seu ambiente, e não há devolução ou reposição. Nesta atividade, o impacto para o ambiente aquático é maior, principalmente quando é feita a pesca comercial ou profissional. Já, a aquicultura é o cultivo de animais marinhos para a comercialização, ou seja, as espécies são criadas para a alimentação, assim, as sequelas para o ambiente marinho são menores, mas ainda existentes.

Ela também explicou sobre novas soluções que estão sendo criadas para haver menos impactos no uso do ambiente marinho pelos homens. Além de ações que devem ser realizadas como prioridade para solucionar os problemas marinhos, como conhecer os recursos que estão sendo extraídos e suas funções, estudos e planejamento da viabilidade técnica e econômica. Todas essas atitudes devem ser tomadas, segundo Lenita, como a perspectiva de conter o desperdício de recursos marinhos, a contaminação das águas e a degradação dos ambientes aquáticos.

A bióloga finalizou a palestra comentando que a engenharia tem um grande papel nos estudos sobre o oceano e na criação de soluções para combater a degradação marinha.

A professora Márcia Bícego, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, deu continuidade ao evento com a palestra “Os impactos dos centros humanos para os oceanos”. Ela começou falando sobre a concentração populacional nas costas marítimas e suas consequências, como a poluição marinha. Vários materiais são responsáveis pela poluição, entre eles o Plástico.

Márcia comentou sobre o impacto dos plásticos que são muito usados pela população e que são descartados em grandes quantidades nos oceanos. Segundo a pesquisadora, desde 1950, 8,2 trilhões de quilos de plástico foram produzidos e 95% deles foram descartados após o primeiro uso. Assim, muitos quilos de plástico são descartados nos mares.

Em razão das correntes marítimas, há a formação de ilhas de plásticos, ou seja, no centro das correntes, no qual as águas são mais calmas, há o acúmulo de muito plástico. Além disso, as correntes marítimas também fazem com que os plásticos sejam levados para regiões afastadas dos centros urbanos, como a Ilha de Trindade, onde fica a Praia do Lixo, a qual é tomada por esses resíduos.

Os plásticos também causam problemas para os animais marinhos, que podem se prender a esses objetos, dificultando seus desenvolvimentos, ou se alimentar dos plásticos, assim, esses animais não conseguem mais se alimentar e acabam morrendo por inanição.

A professora Bícego finalizou a fala sobre o plástico exibindo soluções que estão sendo seguidas para combater a poluição marinha por plástico, como barcos coletores desses objetos e leis que impedem o uso de plástico.

Márcia deu continuidade a sua fala explicando sobre a poluição dos oceanos pelo Petróleo. Ela relatou sobre os derrames de petróleo e suas consequências. Também explicou que no Brasil,  há os Atlas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo, que são mapas feitos para mostrar rotas que o Petróleo pode fazer, caso haja um derrame. A professora encerrou sua participação apresentando as principais fontes de contaminação de Petróleo nos oceanos.

A última palestrante foi a professora Eliane Octaviano, especialista em direito marítimo, que apresentou a palestra “A Década dos Oceanos, desenvolvimento sustentável e a economia azul”. A professora tratou sobre os desafios que a indústria de transportes marítimos, conhecida como indústria shipping, está enfrentando ou enfrentará nas próximas décadas.

Eliane iniciou a sua participação dissertando sobre o que é o transporte marítimo sustentável, que é o transporte que cumpre sua função econômica, mas sem que haja impactos para o meio ambiente.

Em seguida, Octaviano falou sobre os três desafios da sustentabilidade da indústria shipping. O primeiro é a Agenda 2030, assinada em 2015, que é composta pelos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas correspondentes. O segundo é a Década do Oceano, que foi criada pela ONU, com o intuito de incentivar o desenvolvimento da ciência oceânica global. O último é a BR do Mar que é o projeto de lei 4.199/2020 ou Programa de Política Pública Federal de Estímulo ao Transporte de Cabotagem, esse projeto visa várias diretrizes, entre elas a sustentabilidade.

A advogada aproveitou para explicar que o direito marítimo não trabalha apenas com controle e leis sobre transporte marítimo, mas como todo o funcionamento e uso dos oceanos, incluindo sua conservação.

A professora também abordou os danos aos meios marítimos causados pelos meios de transporte, 93% desses danos são causados por erros humanos. Ela apresentou acidentes de navegação que ocorreram pelo mundo e causaram danos ambientais.

Eliane finalizou sua fala comentando que a produção de petróleo e gás no Brasil está crescendo e, com isso, há também o aumento da circulação de navios e da instalação de plataformas. Segundo a especialista, é necessário que haja um programa com leis e medidas de prevenção sobre questões de segurança e sustentabilidade para evitar futuros acidentes. 

O evento foi encerrado com uma roda de perguntas e respostas mediada por Tássia Biazon, bióloga e jornalista científica. Na roda, as palestrantes Lenita, Márcia e Eliane responderam perguntas da mediadora e do público sobre diversos temas, como a trajetória de suas carreiras, questões ambientais e soluções sustentáveis. 

Assista ao workshop na íntegra aqui.