Ex-alunos da Poli criam empresa para vivenciar engenharia na prática

Cálculo diferencial e integral, álgebra linear, física, mecânica e muitas outras disciplinas. A jornada que leva um estudante de engenharia da Escola Politécnica (Poli) da USP ao seu diploma envolve uma diversidade de matérias, gerais e específicas, em mais de 4 mil horas de aula. Ao se formar, os engenheiros têm oportunidades que vão além da sua área, sendo muito requisitados por empresas de diferentes setores. Interessados em colocar em prática seus cálculos e conhecimentos sobre engenharia naval, transformando números em modelos matemáticos,  quatro politécnicos criaram uma empresa para colocar em prática o que aprenderam em sua graduação, e o que estavam pesquisando durante a pós.

O professor Kazuo ressalta que o caminho existente não pode ser só o de ser empregado de uma empresa, como pensam muitos alunos. “Há como empreender e achar lacunas e oportunidades existentes em quase todas as áreas de engenharia. O Brasil não pode ser apenas fabricante de produtos usando os projetos criados no exterior. Nossos formandos são capazes de competir com os melhores engenheiros de criação de qualquer país do mundo, então eles precisam ter esta oportunidade e aplicar o que eles aprenderam na Escola”.

Felipe Ruggeri, um dos sócios fundadores da Argonáutica, começou a aplicar a engenharia naval, na prática, um pouco antes do surgimento da empresa, por meio de seu doutorado. A ideia do doutorado de Ruggeri era transformar tecnologias que estavam sendo desenvolvidas na academia em produtos para o usuário final. “Pegar alguma coisa que é super tecnológica e complexa, e simplificar para que o usuário pudesse usar. Para que não fosse aquela ferramenta do cientista no laboratório, que só ele sabe usar e todo mundo tem medo de se aproximar”, explica Felipe. O objetivo do doutorado era facilitar o uso dessas ferramentas para auxiliar o trabalho dos operadores portuários.

Os outros sócios da empresa também começaram a trabalhar com as utilizações práticas da engenharia naval no período da pós-graduação, trabalhando no Laboratório Tanque de Provas Numérico (TPN) da Poli, um dos centros de referência de pesquisa no Brasil na indústria naval e oceânica. Neste período, desenvolveram, junto ao laboratório, várias tecnologias e metodologias que contribuíram para o avanço da indústria naval.

O nascimento da Argonáutica – A partir destes projetos, os fundadores perceberam a importância de unir o conhecimento teórico da Poli com as necessidades práticas da indústria naval. Assim, nasceu a empresa Argonáutica, com o intuito de ser o elo entre o conhecimento desenvolvido na universidade e a indústria da área de infraestrutura. Segundo os sócios, esse setor estava muito defasado na época da fundação da empresa.

Com isso, projetos desenvolvidos pelos sócios fundadores, como os projetos realizados por Felipe no doutorado, foram implementados pela Argonáutica no cotidiano dos usuários dos portos, como os Sistemas C3OT-REDRAFT e Medusa, que levaram os prêmios Antaq de Projetos Inovadores 2017 e 2019, respectivamente. “Acho que o grande sucesso que se vê hoje é o usuários conseguirem utilizar isso na tomada de decisão. Acho isso uma coisa bem satisfatória, daquilo que você trabalhou bastante. Eu acho também que tornar o Brasil um pouco mais próximo do que é feito lá fora”, comenta Felipe sobre as conquistas da Argonáutica.

Os projetos da empresa – O sistema Medusa desenvolvido pela Argonáutica é uma tecnologia que estima as janelas operacionais dos portos, por meio do estudo do comportamento das embarcações durante a atracação.

Já o sistema ReDRAFT é uma tecnologia, desenvolvida pela Argonáutica, para o planejamento da navegação, que objetiva o melhor aproveitamento das janelas das marés e as condições meteorológicas, aumentando a segurança do tráfego naval.

Além desse projetos, a Argonáutica já desenvolveu mais de 200 projetos em diversos seguimentos, como  análises de engenharia, simulações computacionais, desenvolvimento de sistemas e ferramentas customizadas, aplicações de inteligência artificial com base de dados, reprodução de acidentes ou incidentes, análises de risco e desenvolvimento de sistemas de suporte à decisão operacional.

A importância das disciplinas da Poli para o mercado de trabalho – “Hoje, depois de percorrer parte do processo fica mais claro como as aulas teóricas do ciclo básico da Escola são úteis. As aulas do biênio [período inicial do curso de engenharia] são as aulas básicas de formação”, declara Ruggeri. Muitos projetos desenvolvidos pela Argonáutica começaram por equações ensinadas no Biênio. “As aulas são muito importantes, porque ensinam você como construir um modelo, como calibrar e validar ele. E também depois conseguir avaliar os resultados, que é uma das tarefas mais importantes”, detalha Felipe.

“O importante é o primeiro passo, que é onde você consegue a base. Você precisa acreditar mesmo que, lá na frente, aquilo vai ser útil, embora, às vezes, no primeiro momento, muitos não consigam perceber”, defende Ruggeri. Ele também acrescenta que, por isso, a iniciativa do professor Kazuo Nishimoto de incentivar os alunos a trabalharem com aplicação da Engenharia Naval é tão importante. “Isso abre bastante a cabeça, porque você percebe que aquilo, que está na sala de aula, não é só uma disciplina, que você tem que estudar para passar uma matéria e conseguir ter o diploma, aquilo se insere dessa forma no projeto é importante para a embarcação”, completa Felipe. Ele finaliza falando que é possível trabalhar na aplicação da área de formação e realizar muitos projetos inovadores.