Pela segunda vez este ano, fotografia astronômica de aluno da Poli é selecionada pela NASA

O aluno do quinto ano de Engenharia de Produção na Escola Politécnica (Poli) da USP, Gabriel Rodrigues Santos, tirou a foto astronômica selecionada para o NASA Astronomy Picture of the Day (APOD) do dia 1º de outubro de 2021. Ele já havia tido um trabalho  selecionado em 26 de abril de 2021

O Astronomy Picture of the Day é um site mantido pela NASA e a Michigan Technological University, o qual expõe a cada dia uma nova fotografia do cosmo, junto a uma explicação sobre a imagem escrita por um astrônomo profissional.

Confira abaixo o depoimento de Gabriel, na íntegra.

“Para registrar uma imagem como essa é preciso técnicas específicas, dedicação, e um bom local. Junta aspectos científicos, técnicos, da engenharia e da arte.

Engana-se quem pensa que é preciso um imenso telescópio para registrar uma foto assim. No caso desta imagem, o equipamento utilizado foi majoritariamente fotográfico: uma câmera DSLR e uma lente fotográfica de 135mm, que costumam ser usados para fotografar pessoas. É um equipamento relativamente acessível, que permite a captura de uma grande região do céu. O campo de visão da imagem é muito amplo – caberiam mais de 30 luas cheias em sua diagonal! 

Foto do equipamento utilizado por Gabriel.

Porém, é preciso compensar o movimento de rotação da Terra durante as longas exposições, com um equipamento chamado montagem equatorial. Nesta imagem, foi utilizada uma montagem motorizada compacta. O eixo no qual a câmera vai acoplada, que deve ser precisamente alinhado, executa uma revolução por dia, na direção contrária do nosso Planeta. Assim, para a câmera, as estrelas ficam “paradas”, permitindo exposições longas que capturam a tênue luz das estrelas, poeira e gás. A exposição total foi de 78 minutos. Esta montagem pode ser colocada sobre um tripé, mas utilizo uma coluna de concreto, que oferece maior estabilidade. Para acoplá-la à coluna, projetei um disco-adaptador em alumínio, que foi usinado nas máquinas de usinagem da Engenharia Mecânica, com a ajuda de um amigo, no início do ano passado.

Outro ponto importante é o local, que deve ser longe das luzes das grandes cidades, por causa da poluição luminosa. Esta imagem foi feita de um sítio no sul de Minas Gerais, no início de setembro, numa noite limpa e sem lua.

Depois, há um trabalho computacional de processamento dos dados brutos capturados pela câmera. O objetivo é gerar uma imagem bela, mas também natural e fiel ao que foi capturado. Nada na foto foi inventado ou adicionado em software, mas há técnicas estatísticas para redução de ruído, e é possível fazer ajustes de brilho, contraste e realce de cores, por exemplo.

Meu objetivo com a imagem foi ressaltar as nuances da rica cor dourada das estrelas da região central da Via Láctea, em contraste com as nuvens de gás e poeira escuras. Busquei uma composição dinâmica, com a Via Láctea na diagonal, contrapondo nebulosas brilhantes no canto esquerdo, e nebulosas escuras, com destaque à Nebulosa do Cachimbo, à direita. Uma foto com telescópio das nebulosas da esquerda, formando o “Tripleto de Sagitário”, foi publicada em 26 de abril de 2021.

Para mim, ter uma imagem como APOD é tanto uma honra quanto uma felicidade! É a terceira vez que tenho tal reconhecimento. É muito legal ver um trabalho amador, com equipamentos relativamente simples, figurando entre imagens de grandes telescópios profissionais e missões espaciais. A comunidade brasileira tem feito astrofotografias excelentes, e é sempre bom mostrar um pouco desse trabalho para o mundo todo.

Ver e poder registrar tantos milhares de estrelas nos faz mais humildes. Fotografar os objetos celestes é uma atividade inspiradora, e compartilhar essas imagens é uma forma de mostrar a beleza do Universo e incentivar a busca de conhecimento. O convite de olhar mais para o céu e conhecer as estrelas está sempre feito.