O trabalho da Poli Social e do Poli Ben

A vontade de criar um grupo de extensão que contribuísse para a sociedade de maneira positiva e com significado fez surgir dentro da Escola Politécnica (Poli) da USP, a Poli Social. O desejo de estudantes politécnicos de integrarem trabalhos voluntários, conhecerem diversas realidades e de auxiliarem a sociedade se uniu às muitas necessidades que Organizações Não-Governamentais, as ONGs, haviam acumulado com suas experiências no terceiro setor.

 

Com o conhecimento adquirido ao longo dos cursos curriculares e acadêmicos desenvolvidos na Universidade, em agosto de 2014, um grupo de alunos se uniu para estruturar, estudar e iniciar um projeto de impacto. As diretrizes da Poli Social se consolidaram como um grupo de extensão voltado a agir socialmente em favor de inovações para a comunidade. No mesmo ano, os alunos definiram que para seguirem tais ideais, suas principais atividades seriam focadas na execução de projetos de consultoria para ONGs e a organização e elaboração de eventos que impactassem o social. 

 

A tradição foi fortalecida com os anos e, até hoje, o grupo atua das duas formas: por meio da área de Projetos, que faz consultoria de gestão gratuita às ONGs e outras instituições sem fins lucrativos, e por intermédio da área de Eventos, que organiza encontros e cerimônias focados nas premissas dessas entidades e da comunidade politécnica como um todo, aproximando e criando laços para que ambos os universos interajam entre si.

 

“No mundo USP, é difícil conhecer toda a Universidade e a grande quantidade de entidades, iniciativas, grupos de pesquisa e oportunidades – e mesmo que tenhamos de 4 a 6 anos para finalizarmos a graduação, o tempo acaba sendo curto. Mas essa cultura de grupos de extensão é ótima para unirmos mais pessoas num projeto que faça sentido – não só para nós, mas para a sociedade. É o que sinto estando na Poli Social.”, destaca Fernanda Soares, organizadora de Eventos.

[Imagem: Poli Social]
[Imagem: Poli Social]

Os projetos da Poli Social

 

Responsáveis por efetuar projetos de consultoria gratuitos com ONGs, que forem selecionadas a partir de um edital liberado anualmente, cada equipe do grupo, que possui um time de consultores e um gerente, cooperativamente se une a uma das entidades por cerca de um ano. Ao longo desse tempo, produz-se uma análise de funcionamento da ONG, em que os consultores têm o papel de identificar as dificuldades que a organização encara, a fim de pensar em recursos que solucionem essas dores. Após serem apresentadas e analisadas pela respectiva organização, a equipe insere as mudanças pensadas e faz um trabalho de observação de resultados.

 

Segundo Gustavo Silva Ribeiro, diretor de Projetos da Poli Social, o grupo se baseia em dois ciclos: um de diagnóstico e um de implementação. O primeiro faz uma varredura das dificuldades e estabelece quais são os problemas passíveis de solução; posteriormente, no segundo ciclo, as equipes designadas trabalham em períodos mensais de implementação e observação das mudanças propostas. “Nosso papel é o de conectar o politécnico com agentes e projetos do terceiro setor, enquanto promovemos a parte social que a pesquisa e os estudos adquiridos nos deram, sem cobrar nada de ninguém”, afirma Gustavo.

O diretor explica que a Poli Social possui um processo seletivo que abrange etapas de inscrição, avaliação em dinâmicas e entrevistas – “Nosso processo não é eliminatório. Todos os alunos interessados participam de todas as fases, pois queremos vê-los como se desenvolvem como um todo: em dinâmicas coletivas e individuais e como podem contribuir em cada uma delas”, afirma. Amanda El Khouri Sharau, diretora de Eventos, ressalta que, apesar de ser um grupo de extensão que utiliza um processo seletivo, a dinâmica da Poli Social é horizontal, “todos os cargos e falas são de igual importância dentro desse espaço e desenvolvemos papéis de mesma hierarquia. Tudo é levado em conta”.

Os eventos anuais da Poli Social

 

A área de Eventos fica responsável pela elaboração e organização de eventos que ocorrem tanto dentro da Escola Politécnica, quanto em espaços fora da Poli. Os eventos funcionam como um elo entre alunos politécnicos e o Terceiro Setor e é por meio dele que são convidados a atuarem de diversas formas em conjunto com as ONGs, enquanto se aproximam de diversas realidades e causas sociais.  

Crianças participando de dinâmicas do Poli Ben com estudantes da USP [Imagem: Poli Social]
  • O PoliBen

 

O Politécnico Beneficente, apelidado carinhosamente de PoliBen, é um evento organizado pela Poli Social desde 2015 que possui como objetivo principal apresentar a vida universitária para crianças e adolescentes de escolas públicas, na tentativa de mostrar a universidade pública como um caminho a ser seguido e almejado.

 

Em edições anteriores, o grupo de extensão trabalhou com atividades presenciais nas quais, costumeiramente em um dia de sábado, alunos voluntários recebiam um grupo de crianças no campus Butantã, em São Paulo. Durante o dia, os alunos da Poli, bem como de outras faculdades e entidades da USP, demonstravam um pouco do cotidiano de seus respectivos cursos aos presentes, por meio de atividades lúdicas e recreativas, muitas vezes com a participação de baterias acadêmicas. “Nosso objetivo e das outras entidades é trazer as crianças para o mundo da universidade pública e dar importância também aos outros cursos existentes, não focando apenas em Engenharias, Medicinas e Direito”, diz Amanda.

Ela se recorda de um episódio de uma edição anterior do evento, partindo do relato de uma voluntária que ficara responsável por um dos meninos participantes: “a criança entrou dizendo que queria ser policial para matar bandido e saiu querendo ser biólogo. Essa alteração de lógica foi mudada em poucas horas. É a vida de uma pessoa, mas pode ser a vida de várias outras transformada”.

 

Em decorrência da pandemia da covid-19, em 2021, assim como em 2020, o evento foi realizado em formato virtual. Assim, no decorrer do mês de setembro, o grupo utilizou a ferramenta do Instagram para apresentar vídeos de alunos dos mais diversos institutos e cursos da USP, apresentando sua vivência na Universidade. “No virtual, nossa alternativa foi adaptar o PoliBen, decidindo por mudar o público-alvo: agora com crianças mais velhas, adolescentes e em fase de vestibulares. Junto com o Instituto UNO, que trabalha com educação de crianças em situação de acolhimento. Fizemos uma rifa para arrecadar contribuições que foram destinadas aos projetos do Instituto”, comenta Henrique Miranda Amaral, gerente de Eventos.

[Imagem: Poli Social]
[Imagem: Poli Social]

 

Além da rifa, em parceria com a editora Companhia das Letras, o grupo sorteou 6 livros para os presentes.

 

Fernanda  comenta que os escopos do evento foram ampliados, abrangendo outras áreas que não conseguiam alcançar no presencial, com mais oportunidade de conexão entre crianças, politécnicos e a importância de contribuir socialmente. 

 

“Durante a pandemia, temos motivado muitas arrecadações e rifas para ajudar ONGs que, com a crise pandêmica, sofreram muitos cortes. O Terceiro Setor é muito subjetivo, então é difícil medir o impacto que eles obtêm, ainda mais durante a pandemia, em que, comparativamente, até grandes empresas sofreram”, ressalta Amanda.

  • O Trote Solidário

 

O Trote Solidário é realizado logo após a matrícula dos ingressantes da Poli e a ação se dá por meio da revitalização de uma escola pública da região próxima à Universidade, unindo dois objetivos principais: o impacto no entorno e a conexão dos alunos politécnicos com causas sociais. “O trote social é importante para revitalizar as áreas-comuns das escolas. As crianças voltam para a escola na segunda-feira super felizes com as mudanças e essa alegria se multiplica entre os politécnicos recém-ingressos, que sentem parte de sua contribuição fazendo efeito”, comenta a diretora de Eventos.

[Imagem: Poli Social]

“A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana” – Franz Kafka

 

Os alunos descrevem o desejo que sentiam de fazer parte de um grupo na Universidade que fosse voltado a cumprir demandas do Terceiro Setor, enquanto capacitavam em si mesmos os ensinamentos proporcionados por boas ações. Além de promover integração e sociabilidade universitária, principalmente em tempos de isolamento social, todos destacam esse retorno como sendo o mínimo estando em uma universidade pública. 

 

Amanda ressalta as tentativas incessantes de atingir o público na Poli, com prêmios e certificados para serem colocados no currículo a fim de atrair mais pessoas a conhecer causas nobres. “Faz parte da vida universitária pensar em temas que são parte do nosso dia-a-dia e que não conseguimos refletir muito e, para isso, trazemos profissionais das áreas específicas para conversarmos sobre esses dilemas”.

 

Gustavo faz questão de comentar que há outro lado: “estamos numa bolha de contas, resolvemos problemas e acabamos esquecendo do mundo externo. Estando no automático, esquecemos que estamos lá porque a sociedade, de certa forma, paga para formar cientistas, pesquisadores e profissionais que contribuem para melhorias no dia-a-dia.” Segundo o estudante, essa lógica é parte de um dos ensinamentos da Poli como um todo: resolver problemas e tentar contribuir ao máximo. “Contribuímos com a nossa bagagem acadêmica, mas também com uma troca que é pessoal: aprendemos com os desafios e isso reflete em como vamos lidar em outras áreas profissionais no futuro. Doação não é só de dinheiro, doação é compartilhar habilidades e ensinamentos acumulados.”, finaliza.

[Imagem: Poli Social]