Posicionamento da Escola Politécnica da USP sobre matéria da Folha de S.Paulo sobre professores de engenharia naval

Senhor Editor, 

Gostaríamos de nos posicionar com relação à matéria publicada pela Folha/UOL, no dia 16/07/2019, intitulada “Devemos levar antas que dão aula na USP para aprender saber tradicional, diz Klink” (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/07/devemos-levar-antas-que-dao-aula-na-usp-para-aprender-saber-tradicional-diz-amyr-klink.shtml). 

Nos causou bastante estranheza e preocupação que, de uma interessante palestra do navegador e escritor Amir Klink, proferida na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), tivesse sido dado, por esse órgão de imprensa, destaque a uma manifestação tão pouco elogiosa aos docentes desta Escola. 

Conhecemos e entendemos o posicionamento do Sr. Klink baseados no prefácio de seu livro “Cem Dias Entre Céu e Mar” em que afirma admirar a atitude de Fritjof Nansen, Prêmio Nobel, e Roald Amundsen, estudante de Medicina. Ambos expedicionários noruegueses que realizaram prodígios rumo ao Polo Norte, Nansen, e na conquista do Polo Sul, Amundsen, por respeitar profundamente o conhecimento tradicional de povos habituados ao frio, da Groenlândia, por exemplo. 

Tratou a palestra, entre outros temas, da importância do conhecimento tradicional, no sentido de entregue de uma geração à próxima, versus a cultura acadêmica. Segundo Josef Pieper em On the idea of “the academic” 1955, a primeira Universidade foi criada por uma mulher, seguindo como modelo a Escola de Platão. Se chamava Academia pela proximidade com o bosque de Akademos. Não existe verdadeira universidade sem atitude acadêmica, que está ligada à atitude filosófica, à teoria e, por isto mesmo, à um compromisso acima de tudo com a verdade. 

O conhecimento tradicional costuma ter um compromisso com a verdade, afinal, nestes assuntos de navegação, trata-se de vida ou morte. Mesmo no conhecimento aplicado como é a Engenharia, a atitude acadêmica é necessária. Sem atitude acadêmica não há verdadeira engenharia. É absolutamente falsa a contraposição entre conhecimento tradicional e verdadeira engenharia. Uma das consequências de a universidade se afastar da atitude acadêmica é que ela se torna presa do poder político ou do poder econômico (Pieper 1955). Fenômeno que os romanos conheciam e está cristalizado na expressão, “Ceasar non est supra gramaticos” (Pieper 1955). 

A crítica à Engenharia na USP é sempre bem vinda, quando a crítica tem este compromisso com a verdade. Como dizem, “a excelência é uma sobrevivente” e a crítica séria nos aproxima dos nossos objetivos acadêmicos. Jornalista e escritor generalizaram um evento com um docente para toda uma universidade. Há uma grande distância entre valorizar o saber tradicional e desvalorizar o acadêmico. 

Acreditamos, fortemente, que, nesses tempos de ataques constantes à cultura nacional, à ciência e às Universidades, os órgãos de imprensa e as pessoas de destaque, influenciadores de opinião, devam, obviamente seguindo sua consciência, colaborar com 

essa difícil missão de defender a credibilidade no nosso país, na ciência e na universidade nacionais. 

Entendemos que o respeito a um professor (dentro ou fora de uma sala de aula convencional) contribui para o engrandecimento de nosso país, com respeito à pluralidade, às manifestações culturais de todos os tipos e àqueles que têm trabalhado com tanta dedicação para o desenvolvimento da ciência e tecnologia brasileiras. 

O Sr. Amyr Klink participou algumas vezes de eventos nesta Escola. Logo depois de ter atravessado a remo o Atlântico, ele proferiu uma palestra narrando esta expedição. Ano passado, por exemplo, foi convidado e proferiu palestra na aula inaugural de uma disciplina, em nosso curso de Engenharia Naval, que conta também com a colaboração da Marinha do Brasil. Nestas duas ocasiões ele demonstrou gratidão ao engenheiro que o ajudou a projetar o barco a remo da travessia, que, curiosamente, trabalhava no IPT, instituto de pesquisas que nasceu de laboratório da Escola Politécnica. 

Neste sentido é bom lembrar que, há mais de 63 anos, este curso forma os oficiais Engenheiros Navais de nossa Marinha. Além das pesquisas científicas e tecnológicas desenvolvidas para a indústria naval e oceânica, a Escola se dedica ao saber tradicional e histórico, a aspectos culturais e sociais relevantes para a área naval. Por exemplo, realizou a reprodução digital e o estudo do comportamento de canoa das monções pelo Rio Tietê entre os séculos 18 e 19 em parceria com o Museu Republicano de Itu, desenvolveu o projeto de veleiro Paraolímpico, investigou as características e comportamento de embarcações em madeira para pesca na costa do Espírito Santo, entre outros. 

Entre as investigações de impacto ambiental devemos citar os trabalhos de acústica submarina para monitorar o deslocamento de mamíferos na costa brasileira e o uso de bactérias para retirar metais pesados de reservatórios de rejeitos de mineração. A Escola Politécnica trabalha próxima de comunidades e saberes tradicionais através de muitas associações, por exemplo, o Portal Poli Cidadã que atrai pedidos de entidades como cooperativas, hospitais, cidades e associações para interagir com seus saberes e oferecer o olhar específico da engenharia. 

Convidaremos mais uma vez o Sr. Amir Klink para que venha à Escola Politécnica contar as suas experiências, suas críticas e conhecer um pouco mais do que tem sido desenvolvido aqui, tanto do ponto de vista científico e tecnológico como social e ambiental. 

Estaremos sempre à disposição para esclarecer qualquer tipo de dúvida com relação à importância das universidades brasileiras e de seu corpo acadêmico e técnico. 

Atenciosamente,

A Diretoria da Escola Politécnica Universidade de São Paulo