Avaliações presenciais são imunes a fraude?

Professor Mauro Zilbovicius, réplica ao artigo “Vulnerabilidades debilitantes das ferramentas para avaliações on-line da USP”, do Ronaldo de Breyne Salvagni, publicado na edição de 6/7/2020 do Jornal da USP.

O Professor Reinaldo Salvagni ataca as avaliações feitas no ambiente escolar online, argumentando que os desonestos vão fraudar essas avaliações. É certo. Mas o Professor diz que as avaliações presenciais tradicionalmente também têm problemas: “na própria USP, em provas presenciais, em todos os anos temos casos e abrimos sindicâncias para apurar tentativas de fraude e uso de recursos ilícitos – por que isso não iria ocorrer no ambiente on-line?” Mas quem disse que no ambiente online isso não irá ocorrer? Provavelmente vai. Cabe a quem argumenta, para afirmar algo que preste nesse assunto, mostrar que no ambiente online ocorre MAIS fraude do que no ambiente presencial. É possível, cientificamente, afirmar isso? Está pesquisado, documentado? 

Costumo brincar (a sério) com alunos no início de provas presenciais que rigorosamente não é proibido colar; proibido é ser pego pelo professor. E eles correm o risco de serem pegos por um professor tem 30 anos de experiência nisso mais 5 como aluno da Poli… E no entanto, por mais que o professor cuide de evitar a fraude, é provável que o número de casos de fraude ocorridos sejam maiores do que o número de casos de fraude identificados.

Depois de conversar muito com os alunos sobre a importância de aprender o conteúdo da disciplina, o que não é mesmo que “passar” na disciplina, e dizer a eles que engenheiros que não sabem calcular custos vão ser reprovados, se não na escola, no mercado de trabalho. Ainda que obtenham aprovação por procedimentos escusos, não se pode afirmar que os alunos trapacearam na avaliação aplicada mais (ou menos) do que na avaliação presencial.

Segundo ponto: de fato, em Engenharia e Medicina o diploma confere o direito ao exercício da profissão. Se isso é assim, não é por decisão da Universidade e nem é função desta última suprir a ausência de avaliação para exercício de profissão que, pessoalmente, acho que deveria existir. 

Mas vejamos: na Poli, um aluno que obtiver 5,0 (cinco “bola” como os alunos costumar dizer) em todas as disciplinas de um curso, será diplomado sem qualquer problema. No entanto, a Escola terá atestado que ele sabe apenas 50% do conhecimento, e que isso é suficiente para obter o diploma. O CREA autoriza o exercício da profissão de engenheiro civil que domina apenas 50% do conteúdo da formação. Estruturas podem cair, não? O problema é “political correctedness”?A avaliação presencial “meio conteúdo”, mesmo honesta, é suficiente?

Por fim, de fato, fraudadores prejudicam sujeitos éticos e morais. Mas submeter sujeitos éticos e morais a procedimentos que muitas vezes beiram o desumano – criando aversão ao aprendizado, ao ambiente escolar – e, ainda por cima, insuficientes para identificar em 100% os fraudadores, faz sentido? 

Foto: IEA/USP.
Foto: USP Imagens.