Sabidos e Sábios – por José Roberto Castilho Piqueira

A comunidade acadêmica brasileira é dirigida por muita gente sabida. Gente que inventa índices, critérios numéricos e maneiras quantitativas de premiar seus afetos e punir seus desafetos. 

Há, também, os promotores de festinhas e homenagens, sempre sonhando com as reciprocidades que elas proporcionam e os possíveis alinhamentos político-partidários que levam a cargos de destaque, ao longo da carreira.

Felizmente, na maioria das vezes, trabalhando sem interesses pessoais, há os sábios e as sábias. Cito Jorge Sotomayor, Jaime Cruz, Eva Blay e o saudoso Léo Borges Vieira. Esses sábios trabalham pela educação e pela ciência todos os dias. Inspiram jovens, dão aulas excelentes, criam ambientes colaborativos e trazem a marca da generosidade.

Os sábios e sábias permitem que os acadêmicos normais compartilhem seus sonhos, por mais modestos que sejam, criem projetos, evoluam intelectualmente e ajudem a formar novos profissionais tão necessários para o país que precisa aprimorar sua cultura e desenvolvimento científico.

Ontem recebemos a triste notícia do falecimento de um grande sábio: Sérgio Mascarenhas. Foram 93 anos de muita inteligência, dedicação e criatividade: Eletretos, UFSCAR, EMBRAPA, Biomedicina e tantas outras contribuições.  

Algum sabido vai escrever que ele formou X mestres, Y doutores, publicou Z artigos, com índice h igual a W. Enfim, uma numerologia inútil e que fala muito pouco do que Sérgio Mascarenhas fez pelas pessoas e pela ciência.

Eu tinha 17 anos e, em 1970, ingressei na Escola de Engenharia de São Carlos. Meu pai, em seu fusca velho, me levou feliz para a cidade que mudaria minha vida. A Escola era pequena e os Institutos de Física e Matemática, hoje destacados centros científicos, eram departamentos da velha EESC.

Logo no primeiro ano me encantei: tive professores inesquecíveis de Cálculo, Álgebra Linear e, principalmente, de Física. Aquele pequeno campus, fervilhando em Ciência, tinha nomes que o sustentavam: Hildebrando Munhoz Rodrigues, Mário Saab, Nelson Onuchic, Achile Bassi e o então jovem cientista sonhador, Sérgio Mascarenhas.

Ele havia proposto, em 1969, o curso de Engenharia de Materiais para a EESC. Mas a comissão de sabidos, designada pela reitoria da USP para analisar a proposta, reprovou-a. Como ele era teimoso, foi em frente e São Carlos ganhou a UFSCAR, em 1970, com o inovador curso, líder na área até hoje.

Suas realizações e biografia, outros colegas podem descrever melhor. Eu reencontrei o Sérgio (assim ele gostava de ser chamado) quando ele me convidou para falar sobre Engenharia da Complexidade, no IEA de São Carlos. Tive, então, a honra de me tornar amigo de um de meus ícones de juventude.

Ouvindo-o, convenci-me da necessidade dessa transformação na Engenharia brasileira. Com outros colegas, propusemos uma estrutura curricular para um curso inovador que está engavetado em algum lugar, por recomendação e ação dos sabidos. 

A morte do Sérgio, aos 93 anos de idade, nos inunda de tristeza, mas dá esperança de trabalho e vontade de seguir seu exemplo de sapiência no mundo dos sabidos, mesmo sendo um simples normal.