Politécnicos contam onde um engenheiro ambiental pode trabalhar

Análise de dados, pesquisa científica, gestão em indústrias e no serviço público estão entre as atividades em que ex-alunos passaram a atuar depois de formados

     Por Tainah Ramos

Em novembro do ano de 2015, a região de Mariana, Minas Gerais, experimentou o rompimento da barragem de rejeitos, pertencente à empresa Samarco. As consequências foram perdas humanas e ambientais, pois além dos 18 mortos, os rejeitos atingiram o Rio Doce, uma importante bacia hidrográfica que banha os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Em janeiro de 2019, Brumadinho, também em Minas Gerais, foi vítima de outro rompimento de barragem, que deixou mais de 230 mortos. Ano após ano, cidades brasileiras enfrentam desastres que poderiam ser evitados, por meio de tecnologias e gestão de risco, que dependem de profissionais de diversas áreas, entre elas, a engenharia ambiental.

Neste sentido, é essencial a formação de profissionais capacitados para evitar este tipo de tragédia, e para mitigar os danos. Na Escola Politécnica (Poli) da USP, o Centro Acadêmico de Engenharia Ambiental reuniu um grupo de ex-alunos para contar aos futuros engenheiros as suas experiências profissionais, e mostrarem quais as possibilidades dentro da área. O principal papel da profissão, segundo um dos palestrantes, Pedro Ludovico, é o de evitar que os desastres e falhas aconteçam, atentar-se para que a regulamentação seja obedecida, e reparar possíveis falhas.

 

Tendo em vista o impacto social da profissão, estudantes da Poli convidaram os engenheiros ambientais formados para apresentarem possíveis atuações na área. Os formados enfatizaram que uma boa escolha da área de atuação passa pela vivência de diversas experiências ‒ como estágios, disciplinas optativas, iniciação científica, entre outras ‒ para que o profissional se identifique e busque oportunidades.

Helena Chung, formada em Engenharia Ambiental pela Poli, falou  sobre sua experiência profissional no setor de energia. Helena trabalha na iniciativa privada e está ligada a uma área que pode levar o profissional preocupado com o futuro do planeta a buscar soluções concretas. Ela atua com o levantamento de dados para estimativas quanto à diversidade da matriz energética no futuro.

Carla Vargas Ferracini, também presente na esfera privada, já atuou  na Ambev, Pepsico, entre outras empresas, abordou a carreira da perspectiva de sua história pessoal. Em geral, Carla exerce sua profissão na produção industrial – na gestão ambiental prática, como no tratamento de efluentes; e administrativa, na implementação de programas e procedimentos jurídicos. “Meu caminho na área ambiental começou já na graduação, com uma iniciação científica em Análise de Ciclo de Vida, com o professor Gil Anderi, da Engenharia Química. A primeira dica que dou é algo muito importante durante toda a vida profissional de qualquer pessoa: networking. É muito importante construir uma rede de relacionamentos com pessoas da área.” Ela ainda frisa a importância estar aberto às oportunidades. “Nunca me imaginei morando fora de São Paulo, por exemplo, e acabei vivendo cinco anos longe de casa, em três cidades diferentes. A experiência foi maravilhosa e me enriqueceu tanto como profissional quanto como pessoa. Temos que aproveitar o momento de recém-formados, jovens, para ganhar o mundo e colecionar experiências. O mundo é muito maior que a Poli, e tem muito a nos ensinar.”

Carla contou também sobre sua vivência na graduação para além das responsabilidades acadêmicas. “Treinei atletismo, do primeiro ao terceiro ano, e handebol, do quarto ao quinto. Fui ao “inters” (jogos universitários). Participei da Comissão de Formatura, o que me proporcionou muito trabalho no final da Poli, mas também, muita diversão. Fiz um intercâmbio para o Havaí nas férias a fim de aperfeiçoar meu Inglês.”

O engenheiro ambiental Gabriel Nogueira Fenerich, por sua vez, atuou no setor público,na COHAB-SP e na Secretaria de Habitação. Ele trabalhou no gerenciamento de áreas contaminadas, licenciamento de obras e empreendimentos e na gestão de passivos (degradações ambientais e processo judiciais). Gabriel detalhou a burocracia presente nas instituições públicas, não como um fator negativo, mas como uma necessidade de registro. A rotina do trabalho público na área de engenharia ambiental inclui atividades como vistorias, fiscalizações, elaboração de justificativas e termos de referências, entre outras ações necessárias para cumprir as legislações vigentes.

“‘Empatia’ não é apenas uma palavra bonita, é a essência de uma boa atuação profissional."
Pedro Ludovico
Pesquisador

Já Pedro Ludovico, que estagiou durante a graduação em um laboratório de pesquisa na Poli,  após formado optou por prosseguir na carreira acadêmica. Ele trabalha no Laboratório de Sistemas de Suporte a Decisões em Engenharia Ambiental e de Recursos Hídricos, ligado ao Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental  da Poli como pesquisador, realizando a análise de projetos relacionados à hidrologia, como macrodrenagem, segurança de barragens, previsão de inundação, entre outras atividades para prevenção de desastres.

 

 

A dica de Pedro é abrir os olhos para todas as possibilidades. “É importante não se cobrar para ter uma decisão definitiva ao final do curso, mudanças na vida profissional são comuns, principalmente nessa área. A lição mais valiosa que temos na universidade é “aprender a aprender” ou “aprender a se adaptar”. Com isso, podemos lidar desde as menores mudanças, até às mais radicais em nossa carreira, aliviando o peso da escolha do primeiro emprego”. Ele afirma também que, no fim, o principal papel do engenheiro é estar a serviço da sociedade. “‘Empatia’ não é apenas uma palavra bonita, é a essência de uma boa atuação profissional. Na engenharia ambiental, sempre lidamos, em alguma instância, com pessoas. Depois de formado, participei do Engenheiros Sem Fronteiras e foi uma experiência transformadora que me permitiu uma aplicação mais prática da profissão, sua atuação para a sociedade.”

 

Serviço

O curso de Engenharia Ambiental é oferecido pela Escola Politécnica da USP em São Paulo, na Cidade Universitária. Anualmente, são oferecidas 55 vagas para o curso, sendo 33 para ampla concorrência, e 22 para alunos de escolas públicas e que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas.