Conheça a trajetória do Professor Rubem La Laina Porto

Por Antonio Marcos de Aguirra Massola

No início do mês de julho do último ano, a Escola Politécnica foi surpreendida por notícia muito triste. Tinha acabado de nos deixar o Professor Doutor Rubem La Laina Porto.

Para quem não conheceu o Professor Rubem, precisamos relatar que se tratava de um professor extremamente dedicado e carinhoso com o que estava acostumado a fazer. Ajudar a todos os seus colegas e amigos era uma característica pessoal do ilustre professor, além de ser conhecido como um ser humano excepcional, dotado de rara inteligência sempre procurando desvendar os mistérios de um líquido precioso e absolutamente indispensável, a água, e o que ela representa para a nossa vida, desde sua captação, tratamento e destino correto e adequado para atender a todos, sempre preocupado na solução de recursos hídricos!

Nasceu na cidade de Itápolis, no interior do Estado de São Paulo, veio muito jovem para a Capital, e ingressou na Escola Politécnica, tendo terminado o curso de Engenharia Civil na turma de 1966. 

Na Escola Politécnica desenvolveu suas atividades docentes e sua carreira profissional, tendo cumprido com seu programa de Mestrado e Doutorado e sempre na área de Recursos Hídricos, sua grande e entusiasmante paixão. 

Após concluir seu Doutorado e não querendo prosseguir na sua carreira acadêmica na Universidade e Escola, decidiu seguir os seus anseios em realizar e vencer novos desafios práticos e, assim partiu para voos mais altos fora do país e selecionou uma grande Universidade do Exterior para  então se dedicar à realização de estudos em Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos, como pós doutorado, na Colorado State University System.

Julgou então que sua carreira não precisava de mais títulos acadêmicos e então passou a desenvolver intensas atividades de pesquisas, realização de projetos desafiadores, participar e ministrar  conferências e palestras tanto no país como no exterior.

Toda sua produtora ação pode ser avaliada pela extraordinária quantidade de publicações que passou a desenvolver e que pode ser consultada através da leitura do seu Curriculum Lattes no qual constam publicações contidas em revistas nacionais e internacionais. A maior curiosidade dos trabalhos e palestras representam extraordinária presença na área de Recursos Hídricos.

Na Escola Politécnica, como dedicado docente, ministrou inúmeras disciplinas sempre muito bem recebidas e assistidas, quer fosse como cursos da área de graduação como também na pós graduação.

Assim sem muitas dificuldades, e valendo-se de sua extraordinária competência, tornou-se então coordenador do Programa de Pós Graduação do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola, hoje Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental. 

Sempre desempenhou importante papel e deu sua contribuição na formação de novos alunos, sejam estes como seus estagiários na Escola, como também sempre se destacou como um excelente e dedicado orientador de trabalhos de pesquisa, quer em planejamento, como gerenciamento e principalmente gestão de recursos hídricos, nas áreas de mestrado e doutorado.

Muito preocupado com a aplicação prática das soluções cientificamente concebidas, com seu grande espírito empreendedor e criativo, iniciou a formação, em 1996, do Laboratório de Sistemas de Suporte a Decisão em Recursos Hídricos – LabSid, junto ao Departamento de Engenharia Hidáulica e Ambiental da EPUSP. Ali, com sua capacidade técnica e seu interesse em formação de recursos humanos e inovação, concebeu estudos de sistemas de recursos hídricos, criando novas plataformas de software para auxílio na tomada de decisão para operação de grandes sistemas. Criou o sistema de apoio a decisão para operação do Sistema Cantareira, a plataforma Acquanet, de livre acesso, que se tornou o software oficial da Agência Nacional de Águas, melhorou os sistemas de informação de inúmeros comitês de bacia. Mais importante do que tudo isso, exerceu sua paixão treinando e desenvolvendo uma geração de técnicos que está transformando os processos de tomada de decisão e de solução de conflitos em recursos hídricos.

Como excelente administrador e pesquisador participou efetivamente do desenvolvimento do DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo e como tal desempenhou suas atividades em várias diretorias. Foi responsável pelo primeiro grande estudo de águas subterrâneas no Estado de São Paulo, trabalho que serve de referência até os dias de hoje, dentro do Departamento ao qual encontrava-se engajado, mas principalmente, como Diretor do CTH – Centro Tecnológico de Hidráulica, cujas instalações se localizam na Cidade Universitária, no quadrilátero tecnológico da Escola Politécnica e que opera mediante Convênio existente entre o DAEE e a Universidade de São Paulo, por meio da Escola Politécnica, modernizou e ampliou os estudos em modelos físicos fluviais e marítimos.

Entre os trabalhos que veio a realizar destacam-se o levantamento e projetos das barragens do Alto Tietê e do Sistema de Operação da Rede Hidrológica do Estado de São Paulo, além de muitos outros projetos e programas que sempre procurou se dedicar e realizar. Durante sua gestão frente ao CTH, sempre com seu espirito desbravador, concebeu junto com a área de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica e a FDTE – Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia, os primeiros medidores telemétricos de precipitação e nível, criando assim o embrião do primeiro sistema de alerta de inundações do país. Foi responsável, junto com o Prof. Benedito Braga, pela implantação do primeiro radar meteorológico no Brasil, o que veio a se tornar o sistema SAISP, que hoje atende toda a região metropolitana de São Paulo. 

Quando da implantação da Fundação CTH – Centro Tecnológico de Hidráulica destacou-se como um dos seus fundadores e Presidentes, dando grande impulso à busca de recursos financeiros para projetos de destaque no setor de recursos hídricos.

Outra contribuição de destaque do Prof. Rubem foi sua participação na fundação da Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRHidro. Foi seu segundo presidente e sempre se dedicou com imenso carinho ao seu crescimento e destacada importância no cenário nacional, sublinhando as contribuições que sempre lhe foram caras: formação de recursos humanos e sobretudo na inovação tecnológica.

Como um dos seus últimos trabalhos merece destaque especial sua ativa participação para vencer a crise hídrica que o Estado de São Paulo experimentou, pois, com sua dedicação, competência e criatividade, aliada à sua equipe do LabSid, propôs inúmeras ações, principalmente no tocante à operação dos sistemas de reservatórios,  

Era casado com a Professora Mônica Porto, sua colega de Departamento na Escola Politécnica, com quem teve o privilégio de desenvolver muitos projetos de pesquisa e que colaborou muito dedicadamente nos acontecimentos que permitiram vencer a crise hídrica do Estado.

Perde assim a Universidade de São Paulo e a Escola Politécnica um excelente docente e um altamente qualificado profissional, o Estado e o País privam-se de poder contar com um grande e inédito colaborador na área de Recursos Hídricos.

Se quisermos resumir seu legado em apenas algumas linhas, há que se destacar sua preocupação e dedicação à formação de jovens. Aqueles que tiveram contato com ele hão de se lembrar e de se emocionar com seu genuíno interesse na pessoa humana.

Teve sempre como lema de vida a frase do grande poeta Fernando Pessoa, “.. tudo vale a pena se a alma não é pequena.”.