Por que o Brasil precisa de Engenheiros Nucleares?

A partir de 2021 a Escola Politécnica (Poli) da USP passa a oferecer a habilitação em Engenharia Nuclear. Esta área pode ser vista como negativa devido a grandes tragédias, porém a relevância da utilização de materiais nucleares vai desde a produção de energia até a fabricação de fármacos para tratamentos e equipamentos médicos. Como o Brasil dispõe desses recursos, é necessário formar profissionais para atuarem nessa indústria, e continuar a aprimorar as tecnologias e desenvolver inovações. Historicamente o Brasil teve diversos projetos na área nuclear e até hoje é um dos poucos países que dominam todo o ciclo do combustível nuclear – da extração ao gerenciamento de rejeitos.

O professor da Poli, Cláudio Geraldo Schön, contextualiza: “A radiação está presente na nossa vida cotidiana. Todo mundo pensa a energia nuclear como produção de energia, e é importante por fazer parte da nossa grade de energia elétrica, mas as pessoas usam energia nuclear quando, por exemplo, vão fazer um exame de imagens em hospitais, o que é importante para um médico dar um diagnóstico para o paciente”. O docente cita, ainda, que o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), está na última fase de licenciamento e será instalado na cidade de Iperó, na Região Metropolitana de Sorocaba, e sua principal função é fornecer ao Brasil os principais produtos para a medicina nuclear do País.

O docente defende que o curso se faz necessário pois, para operar e desenvolver soluções ligadas a essas tecnologias, é preciso formar especialistas. “O grande problema do Brasil, pelo incrível que pareça, é mão de obra. Precisamos de engenheiros nucleares para operar ferramentas e equipamentos de engenharia nuclear. Estamos preocupamos em oferecer essa demanda de engenheiros para o mercado. A nossa Escola vai entrar com esse propósito, porém isso não quer dizer que nossos engenheiros terão que trabalhar dentro de usinas nucleares. Isso por que a radiação tem atuado em muitas áreas tecnológicas”.

O professor da Poli, José Carlos Mierzwa, que também participou da comissão que propôs o curso, explica que o Brasil já possui atuação em Engenharia Nuclear forte desde a década de 1950, quando o País participou de um programa dos Estados Unidos e da Agência Internacional de Energia Atômica, o Átomos para a Paz. O objetivo deste programa era, depois da utilização da tecnologia com o uma arma, difundir a noção dos benefícios da utilização da tecnologia nuclear.

“No período do pós-guerra, mais precisamente em 1953, o então presidente norte-americano Dwight Eisenhower propôs um projeto chamado “Átomos Pela Paz” (Atoms for Peace), que visava levar os benefícios da recém-descoberta tecnologia nuclear para os países aliados dos EUA. Dentro desta iniciativa, foi incentivada a construção de reatores nucleares de pesquisa ao redor do mundo, e por meio dela foi construído o primeiro reator nuclear do Brasil, o IEA-R1. Este reator foi implantado no recém-inaugurado Instituto de Energia Atômica em 1956, dentro do então praticamente deserto campus da USP no Butantã – que, nesta época, contava com apenas 2 ou 3 construções.” Trecho disponível no site do Ipen.

Mierzwa conta que o Brasil já vinha trabalhando e formando profissionais em nível de pós-graduação, principalmente físicos e engenheiros, por meio de programas internacionais de estudos, e o Ipen foi se consolidando na pesquisa, principalmente na área de radioisótopos, reatores, gerenciamento de rejeitos radioativos, produção de radiofármacos para uso na medicina. O professor explica que, devido também a projetos como o submarino nuclear e as usinas de Angra, o Brasil foi dominando aos poucos a tecnologia, o “Ciclo do combustível nuclear”.

O Ciclo do combustível nuclear consiste em todas as etapas, desde a extração do minério de urânio, o projeto de reatores nucleares, montagem, operação, até o gerenciamento de rejeitos radioativos. “Uma etapa sensível desse ciclo é o enriquecimento isotópico, que é a produção de urânio para usar em um reator nuclear. Poucos países na época tinham, e o Brasil conseguiu desenvolver, sendo um dos poucos países que dominam todo o ciclo do combustível nuclear”, destaca Mierzwa.

A tecnologia de enriquecimento do urânio, pelo processo da ultracentrifugação, foi desenvolvida no Brasil pelo Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo (CTMSP), em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN / CNEN). Leia mais.

O Brasil tem atuação e várias empresas na área nuclear – a Eletronuclear, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), o Centro Experimental de Aramar da Marinha, o projeto da base de submarinos da Marinha no Rio de Janeiro, tem outros institutos de pesquisa no País – que absorvem profissionais de outras áreas e os capacitam para atuar com tecnologia nuclear. O professor Mierzwa explica que para dar conta de toda essa demanda, faltava a formação de profissionais, em nível de graduação, para atuarem nessas áreas. Neste sentido, devido à posição de destaque tecnológico e disponibilidade de recursos naturais, o curso da Poli, assim como o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), visa formar profissionais para atender a esta necessidade no contexto nacional. 

Do ponto de vista estratégico, o Brasil precisa desenvolver essa área para produção de energia. Mierzwa aponta que há algumas avaliações que indicam as reservas disponíveis de urânio no Brasil são a segunda maior fonte para a geração de energia.  “Para o País se desenvolver, ele precisa de energia. Se não houver condição de desenvolver essa área, o Brasil vai acabar exportando esses nossos recursos para outros países sem poder utiliza-los, ou seja, transferir para outro País se desenvolver em detrimento do nosso”. O professor explica que o uso da energia nuclear pode servir para melhorar o desenvolvimento do País de maneira mais ampla. “Com o desenvolvimento da energia você desenvolve outras áreas, tem uma alavancagem muito grande de recursos tecnológicos”.

Uma área onde a tecnologia nuclear é também muito importante é a produção de radioisótopos, necessária para o tratamento e diagnóstico de várias doenças, feitos com base em materiais derivados da energia nuclear, como traçadores radioativos, usados em diagnósticos e mapeamentos de tumores e vários outros tipos de diagnósticos. “No passado, o Brasil tinha condição de produzir e hoje estamos importando, o que acaba tendo um custo elevado”, relata Mierzwa. “Com a falta de reatores nucleares e, também, do desenvolvimento dessa área, isso acabou ficando restrito”. 

Por fim, os materiais também são utilizados a agricultura, uma vez que vários alimentos que o Brasil exporta, principalmente frutas, são submetidas a processos de radiação para eliminação de microorganismos. “É uma área bastante importante para o Brasil, no desenvolvimento de equipamentos para esta aplicação”. 

Em relação ao estigma da área nuclear, em relação aos riscos, o docente explica que as pessoas costumam ligar às bombas e aos acidentes ocorridos em outros países. “Há diferença na tecnologia desenvolvida no Japão e a que desenvolvemos aqui no Brasil. O tipo de tecnologia que a gente usa para reatores é um tipo bastante diferente deste, se você for pesquisar você vai ver que o número de acidentes com a tecnologia que o Brasil usa na área é muito menor do que de outros tipos de fontes de energia. Então é mais seguro que energia hidrelétrica, entre as coisas que podem acontecer”.

Quanto à questão ambiental, o professor explica que, em comparação, não há emissões atmosféricas de CO2. “A usina nuclear não tem esse problema, ela não tem o processo de combustão”. Mierzwa, que hoje atua na área de engenharia ambiental e tratamento de efluentes, conta que a área ambiental avançou por conta da área nuclear. “Vários problemas que tinham que ser resolvidos na área nuclear, os pesquisadores foram atrás de novos métodos e novos procedimentos para melhorar a gestão, essa tecnologia acaba sendo transferida para a área convencional”.

Texto: Amanda Rabelo, com a colaboração das estagiárias de jornalismo Beatriz Carneiro e Letícia Cangane. Com informações do Jornal da USP.

Revisão: Rosana Simone.

“O Brasil domina todo o ciclo do combustível nuclear”.