Do laboratório de química à engenharia de alimentos: a trajetória da professora Carmen Tadini

Carmen Tadini é professora titular do departamento de química da Poli. Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP

Carmen Cecília Tadini, antes de se tornar doutora em engenharia química e professora titular na Poli, foi uma estudante paulistana que descobriu nas aulas de laboratório o gosto pela química. Concluindo o ginásio da época, a jovem precisava decidir qual caminho seguir no então colegial — seu pai, conhecendo seu interesse particular pela química, viu ali um potencial e sugeriu que a filha ingressasse em um curso técnico daquela área, o que ela acabou fazendo. 

Ainda na adolescência, o caminho que Carmen trilharia na área da engenharia começou a ser traçado: ela iniciou os estudos na Escola Técnica Oswaldo Cruz, em São Paulo, onde teve certeza que era disso que gostava.

Depois de formada, chegou a hora de iniciar o curso superior. A escola dela tinha planos de abrir um curso de engenharia química, o que fez a jovem pesquisar sobre a área e pensar que podia ser interessante fazer engenharia química ao invés da graduação em química. 

Na hora do vestibular, foi aprovada na Unicamp, mas — e aí a surpresa — não na química, e sim na sua segunda opção, engenharia de alimentos. 

Fui para a Unicamp, era uma universidade bastante jovem na época, e tinha uma coisa interessante: para dar uma visão mais generalista das ciências da engenharia, eles separavam os alunos por ordem alfabética e as turmas eram mistas. Não eram só alunos da engenharia, também tinha alunos que estavam fazendo matemática, física, química. Eu achei essa proposta interessante porque o conteúdo era o mesmo dado, e o que se exigia para um aluno da física exigia-se de um aluno que está fazendo engenharia. 

Eu acho que isso foi importante. Foi difícil, foi um desafio, porque o curso era integral mesmo, a gente tinha 40 horas/aula por semana. todos os dias, o dia todo, sem folga. Acho que isso deu uma formação muito sólida para mim, das ciências que são a base da engenharia. 

Por toda a sua carreira, a professora Carmen Tadini acumula contribuições importantes tanto para a engenharia química quanto para a de alimentos, os dois caminhos que acabaram se cruzando. Ao assumir a disciplina de Engenharia de Alimentos na Poli, em 1989, a docente reformou todo o curso, que antes não tinha um foco em engenharia, e alterou os conteúdos para que os alunos se sentissem mais motivados, dentro de um braço avançado da engenharia química. 

Ainda atuando na educação dos futuro engenheiros, publicou, em conjunto com outros três professores da área, o livro Operações Unitárias na Indústria de Alimentos, vencedor do prêmio Jabuti de engenharia em 2016 e que “é a coluna vertebral do curso de engenharia de alimentos, e tem penetração hoje em inúmeros cursos de engenharia no Brasil”, como conta a própria Carmen. 

E não para por aí. Como pesquisadora, a doutora Carmen Tadini contribuiu com o laboratório de engenharia de alimentos da Poli, uma área antes inexistente no departamento e hoje bastante produtiva, com expressão internacional e apoio da FAPESP. O NAPAN — Núcleo de Apoio à Pesquisa em Alimentos e Nutrição da USP, que é multidisciplinar, é coordenado pela pesquisadora. 

Toda essa trajetória na engenharia rendeu a Carmen Tadini o devido reconhecimento: ela já recebeu importantes prêmios nacionais e internacionais decorrentes de suas pesquisas.

Hoje, a docente  Carmen Cecília Tadini é professora titular do Departamento de Engenharia Química da Poli; vice-diretora do Centro de Pesquisas em Alimentos da USP (FORC); coordenadora do NAPAN; pesquisadora nas áreas de embalagens biodegradáveis, para substituir o polímero de petróleo pelo amido de mandioca; processos térmicos envolvendo microondas; uma tecnologia alternativa para processar alimentos líquidos, impactando menos o uso da água em seu processo e tornando-o mais eficiente energeticamente; e também está colocando seus egressos, ex-orientandos, em importantes institutos de pesquisa pelo mundo todo — Nova Zelândia, França, Inglaterra, Estados Unidos. 

 A gente está sempre tentando orientar e publicar resultados que sejam impactantes nessa área mesmo. Eu sinto que tive sucesso com relação a isso.

Texto: Letícia Cangane, estagiária de jornalismo.

Revisão: Amanda Rabelo e Rosana Simone, jornalistas.